sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Juca Pirama - Parte I



Embora todos saibamos a inverossimilhança do ideal de índio narrada por Gonçalves Dias e o abismo de diferença entre o tupi e timbiras representados e os verdadeiros, não se pode deixar de apreciar a excelente poesia. Juca Pirama é o poema épico brasileiro. Ou o épico índio. Mostra um índio que representa uma nação, ou antes todas as nações de índios. O herói no entanto passa por momentos de desonra que o elevam ainda mais nos momentos de honra e glória. Além disso é um guerreiro com sentimentos. A única coisa que o faz vacilar ante a morte é o amor pelo pai. E isso o faz ainda mais heróico.



Juca Pirama - Gonçalves Dias - Parte I



I-Juca Pirama

No meio das tabas de amenos verdores, 
Cercadas de troncos - cobertos de flores, 
Alteiam-se os tetos d’altiva nação; 
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, 
Temíveis na guerra, que em densas coortes 
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória, 
Já prélios incitam, já cantam vitória, 
Já meigos atendem à voz do cantor: 
São todos Timbiras, guerreiros valentes! 
Seu nome lá voa na boca das gentes, 
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, 
As armas quebrando, lançando-as ao rio, 
O incenso aspiraram dos seus maracás: 
Medrosos das guerras que os fortes acendem, 
Custosos tributos ignavos lá rendem, 
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro, 
Onde ora se aduna o concílio guerreiro 
Da tribo senhora, das tribos servis: 
Os velhos sentados praticam d’outrora, 
E os moços inquietos, que a festa enamora, 
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto, 
Sua tribo não diz: - de um povo remoto 
Descende por certo - dum povo gentil; 
Assim lá na Grécia ao escravo insulano 
Tornavam distinto do vil muçulmano 
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro 
Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro 
Assola-se o teto, que o teve em prisão; 
Convidam-se as tribos dos seus arredores, 
Cuidosos se incubem do vaso das cores, 
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira 
Entesa-se a corda da embira ligeira, 
Adorna-se a maça com penas gentis: 
A custo, entre as vagas do povo da aldeia 
Caminha o Timbira, que a turba rodeia, 
Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança, 
Afeitas ao rito da bárbara usança, 
índio já querem cativo acabar: 
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, 
Brilhante enduape no corpo lhe cingem, 
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,


II

Em fundos vasos d’alvacenta argila 
Ferve o cauim; 
Enchem-se as copas, o prazer começa, 
Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam, 
Sentado está, 
O prisioneiro, que outro sol no ocaso 
Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo, 
Mostra-lhe o fim 
Da vida escura, que será mais breve 
Do que o festim!

Contudo os olhos d’ignóbil pranto 
Secos estão; 
Mudos os lábios não descerram queixas 
Do coração.

Mas um martírio , que encobrir não pode, 
Em rugas faz 
A mentirosa placidez do rosto 
Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta 
No passo horrendo? 
Honra das tabas que nascer te viram, 
Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes 
Revive o forte, 
Que soube ufano contrastar os medos 
Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, 
Lá murcha e pende: 
Somente ao tronco, que devassa os ares, 
O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse, 
Como viveu; 
E o caçador que o avistou prostrado 
Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes 
Revive o forte, 
Que soube ufano contrastar os medos 
Da fria morte.


III

Em larga roda de novéis guerreiros 
Ledo caminha o festival Timbira, 
A quem do sacrifício cabe as honras, 
Na fronte o canitar sacode em ondas, 
O enduape na cinta se embalança, 
Na destra mão sopesa a iverapeme, 
Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo 
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra, 
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, 
Como que por feitiço não sabido 
Encantadas ali as almas grandes 
Dos vencidos Tapuias, inda chorem 
Serem glória e brasão d’imigos feros.

"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro; 
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, 
"As nossas matas devassaste ousado, 
"Morrerás morte vil da mão de um forte."

Vem a terreiro o mísero contrário; 
Do colo à cinta a muçurana desce: 
"Dize-nos quem és, teus feitos canta, 
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa 
O índio, que ao redor derrama os olhos, 
Com triste voz que os ânimos comove.


IV

Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi: 
Sou filho das selvas, 
Nas selvas cresci; 
Guerreiros, descendo 
Da tribo tupi.

Da tribo pujante, 
Que agora anda errante 
Por fado inconstante, 
Guerreiros, nasci; 
Sou bravo, sou forte, 
Sou filho do Norte; 
Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas, 
De tribos imigas, 
E as duras fadigas 
Da guerra provei; 
Nas ondas mendaces 
Senti pelas faces 
Os silvos fugaces 
Dos ventos que amei.

Andei longes terras 
Lidei cruas guerras, 
Vaguei pelas serras 
Dos vis Aimoréis; 
Vi lutas de bravos, 
Vi fortes - escravos! 
De estranhos ignavos 
Calcados aos pés.

E os campos talados, 
E os arcos quebrados, 
E os piagas coitados 
Já sem maracás; 
E os meigos cantores, 
Servindo a senhores, 
Que vinham traidores, 
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo, 
Meu último amigo, 
Sem lar, sem abrigo 
Caiu junto a mi! 
Com plácido rosto, 
Sereno e composto, 
O acerbo desgosto 
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado 
Já cego e quebrado, 
De penas ralado, 
Firmava-se em mi: 
Nós ambos, mesquinhos, 
Por ínvios caminhos, 
Cobertos d’espinhos 
Chegamos aqui!

O velho no entanto 
Sofrendo já tanto 
De fome e quebranto, 
Só qu’ria morrer! 
Não mais me contenho, 
Nas matas me embrenho, 
Das frechas que tenho 
Me quero valer.

Então, forasteiro, 
Caí prisioneiro 
De um troço guerreiro 
Com que me encontrei: 
O cru dessossêgo 
Do pai fraco e cego, 
Enquanto não chego 
Qual seja, - dizei!

Eu era o seu guia 
Na noite sombria, 
A só alegria 
Que Deus lhe deixou: 
Em mim se apoiava, 
Em mim se firmava, 
Em mim descansava, 
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado 
De penas ralado, 
Já cego e quebrado, 
Que resta? - Morrer. 
Enquanto descreve 
O giro tão breve 
Da vida que teve, 
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo, 
Mas forte, mas bravo, 
Serei vosso escravo: 
Aqui virei ter. 
Guerreiros, não coro 
Do pranto que choro: 
Se a vida deploro, 
Também sei morrer.


V

Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba; 
Os guerreiros murmuram: mal ouviram, 
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem! 
Brada segunda vez com voz mais alta, 
Afrouxam-se as prisões, a embira cede, 
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

Timbira, diz o índio enternecido, 
Solto apenas dos nós que o seguravam: 
És um guerreiro ilustre, um grande chefe, 
Tu que assim do meu mal te comoveste, 
Nem sofres que, transposta a natureza, 
Com olhos onde a luz já não cintila, 
Chore a morte do filho o pai cansado, 
Que somente por seu na voz conhece. 
- És livre; parte. 
- E voltarei. 
- Debalde. 
- Sim, voltarei, morto meu pai. 
- Não voltes! 
É bem feliz, se existe, em que não veja, 
Que filho tem, qual chora: és livre; parte! 
- Acaso tu supões que me acobardo, 
Que receio morrer! 
- És livre; parte! 
- Ora não partirei; quero provar-te 
Que um filho dos Tupis vive com honra, 
E com honra maior, se acaso o vencem, 
Da morte o passo glorioso afronta.

- Mentiste, que um Tupi não chora nunca, 
E tu choraste!... parte; não queremos 
Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas 
O rebater do coração se ouvia 
Precípite. - Do rosto afogueado 
Gélidas bagas de suor corriam: 
Talvez que o assaltava um pensamento... 
Já não... que na enlutada fantasia, 
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, 
Do velho pai a moribunda imagem 
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato! 
Curvado o colo, taciturno e frio. 
Espectro d’homem, penetrou no bosque!
.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ecos de Paris



Agora coloco a metade do primeiro capítulo de uma das obras do maior expoente realista português: Eça de Queiroz. O autor, que vivia em Paris, teve grande influência dos escritores franceses da época. Alguns de seus romances, como a trilogia "O crime do padre Amaro", "Os Maias" e "O primo Basílio" seguem a estrutura do romance realista francês. E outros, como "A cidade e as Serras" tem mais o estilo próprio do autor. No entanto, mesmo os primeiros têm características que fogem um pouco à cartilha através de personagens não planos entre outras. Ecos de Paris fala ao mesmo tempo da cidade e da vida social.
Essa introdução no primeiro capítulo conta a descaracterização cultural para imitar as revoluções sociais que aconteciam em Paris. Caminho esse que desagrada o autor e ao fim do qual ele prevê o total desinteresse pelas cópias em detrimento de Paris e Londres.



Ecos de Paris - Eça de Queiroz



I
PARIS E LONDRES


Eu não direi, como Lord Beaconsfield, que «no mundo só há de verdadeiramente interessante Paris e Londres, e todo o resto é paisagem». É realmente difícil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou ver apenas no movimento social da Alemanha um fresco regato que vai cantando por entre as relvas altas.
Não se pode negar, porém, que a multidão contemporânea tende para esta opinião do romanesco autor de Tancredo e da guerra do Afeganistão: nada vê no universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa coisa cintilante e vaga que pode compreender desde as criações da arte até aos  menus  dos restaurantes, desde o espírito das gazetas até ao luxo das librés – e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se dela, onde ela é mais original, mais complexa, mais rica, mais pitoresca, mais episódica, em Paris e em Londres: ao resto da Terra pede apenas cenários de Natureza, relíquias de arte, trajes e arquitecturas...
... Em Roma contempla os ornamentos do passado – o Coliseu e o papa; em Madrid interessam-no só os Velásquez e os touros; ninguém viaja na Suíça para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar diante dos Alpes.
E assim, para a turba humana, mais impressionável que critica, o mundo aparece como uma decoração armada em tomo de Paris e Londres, uma curiosidade cenográfica que se olha um momento, pedindo-se logo toda a atenção na tragicomédia social que palpita ao centro.
Isto  é uma superstição. Mas se realmente, o mundo fosse apenas uma paisagem acessória  – a devoção burguesa por Paris e Londres, residências privilegiadas da humanidade criadora, seria justificável: porque, na verdade, o interesse do universo está todo na vida, na sua luta, na sua paixão, no seu cerimonial, no seu ideal e no seu mal. O Sol, nascendo por trás das Pirâmides, sobre o fulvo deserto da Líbia, forma um prodigioso cenário; o vale do Caos, nos Pirenéus, é de uma grandeza exuberante – mas todos estes espectáculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comédia de ciúmes, passada num quinto andar. Que há, com efeito, de comum entre mim e o Monte Branco? Enquanto que as alegrias amorosas do meu vizinho, ou os prantos do seu luto, são como a consciência visível das minhas próprias sensações.
O grande Dickens, diante dos Alpes ou dos palácios de Veneza, punha-se a pensar com saudades nas tristes ruas de Londres, num rumor de fim de dia e no prazer de surpreender as expressões de ansiedade, triunfo ou dor, nas faces dos que passam, alumiados pelo gás vivo das lojas. E que o melhor espectáculo para o homem  – será sempre o próprio homem.
Se sobre a Terra só houvesse fachadas de catedrais ou vulcões flamejantes, a Terra parecer-nos-ia tão insípida como a Lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a própria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as  águas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o vale – a paisagem é intolerável, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença de um peito, de um coração vivo.
Mas a verdade  é que fora de Paris e Londres há também humanidade. Sampetersburgo não forma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou Sampetersburgo como um mero acessório da decoração, como aquele arabezinho diminuto que os fotógrafos colocam sempre à base das ruínas de Palmira, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de púrpura que nos quadros do século XVII ornam as paisagens ideais.
O que essa humanidade de província faz, diz, sofre ou goza – é-lhe indiferente. Não é a ela que vai ver, se visita os lugares que ela habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada  é algum monumento, algum panorama  –- a paisagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Sintra, a Alemanha é o Reno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois dele, o que estraga a beleza de Lisboa  é a
presença do Lisboeta  – como a mim o que me estraga a Alemanha  é a presença do Prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade  – a de Paris e de Londres.
Mas, dentro em pouco, nem ruínas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, nas maneiras e nos edifícios, desde os regulamentos de polícia até à vitrina dos joalheiros  – a dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, há cópias do Mabile, e os ulemás esquecem as metáforas gentis dos poetas persas, para repetir os
ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi, ao penetrar as muralhas de Jerusalém foi o cancã da Bela Helena, e saiu da habitação de um rabi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dois velhos colarinhos de papel,  modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetizavam suficientemente aquela
riba sagrada.
O mundo vai-se tornando uma contrafacção universal de Bulevar e da Regent Street. E o modelo das duas cidades  é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginaliza, e se perde sob a forma francesa ou britânica, mais se considera a si mesma civilizada e merecedora dos aplausos do Times. O Japonês julga-se, na escala dos seres, muito superior ao Chinês, porque em Yedo já o indígena se penteia como o tenor Capoul e lê Edmond About no original; enquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pequim, ainda vai no rabicho e em Confúcio. E, ainda assim, nas margens do Amor já há fábricas de tecidos de algodão, como em Manchester.
Positivamente, inclino também para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do universo está em Paris e em Londres: tudo mais é má imitação de província. Por isso que a curiosidade pública  é impelida para lá – dando ao resto do mundo apenas aquele olhar rápido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paisagem ou se perfilam linhas de um pórtico.
É por isso que ninguém que tenha o orgulho de se considerar ser racional prescinde de se informar diariamente de tudo  que se passa em Paris ou em Londres, desde as revoluções até às toilettes, desde os poemas até aos escândalos.
O desejo mais natural do homem é saber o que vai no seu bairro e em Paris.
Que importa o que sucede na  Ásia Central, onde os Russos se batem, ou  na Austrália, onde há crise ministerial? O que se quer saber é o que fez ontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.
E com razão: a Ásia Central e a Austrália não ensinam nada, e Paris e Londres ensinam tudo.
Tendo assim sacrificado suficientemente à regra, que quer que todo o escritor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de frases genéricas armadas em pórtico – creio que devo começar esta crónica falando hoje de Paris, capital dos povos e pátria genuína de Mr. Prudhomme...

sábado, 3 de novembro de 2012

Alma Minha Gentil, que te Partiste


Apesar de controverso, muitos julgam Camões o maior poeta da língua portuguesa. Embora sua imortalidade seja devida sobretudo ao seu poema épico, os Lusíadas, recebe um lugar importante em sua obra a poesia lírica. Enquanto na primeira há o otimismo com relação ao futuro e o orgulho das glórias do passado, na segunda há a melancolia e muitas vezes a saudade, exclusividade nossa. O sentimento intraduzível, o estar sozinho entre as gentes, uma das bases do tripé da alma portuguesa, aliada à coragem e à amizade.



Alma Minha Gentil, que te Partiste - Luís Vaz de Camões


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

À Conceição Imaculada de Maria Santíssima

Gregório de Matos é considerado o pai da poesia brasileira. Ao mesmo tempo em que escreveu poesias sacras de sublime piedade, escrevia também sátiras totalmente mundanas. Ele foi sem dúvida o grande e primeiro expoente da poesia barroca. Sua poesia sacra utiliza as formas clássicas de soneto e linguagem mais rebuscada. No entanto, a clareza e certa simplicidade nas linhas de raciocínio tornam suas poesias claras e acessíveis. Já a poesia satírica usa mais formas populares e muitas vezes escondem o verdadeiro sentido que se queria passar na época.



À Conceição Imaculada de Maria Santíssima - Gregório de Matos


Para Mãe, para Esposa, Templo e Filha,
Decretou a Santíssima Trindade
Lá da sua profunda eternidade
A Maria, a quem fez com maravilha.

E como esta na graça tanto brilha,
No cristal de tão pura claridade
A Segunda Pessoa humanidade
Pela culpa de Adão tomar, se humilha.

Para que foi aceita a tal Menina?
Para emblema do Amor, obra piedosa
Do Padre, Filho, e Pomba essência trina:

É logo conseqüência esta forçosa,
Que Estrela, que fez Deus tão cristalina
Nem por sombras da sombra a mancha goza.

domingo, 28 de outubro de 2012

Nossas Madres Vam a Sam Simon


Entre a aurora da literatura portuguesa certamente as cantigas de amor e de amigo tem o primeiro lugar. Era uma das bases, ainda antes de ser trazida a forma clássica italiana de soneto. Existem muitas cantigas certamente mais importantes do que a seguinte. Escolhi essa no entanto por ser uma cantiga de amigo, ou seja, com o eu-lírico feminino, onde o refrão é bem claro e bem colocado e retrata cenas da vida cotidiana ao invés do amor cortês de sonho das cantigas de amor. Além disso, por ser em galego-português, a maioria delas é de difícil compreensão. Essa é bem clara, tanto no sentido geral como nas palavras antigas.


Nossas Madres Vam a Sam Simon - Pero Viviães


Pois nossas madres vam a Sam Simom
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos d'andar
com nossas madres, e elas entom
       queimem candeas por nós e por si,
       e nós, meninhas, bailaremos i.
 
Nossos amigos todos lá irám
por nos veer e andaremos nós
bailand'ant'eles fremosas em cós;
e nossas madres, pois que alá vam,
       queimem candeas por nós e por si.
       e nós, meninhas, bailaremos i.
 
Nossos amigos irám por cousir
como bailamos e podem veer
bailar [i] moças de bom parecer;
e nossas madres, pois lá querem ir,
       queimem candeas por nós e por si,
       e nós, meninhas, bailaremos i.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Minha Gente - Parte IV


Trechos da Carta do Autor ao amigo João Condé que o pediu que falasse um pouco sobre a confecção de Sagarana:


"Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a-China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores es talarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.
Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir.
Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, revendo paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã.
O livro foi escrito — quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas — em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).
Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos (titulo provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após. "

E quando descreve cada uma das histórias:



"VII)  MINHA GENTE —   Por causa de urna gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais."


Minha Gente - Guimarães Rosa - Parte IV


Ontem, esteve aqui na fazenda um rapaz da vila. Bem vestido, simpático. Mas, logo que eu soube que ele viera quase somente para ver Maria Irma, tive-lhe ódio. E tive também o impulso de observar ao meu tio que os costumes da nossa terra estão progredindo demasiado depressa, e que quadravam melhor à suas austeridades de antanho.
O rapaz trouxe livros para minha prima. Penso mesmo ele os traz freqüentemente, porque ouvi Maria Irma falar-lhe em restituir outros. Livros em francês... Nunca pensei que minha prima os lesse. Também, ela hoje está toda diferente, mais bonita; por ocasião da minha chegada não se enfeitou assim! Entre Maria Irma e esse moço há qualquer coisa. Exaspero-me Detesto-os!
Ainda bem que um camarada veio dizer que estava passando ao largo, uma grande boiada, vinda do poente. Pedi um cavalo e fui para a estrada, e mui me serviu galopar ao sol, metade do dia, porque coisa mais bonita do que uma boiada não existe, não ser o pio do patativo-borrageiro, que é a tristeza punctiforme,  ou a Lapa do Maquiné, onde a beleza reside.
Cheguei de volta em casa á noitinha. O outro, graças a Deus, já se fora. Maria Irma foi muito boazinha para mim. Incomodou-se por eu não querer jantar. Ofereceu-me compota de toranjas, e isso me pareceu peitamento. Com um esforço heróico, recusei: o doce tinha sido feito para o meu rival.
Maria Irma estranha os meus modos. Pergunta se estou doente. Então, bruscamente, a interpelo:
— Por que você nunca me disse que gostava de ler, Maria Irma?!
— Pois você nunca me perguntou...
— Esse rapaz é que é o seu noivo?
— Não, não é este... E, também, noiva eu não sou, você bem sabe!
— Não fique zangada comigo, prima...
— Não estou... Mas você não deve me olhar assim... Parece que quer me fotografar...
Recuo. O que eu queria era só apertá-la nos meus braços.
— Mas, quem é então aquele rapaz, Maria Irma?
— O Ramiro? É o noivo de Armanda, amiga minha...
— E quem é Armanda, Maria Irma? É bonita? Filha de fazendeiro? Mora aqui por perto?
— É muito bonita, foi educada com parentes no Rio, já esteve na Europa, é filha de fazendeira porque o pai já morreu mora no Cedro.., e você é que nem um padre, para especular!
— E que vem fazer aqui o noivo, se tem uma noiva assim?
— Vem visitar-nos, quando tem de passar por aqui... Há algum mal na nossa amizade?
— E a outra sabe? Consente?
— Ela quer o que quer, e tem confiança em Ramiro, e em mim, que sou sua amiga...
— Não sou bem dessa teoria... Quando é o casamento?
— Armanda ainda não quis marcar a data...
— Ela domina o teu amigo, pelo que vejo...
— Não diga isso, primo, é absurdo!
— Maria Irma, sabe de uma coisa? Você gosta do Ramiro e o Ramiro gosta é de você. Apenas...
— Há outra coisa também, que você não sabe..
— Que é, prima?
— E que você é um imbecil, primo!

***

Chegou hoje cedo a máquina-de-escrever, encomenda de Tio Emílio, que a desencaixotou, pressuroso, promovendo-nos a seus secretários — Maria Irma e eu. É verdade que, a mim, de começo, ele nada pediu. Creio até que haja sorrido com malícia, ao ver a boa-vontade com que me ofereci para ajudar.
Mas, assim, pude passar o dia inteiro ao lado da minha prima. E juntos confeccionamos quase duas dezenas de cartas, na grande maioria destinadas a insignes analfabetos. No correr das horas, rascunhando “Prezado amigo e distinto correligionário” e “amo. obro.ato. ador.”, bem que eu projetei mais de uma investida, mas a coragem me faltou. Maria Irma agora não me fixava: espiava só para baixo, para o outro lado ou para a frente, se bem que eu às vezes lhe surpreendesse ligeiros olhares de viés.
À tarde, por fim, pus-me em brios, e me declarei, com veemência e transtorno. Maria Irma escutou-me, séria. A boquinha era quase linear; olhos tinham fundo, fogo, luz e mistério; e tonteava-me ainda mais o negrume encapelado dos cabelos. Quando eu ia repetir o meu amor pela terceira vez, ela, com voz tênue como cascata: orvalho, de folha em flor e flor em folha, respondeu-me:
— Em todos os outros que me disseram isso, eu acreditei... só em você é que eu não posso, não consigo acreditar...
Protestei, perdendo o resto do aprumo, com larga gesticulação e atropelo de argumentos.
Maria Irma sorriu:
— Gosto de ouvir você assim... Fica perfeitamente infantil... Eu fora às cordas. Mas ainda reagi:
— Quem sabe você me toma por um bicho-papão, Mariairmazinha?
E ela, empertigando a cabecinha, quase num desafio:
— Isso mesmo! Você disse bem.
Mas, nisso, o juiz entrou no ring, isto é, surgiu meu tio, entusiamadíssimo:
— Vamos escrever à Don’Ana do Janjão, da Panela-Cheia! Carta grande, palavreado escolhido. E outra para o bobo do marido... Mas não bota nada de que ele é bobo, aí, não, hein!?...
—  Carta simples, Tio Emilio? Só para cumprimentar?
— Não. É avisando que eu troquei duas imagens para a capelinha do Retiro. Santa Ana e São João... E, como foi em honra deles dois, que são meus amigos, faço questão de que eles sejam os padrinhos!... Põe, na carta, que eu considero muita honra. Vou fazer festa: música, missa cantada, o diabo!
Maria Irma, sem pestanejar, me explica: Don’Ana do Janjão e Janjão da Don’Ana são respectivamente esposo e esposa, e, pois, coproprietários da fazenda da Panela-Cheia. Janjão da Don’Ana é um paspalhão, e não conta. Mas Don’Ana do Janjão é uma mulherhomem, que manda e desmanda, amansa cavalos, fuma cachimbo, anda armada de garrucha, e chefia eleitorado bem copioso, no município n° 3.
— Mas, meu tio, essa graciosa homenagem vai render-lhe pouco serviço... Os eleitores de Don’Ana do Janjão sendo de outro município...
Ora, que idéia, meu sobrinho! Então você pensa que é só por interesse que a gente agrada as pessoas de quem a gente gosta?... E mesmo que fosse... Mesmo que fosse, tem muita gente, da banda de cá das divisas, que morre para obedecer à minha comadre Don’Ana...
— Comadre?
— Uê! Pois não vai ser?... Ela mais o marido, que é muito boa Pessoa, não vão batizar as imagens que eu mandei vir para a capelinha? Pode escrever, pode pôr na carta: “Minha ilustríssima e prezada comadre...” e na outra: “querido e estimado compadre Coronel Janjão”. Ele não é coronel nenhum, mas não faz mal... Muito distinta, a comadre Don’Ana... E capaz de querei fazer com a gente um trato por fora: ela manda o pessoal dela por aqui votar comigo, e eu faço o mesmo com o povinho tenho por lá, no Piau...
— Falo nisso, na carta, tio?
— Nada. Por enquanto, nada... Mas, capricha, mesmo Pergunta como é que vai o Juquinha... Juquinha é o ai-jesus de la, é um menino que a minha comadre Don’Ana está criando.

***

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irmã. Antes não o tivesse feito: quanto mais eu pelejava para assentar o idílio, mais minha prima se mostrava incomovível, impassível, sentimentalmente distante. Não importa, no começo é assim mesmo — pensei. Devo mostrar-me caído, enamorado.
Ceder terreno, para depois recuperá-lo. É boa tática... Um “gambito do peão da Dama”, como Santana diria... Por onde andará Santana?
— Você não teve saudades de mim, Maria Irma?
— Que pergunta! Nós estamos na mesma casa, estivemos separados só nas horas de sono...
— Pois, para mim, já é demais, Maria Irma... Preciso da tua presença...
— Me diz outra coisa: você é ambicioso?
— Eu?
— Pois não é? Não é ambicioso?
— Não sei. Uma coisa, sim, eu ambiciono...
— Um automóvel?
— Maria Irma!
— Que cor de automóvel você prefere? Talvez o papai compre um...
Não ouvi o resto. Tudo saiu pior do que o pior que  eu esperava! Maria Irma despreza a minha submissão. Tenho de jogar um “gambito do peão da Dama, recusado...”

***

No pastinho. Debaixo de um itapicuru, eu fumava, pensava, e apreciava a tropilha de cavalos, que retouçavam no gramado vasto. A cerca impedia que eles me vissem. E alguns estavam muito perto. No meio da rasa relva verde-água, uma poldra: deitada sobre a sua sombra. Arranjou um jeito de ajuntar bem as patas, e os olhos e a cabeça são tristes e velhos, na elástica infantilidade do corpo. Mas, há uma longa sugestão de maciez, nos pêlos felpos do pescoço.
O regato, acolá, azul claro, entre as margens de esmeralda, até parece abaulado. Para ele trota uma égua brilhantina — lisa e quente — que ao mover-se pega a desdobrar toalhas de carne, só músculos. Mas o poldrinho recém-nascido, ainda tão pernalta, vem pulando, atrás, aflito para mamar. Ao sumir o focinho sob o ventre e as coxas da mãe, todo o seu corpo é um alongar-se, de gula. A égua espera. Nunca ninguém soube dar com dignidade maior.
Aí, com o embornal e o cabresto, chegou o toquinho de gente preta de oito anos, que é o Moleque Nicanor.
— Que é que você veio fazer?
— Vim pegar o Vira-Saia, sim senhor, que patrão seu Emílio mandou...
— E você sabe?
— Pego, até sem precisar de milho nem cabresto! O senhor quer ver?
— Se fizer, ganha dois mil-réis. Moleque Nicanor arregalou os olhos, e eu pensei que ia vir as pancadas do seu coração.
Deixou comigo a capanga e o sedenho; foi acolá, cortou um cipó, e ajuntou pedrinhas no chapéu de palha.
— É prata mesmo que o senhor falou, ou é duzentorréis?
— Prata. Olha aqui...
A cem metros de nós, os cavalos pastavam calmamente.
— Uh, Coringa! Ei! Ei!...
Fazendo declarações de amor, com vozinha blandiciosa,  Moleque Nicanor vai andando devagarinho, em ziguezagues, diretamente para os animais, mas para um ponto imaginário, vinte metros á esquerda do bando. Agora assovia e sacode o chapéu com as pedras. Coringa relincha. Vira-Saia levanta a cabeça. Moleque Nicanor pára. Espera um pouco. Continua.
Os cavalos se afastam, mais metros para oeste. Moleque Nicanor alcançou o ponto visado, mas a distância inicial de pouco diminuiu.
Moleque Nicanor recomeça a manobra. Aí, de repente, nitrindo, os animais desembestam a correr pela campina, de nas abertas, em galope circular. Moleque Nicanor não se precipita. Parece ter previsto e alarma. Deita-se no capim, e, bem no centro da circunferência, espera que os eqüinos se cansem e desistam de correr. Então, ele recomeça. Assoviando, andando, parando, falando, agitando as pedrinhas no chapéu. Ao fim de um quarto de hora, não bem o que ele fez, além de ter feito o pelo-sinal; mas atropilha se fracionou. Os outros foram para longe, em dois grupos, para a borda da mata. Vira-Saia ficou sozinho.
O negrinho se endereça a ele, mas agora com requintes de suaviloqüência. Já estão a menos de vinte passos um do outro. E decerto que Vira-Saia está pensando que as pedrinhas do chapéu são mesmo milho debulhado, porque ele não sabe se quer correr ou se prefere esperar.
— Eh, meu irmãozinho! Eta beleza de cavalinho, só p’ra moça bonita montar!... Híu! Híu!... Vem cá, meu irmãozinho, chega p’r’aqui... Híu! Híu!...
A voz do Moleque Nicanor é uma comprida carícia. As pedrinhas chocalham. O cipó está bem escondido, debaixo do braço. Parou.
— Meu irmãozinho cavalinho... Híu! Híu!... Irmãozinho...
A distância agora é mínima. Vira-Saia avançou, um quase nada. Moleque Nicanor já estava imóvel. Vira-Saia vem mais pa ra perto... Mais... Pronto! Com viva rapidez e simulada displicência, Moleque Nicanor jogou o cipó no pescoço do animal. Vira-Saia estremeceu, mas queda quieto, porque pensa que já está mesmo prisioneiro. E, dócil, aceita que Moleque Nicanor lhe bata a mão num punhado de crina, e lhe passe o cipó na boca, abotoando-o em barbicacho e deitando uma volta furtada ao redor do focinho. Pula no
lombo nu do cavalo, dando-lhe com os calcanhares nas costelas. E grita:
— Ei! Anda, égua magra! Piguancha!... Irmãozinho que nada! Já se viu cavalo nenhum serirmão de gente?!...
Tenho de pagar os dois mil-réis. E mesmo mais outros dois, porque Moleque Nicanor arranjou a estória de um chicote que ele teria perdido no meio do capim, e de um dinheiro que prometeu às almas do Purgatório, a troco de que elas lhe ensinassem onde era que o chicote estava.
— E você é capaz de fazer isso com qualquer cavalo?
— Dos daqui, qualquer um, afora o Caraúna, por causa ele é inteiro e vira fera, à toa, à toa: investe e amoita a gente a dente... Mas, se o senhor quiser mim dar outros dois mil-réis eu vou ver se caço jeito de campear ele p’ra o senhor ver.. Recuso a proposta. E Moleque Nicanor, sempre montado em pêlo, me toma a bênção e toca, a meio galope, sem nem ao menos fazer questão de substituir o cipó pelo cabresto.
E, nisto, fiquei sabendo, de repente, que tinha elaborado um plano. Tenho necessidade urgente de valorizar-me. Ah, Maria Irma!
Seo Juca Soares, da fazenda das Tranqueiras, a duas léguas daqui, sempre gostou de mim.
“Periquito” fanático, portanto inimigo político de Tio Emilio. Mas tem a Alda, que está muito bonita, dizem, e que, em outros tempos, tal qual Maria Irma foi minha namorada de brinquedo. Pois vou passear lá. Hoje mesmo. Vou passar o dia. Será que meu tio pode ficar zangado?
Nada, não se zangou; ao contrário:
— Eu acho até que não há mal nenhum em você ir.. . Vai, vai! Você vai já? Então, vamos juntos até no atalho da ponte, porque eu tenho de ir ver o Salvino, que vai ser do júri do Xandrão Cabaça...
Não esperava que fosse essa a reação do meu tio. Ficou quase entusiasmado com o meu projeto.
Simulando excesso de interesse pelo passeio, vim ver Maria Irma, que ficou imperturbável.
Pergunto:
— E verdade que a Aldinha do Juca está uma moça encantadora?
— É. Está muito engraçadinha... Sempre foi...
Silêncio. Sorriso ingênuo de Maria Irma. Assôo o nariz.
— Então, para você, tanto faz que eu me interesse ou por outra... Não é?
— Ninguém manda em coração...
— Me diz uma coisa, Maria Irma, você gosta um pouquinho de mim?
— Por que não? Gosto de todos os meus parentes... E você nunca me fez mal nenhum...
— Maria Irma!
— Olha, os cavalos já estão arreados... Lá vem papai. E você não deve se atrasar... Vai gostar da Alda... Só que você gostaria mais de Armanda...
— A noiva do teu Ramiro?
— Você é ridículo.
— Ele gosta de você. Você pensa que eu sou tolo?
— Eu, e só eu, sei quem gosta ou não de mim! — Também pode ser que ele goste de vocês duas... Como é ela? É alta?
— Não. Da minha altura. Mais cheia de corpo... É bonita...
— Monta a cavalo?
— E guia automóvel, muito bem... E saída...
— Perdão, Maria Irma?
— É muito desembaraçada... Independente... Moderna...
— Deixemos esta conversa tola, Maria Irma...
— Deixemos. Até logo. Bom passeio!
Mordi os beiços e não gemi. Santana teria apenas classificado: partida empatada, por xeque perpétuo...
Vou passar o dia em casa do Juca Soares. E, conforme seja, amanhã lá volto, e mais todos os dias, e ainda mais dias, se preciso for! E onde é que anda esse Moleque Nicanor, mestre em tretas, para ganhar, à toa, à toa, mais dois mil-réis?!
Cavalgamos lado a lado, e Tio Emilio insiste no tema: que as coisas vão mal. Não tem confiança nos eleitores do São Tomé, nem nos do Marimbo... No Calambau tudo ainda está pior...
Mostra-se tão desfavorecido, que só falta garantir a derrota seu partido “João-de-Barro”...
Diz isso e repete, cinco, seis vezes, enquanto eu vou remoendo comigo os meus insignes pesares de amor. Passada a ponte, separamo-nos. Juca Soares recebeu-me muito bem. A Alda é bonita.  Mas, tem olhos verdes... É clara demais, meio loura... Não se parece nada com Maria Irma... Não é Maria Irma!
Juca Soares também só fala da política: que tudo está rendo muito bem para os “Periquitos”. A vitória é certa...
O Governo dará apoio forte, vai mandar mais praças  para o destacamento... E eu fico convencido da verdade de tudo isso.
Pouco demorei, conquanto muitos fossem os agrados. E casa, Tio Emílio já me esperava, ansioso, via-se. Contei-lhe conversa com o adversário. Pergunta:
— Que foi que você disse a ele?
— Não me lembro... Ah, sim: acho que disse que o senhor estava um pouco desanimado,que talvez aceitasse um acordo. ; Fiz mal?
Tio Emilio avança, de exultante:
— Fez muito bem, isto mesmo é que sapo queria! Eles a vão pensar que é verdade, e vão amolecer um pouco... Estou desanimado, qual nada!... Mas você costurou certo. E agora que tudo está mesmo bom, pois se o Juca Futrica contou prosa é porque as coisas para ele estão ruins... Você me rendeu servição, meu sobrinho.
Oh, céus! Até a minha inocente ida ao Juca Soares foi explorada em favor das manobras políticas do meu tio... Corro Maria Irma, que, frente ao espelho grande, acertava o comprimento de um vestido grená, estendendo-lhe as mangas em asas de ave e prendendo a gola com o mento. Sorriu, estendeu-me a mão, dobrou com cuidado o vestido.
— Que tal, a Aldinha? perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
— Um pouco tolos... Um pouco primos.
— Falo a sério, Maria Irma!
—  Por que não avisou?
— Por favor, um armistício... Quero parlamentar...
—  Guarda a bandeirinha branca. Vou servir café a você...
— Só depois.
— Então, senta e fuma...
— Escuta, Maria Irma: eu gosto de você... Eu te amo!
—Você pensa que gosta...
— Acredita que seja verdade. Por um momento, só...
— Fiz de conta. E depois?
— Então...
— Solta a minha mão!... Você já devia de me conhecer bem, para saber que eu não gosto disso.
—  Uma palavra, apenas, Maria Irma... Posso esperar?
— Não.
— Diga, Maria Irma, por favor!
— Não.
— Pelo menos, fica sabendo que eu adoro você, que...
—  Não sei...
— Então, devo ir-me embora?
— Sim... Vai...
— Vou, Maria Irma!
— Espera... Para onde você vai?
— Primeiro para as Três Barras, amanhã mesmo. De lá, á Vila, e ás Tabocas, onde tomarei o trem...
— Espera... Não vá ainda... Fica mais uns dias...
— Por quê, Maria Irma? Para quê?
—  É que... É que eu convidei Armanda para vir passar dias aqui, depois da eleição...
—Você é má, Maria Irma. — Não sou. Fica... Você vai gostar...
—  Que astúcia você tem na cabecinha, prima?
— Bem, é melhor que você vá. Você era capaz de pensar que é por minha causa que eu estou pedindo...
— Adeus, Maria Irma... Irma Maria...
—Tenho um retrato de Armanda... Você quer ver?
— Mostra ao Ramiro!
—Teimoso!
-—Adeus, Maria Irma!
— Adeus, trapalhão!

***

E agora? Agora, vou-me embora para as Três Barras, onde mora o meu tio Ludovico, que não tem filha bonita nenhuma e não cuida de política. Vou, amanhã mesmo!

***

A Tio Emilio, aí que as eleições estavam beirando por pouco, custou concordar com a minha partida; falou em ingratidão e amuou. Maria Irma foi clássica: não disse pau e nem pedra. E eu, confesso, quase chorei, no caminho. Mas estava em cima de um burro pardo, e, desse modo, chorar seria falta de pudor.
Nas Três Barras, o mundo era outro: muitos vaqueiros cantores; muitas violas; muitos passeios; muito sofri por causa de Maria Irma...
Pensava: será que agora, com a minha ausência, Maria Irma não estaria começando a gostar de mim? E penava com isso, que o amor, ao contrário de acontecer como a água em dois vasos estanques, deva gangorrar como pesos em conchas de balança. E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação. Da varanda, eu espiava um pedaço, dado ao luar, de ar claro; as árvores ficavam tão quietas, que aquele campo parecia correr, como um vau de riacho raso, de transparência movente. As vacas, àquela hora, mugiam imenso, apartadas dos bezerros. Os dias me cansavam muito, mas eu não conseguia dormir. Pelas frinchas da janela, entrava o mato em insônia, com vozes que eu não entendia. E, às vezes, tarde da noite, ouvia, do curral, bruscos estrépitos — bufos, pisoteios, e um trafegar a esmo —
excursões do gado sonambúlico.
E eu pensava, sempre em Maria Irma.
Mas o único acontecimento mesmo acabrunhante foi produzido por um papagaio, geral e caduco, já revertido ao silêncio, que cochilava em seu poleiro, mas que, um dia, lembrando-se de outrora, entortou a cabeça, me olhou com um olho, e, esganiçado, cantou:
“Cadê Mariquinha?
Foi passiá... Entrou no balão
Virou fogo do á!...”
— Gagá idiota! Deixa de cantar bobagens!
— Fogo... Fogo!... Prrrr... Fogo!... Fogo do á!...
Mas, aí, a negrinha Carmelinda chegou e explicou:
— É por causa que essa-uma é a cantiga que a gente  e p’ra todos os papagaios... E é a derradeira que eles esquecem, quando já estão velhinhos...
Ri e deixei o purrutaco dormir. Melhorei.
E aí foi que tive notícia de que as eleições tinham corrido,  com estrondoso triunfo do partido “João-de-Barro”. E assim chegou também o dia em que apareceu nas Três Barras um camarada do Tio Emílio, trazendo duas cartas para mim.
Abri o primeiro envelope, com excessiva pressa: continha um recado, à máquina, do meu tio, celebrando a vitória e insistindo para que eu  voltasse. Aquela folha de papel tinha passado, pelas mãos, pelos dedos morenos de Maria Irma!
Mas, havia também o outro envelope, e eu abri, com  preguiça, o outro envelope. Céus!
Santana, outra vez! ... Somente isto:
“Caríssimo, — analisando a posição em que interrompemos aquela Zuckertort-Réti,  na viagem a cavalo, verifiquei que o jogo não estava perdido para mim. Ao contrário! Junto o diagrama, porque não confio muito na sua memória, desculpe. Mas, veja o avanço do cavalo preto a 5C, e, em seguida, B3D, e o outro bispo batendo a grande diagonal, e...veja, oh, ajuizado moço Telêmaco, na quarta jogada, o tremendo ataque frontal dos peões negros, contra o roque branco. Indefendível! Xeque-mate!
Continuemos, por correspondência. Escreva para Pará -de-Minas.
Seu,
SANTANA.”
Pulei do banco, e gritei de alegria. Os novilhos, que enchiam o curral esperando a marcação, pareceram-me um exército, aguardando ordens minhas para arremeterem em fileiras. O dia ficou, de repente, o mais bonito e bendito. Gritei mesmo:
— Saltem um cálice da branquinha potabilíssima de Januária que está com um naco de umburana macerando no fundo da garrafa!... E cavalo arreado, já, já, para eu voltar para o Saco-do-Sumidouro... Desistir, nem de ser idiota não convém! Viva Santana, com os seus peões! Viva o xeque-do-pastor! Viva qual quer coisa!... Volto! Vou lá.
E não adiantou a insistência do tio Ludovico:
—Amanhã cedo você vai... Espera ao menos a ferra dos garrotes, que é coisa bonita, de que você vai gostar...
E nem os sábios conselhos do Viriato, vaqueiro campeão da “derruba do boi pela seda” e mateiro meu confidente em assuntos de amor:
— O senhor não deve de ir, porque torna a ficar gostando... Isso de querer-bem da gente é que nem avenca-peluda, que murcha e, depois de tempo, tendo água outra vez, fica verde... E que nem galho grosso de timbaúba, que está seco, e, a gente fincando p’ra fazer cerca, brota logo e põe raiz!...
— Nada disso, Viriato! Eu tenho opinião. Não cedo!... Mas quero que ela saiba que eu não gosto dela mais... expliquei, já afivelando as esporas.
E Viriato, curvando-se para me ajudar, abanou a cabeça e de clamou:
— Flor de angico-verdadeiro dura seis meses no pé...
Mas não era curta a viagem das Três Barras ao Saco-do-Sumidouro,  tanto que houve tempo para pensar e sentir. Amplos Campos navegantes; depois, o mato montano, onde pia o zabelê. Por aí, tive cansaço e vergonha de tudo o que antes eu ra e fizera, e foram notáveis os meus pensamentos. O pio do zabelê é escandido e gemido. A estrada do amor, a gente já está mesmo nela, desde que não pergunte por direção nem destino.
E a casa do amor — em cuja porta não se chama e não se espera —  fica um pouco mais adiante.
— Éco! Éco! - gritavam os tucanos verdes.
— Óco! Óco! — ralhavam os tucano-açus.

***

Cheguei numa tarde assaz bonita e quente, porque era fim de janeiro com veranico. Meu tio estava na varanda, deitado na rede, com um  monte de cartas e telegramas ao alcance da mão. Achei-o um pouco abatido. Mais magro.No alto da parede, os marimbondos tinham crescido novos cortiços oblongos. E as rosas amarelas forjam.
Tio Emilio me reteve abraçado, falando-me ao ouvido, com voz grossa e ronronante:
— Então, hein! Que arraso! Agora não há mais periquito para tomar casa que joão-de-barro fez!...
E, desprendendo-me, por fim:
— Olha o que o Presidente do Estado me mandou: que telegrama! Não pode haver mais periquito. É ali! Tretou, relou, tijolo nas costas!...
Mas, justamente agora, que se afastara um pouco, era que Tio Emílio abaixava a voz:
— O pior foi que eu tive um prejuízo grande... Gastei para mais de uns oitenta contos... Um estrago!... Estou pensando em fazer um acordo na política, em desde que eu fique sendo o chefe...
 E, numa onda brusca de carinho,Tio Emilio abraçou-me outra vez.
— Onde está Maria Irma? — perguntei. Estava no jardim, e tinha mesmo de estar no jardim. Mas não estava só.
Ruborizou-Se. Ofegou. E apresentou-me à outra.
— Meu primo... Armanda...
Armanda tinha uma expressão severa, e foi muito inóspito o seu olhar. Quase uma zanga.
— Com cada um de vocês já falei muito do outro... —acrescentou Maria Irma.
Hesitei. Armanda recuara um passo, e fingiu olhar o jasmineiro. Murmurei:
—  Então, Maria Irma, surpreendi você com a minha volta...
— Fico alegre...
— De verdade?
—  Não começa outra vez. Você não compreende...
Alguém riu. Era Armanda, a de maravilhosa boca e olhos esplêndidos.
—  Vou ver, papai chamou... Me esperem... explicou Maria Irma, abrindo vôo.
—  Prefiro caminhar. Quer? perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.
— Você está querendo tomar-me o pêlo?!
— Que é isso, Armanda?
— Nada. Vamos!
Urna lavadeira cantava, lá na beira do rego:
“De madrugada,
quando a lua se escondia...
o sol raiava
 na janela de Maria...”
Vinha um odor duro, das flores carminadas. Os aloendros. em fila, nos separavam do mundo. Pensamentos me agitavam; Queria...
—Você gosta de Maria Irma?
— Não...
— De quem?
— De você... Sempre gostei. Sempre! Antes de saber você existia...
— É engraçado...
—  É verdade. Não... Não é isso...
Armanda jogou fora o botão de bogari, e entrecruzou os dedos. E disse:
— É com você que eu vou casar.
—  Comigo!?...
— Então, por que você não me beija? Porque aqui na roça não é uso?

***

E foi assim que fiquei noivo de Armanda, com quem me casei, no mês de maio, ainda antes do matrimônio da minha prima, Maria Irma com o moço Ramiro Gouveia, dos Gouveias da fazenda da Brejaúba, no Todo-Fim-É-Bom.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Minha Gente - Parte III

Entre 1938 e 1951, Guimarães Rosa trabalha como diplomata, principalmente na Alemanha, onde ajudou os  judeus durante a guerra, Colômbia e Paris.
Em 1962, após anos de não publicações, onde seu prestígio como escritor crescia e a publicação de Grandes Sertões: Veredas, consegue entrar na Academia Brasileira de Letras.
Seu estilo, marcado pelo regionalismo, a criação de novas palavras de cunho popular misturado ao erudito, alcançou a esfera internacional e criou um estilo como que novo na literatura brasileira, sendo o romancista mais importante da 3a geração do modernismo brasileiro.
Sua obra foi bastante vasta, contendo principalmente coletâneas de contos, todos sobre o povo e a terra.
Guimarães Rosa morreu em 19 de novembro de 1967, 3 dias depois de ter tomado oficialmente posse de sua cadeira entre os imortais.

Minha Gente - Guimarães Rosa - Parte III


Horrível! Horrível o que hoje aconteceu. E quem convidou fui eu! Bento Porfirio bem que não queria ir. Eu era quem estava Com saudade dos estranhos sussurros do poço. Porque todos os córregos aqui são misteriosos —  somem-se solo adentro, de repente, em fendas de calcário, viajando, ora léguas, nos leitos subterrâneos, e apontando, muito adiante, num arroto Ou numa cascata de rasgão. Mas o mais enigmático de todos é este ribeirão, que às vezes sobe de nível, sem chuvas, sem motivo anunciado para minguar, de
pronto, menos de uma hora depois. Há, contínuo, aqui ou acolá, um gluglu, um chupão líquido, água rolando n’água; lá embaixo, nas pedras, a corredeira se apressa ou amaina; mas o som nunca é o mesmo de dois instantes atrás.
Os mangues da outra margem jogam folhas vermelhas na corrente. Descem como canoinhas. Param um momento ali naquele remanso, perto das frutinhas pretas da tarumã.
Olhos de Maria Irma... Bobagem, eu vou gostar mais de olhos castanhos, de olhos verdes... Suecas, húngaras,  dinamarquesas... polonesas de olhos pardos...
O ribeirão mudou de tom. Você ouviu, Bento? Ronca. Está se enchendo outra vez, sem turvar a água... De repente, o sabiá! Veio molhar o pio no poço, que é um bom ressoador. E quer passar a sua tristeza para a gente. Mas, agora, já sabemos nos defender. Podemos desmerecê-lo, quebrar-lhe a potência de acumulador de mágoas e dor de saudades. E, sem nenhuma combinação:
Eu disse:
— Gênero turdus... Um flavipes ou rufiventris...
E Bento berrou:
— Ô bicho enjoado! Vai chamar chuva noutra parte!.. A modo e coisa que está botando ovoe veio comer minhoca de beira de córgo... Cruz!
E cantou, alto, para abafar os lamentos do outro:
“Ouvi um sabiá cantando
 na beira do ribeirão...
Ô pássaro que canta triste!
Não me traz consolação...”
Então o sabiá calou o bico e foi-se embora, porque  a cantiga do Bento ainda era mais melancolizante. Agora é o córrego que parece triste. Trocou outra vez de toada... Deve ter uma lavadeira lavando roupa e chorando, lá longe, lá longe, lá para trás dos morros frios, onde há outras roças, outra gente, outro sabiá...
Afinal, quem é que é burro?! Que foi que nós viemos fazer aqui?... Os cigarros seacabaram. Vamos voltar para casa, Bento Porfírio?
— Já, já... É só o tempinho d’eu pegar aquele dourado dançante, que prancheou ali agorinha mesmo... Queixo esperto! Tabarão! Já comeu três iscas... Mas hoje é o dia dele! Cada qual tem o seu dia... E peixe é bicho besta, que morre pela boca...
Bento Porfírio volta a falar na amante: o marido, o Alexandre, não sabe que está sendo enganado... Mas aquilo não é pouca-vergonha, não: é amor sério... A de-Lourdes não tolera o marido, não dorme com ele, não beija, nem nada... Estão combinando fugir juntos... Braços morenos... (Maria Irma!)... lenço vermelho na cabeça... metade... agaranto... anto...ão... eu... é...
Não escuto mais. Estou namorando aquela praiazinha na sombra. Três palmos de areia molhada... Um mundo!... Que é aquilo? Uma concha de molusco. Uma valva lisa, quase vegetal. Carbonífero... Siluriano.,. Trilobitas... Poesia... Mas este é um bicho vivo, uma itã. No córrego tem muitos iguais...
Bento Porfírio suspira fundo. Continua falando alto:
—  ...estava de branco.., na vinda p’ra cá bateu a mão, saudando... O Alexandre é um bobo a gente vai ser feliz... ...de-Lourdes...  ... p’ra longe...  ... nem não há...Não há... Não há... Não ouço mais o Bento. Há qualquer coisa estranha aqui... Há mais alguém aqui! Alguém está escutando! Não tenho coragem para voltar o rosto.
Fui testemunha. Pode lá a gente ser mesmo testemunha? Não sei como foi: um grito de raiva, uma pancada, o t’bum n’água uma queda pesada, como um pulo de anta. Alexandre, o marido, de calças arregaçadas. Só as calças arregaçadas, os pés enormes,descalços na lama... Um ramo verde-maçã, a se agitar, em rendilha... Daí, a foice, na mão do Alexandre... O Alexandre, primeiro de cara fechada, depois com um ar de palerma... A foice, com sangue, ficou no chão. A água ensangüentada... O Alexandre vai indo embora. Já gastou a raiva. O morto não se vê. Está no fundo.
Agora me acalmo. Não me fizeram nada. Só estou é com a roupa molhada, do espirrão da água. Também, aqui não é de; uso dar-se voz de prisão... E não posso pedir ao assassino que me ajude a tirar o Bento do poço. Corro para casa. No caminho, recupero parte da compostura.
Tio Emílio acabava de chegar da vila, e, sentado no banco do alpendre, labutava para descalçar as botas.
Fui falando, esbaforido, insofrido. Mas meu tio, cortando o jacto das minhas informações, disse:
— Espera um pouco.
Trabucou mais dois minutos. Afinal, conseguiu desfazer-se das botas e calçou os chinelos.
Perguntou:
— Você tem certeza de que o Bento já está morto?
— Mortíssimo. Morreu em flagrante...
—Ah!...
E levantou-se calmamente, e calmamente pegou a andar na varanda, no vaivém de sempre, pensando, pensando. Nem me via. Sentei-me no banco, com raiva de tanta fleuma e querendo ver o que ele iria resolver. Por fim, parou e rosnou.
— Como é que o Xandrão Cabaça, tão sem idéia, foi descobrir a história lá deles? Boi sonso, marrada certa!
Chamou o Norberto, o capataz, e mandou que fosse ver o corpo.  E que corresse alguém ao arraial, para chamar o subdelegado.
O capataz saiu, convocando os camaradas. Meu tio se chegou  para o parapeito, e tirou o fumo mais o canivete. Não me contive: — Mas,Tio Emilio, o senhor que é tão justiceiro e correto, e que gostava tanto do Bento Porfírio, vai deixar isto assim? Não vai mandar, depressa, gente atrás do Alexandre, para
ver se o prendem?
Tio Emílio, alisando a sua palha, e com o sorriso que um sábio teria para uma criança, olhou-me, e disse:
— Para os mortos... sepultura! Para os vivos.., escapula!
Humilhei meus pendões. Calei-me. Meu tio esfregava nas palmas das mãos o fumo picado. Enrolou o cigarro. De súbito, bateu na testa e pulou:
- Não é que eu não sei onde é que eu estava mesmo com a cabeça?! Ô Gervásio, corre aqui!... Já perdi um voto, e, se o desgraçado fugir para longe, são dois que eu perco...
Tirou dinheiro do bolso e entregou ao mulato. Ajunta, depressa, uns homens, para campearem o Cabaça. Espera aí... Ele para o lado da vila não ia, com medo dos soldados... Para o Marimbo, também não, pois é onde que mo ram todos os parentes dele, e ele sabe que a gente havia de querer ir procurar lá... O Calambau era o melhor lugar para um se esconder, mas o Xandrão Cabaça é burro, não acertava de ter pensado nisso, não. Para os lados do Piau Não, acho que também não ia, porque no Piau vive o irmão do Bento... Nem para as Porteirinhas... Nem para os Tucanos... Ele foi mas é pa ra o Bagre, com tenção de, de lá, esquipar para o sertão! Vocês cacem de ir atrás dele, passando pelo atalho das Moreiras. E segurar e trazer. Mas voltem por dentro, pelo caminho do mato, que é para ninguém ver e nem ficar sabendo... Levem o Cabaça para a tapera do Retiro. Expliquem bem a ele, que ele vai ficai lá garantido, escondido das autoridades, até a gente arrumar as coisas, os jurados e tal.., O Cabaça é muito jumento e ignorante, e é capaz de não querer acreditar; se fizer barulho, vocês sojiguem, nem que seja peado e no tronco,.. E tio Emílio se sentou na cadeira-de-pano. Acendeu o cigarro. Tirou uma fumaça e espiou para ela. De repente, se mobilizou em pé, com grande susto para mim, e gritou pelo Gervásio, que já ia longe. Falou só:
— Vão no Calambau! Foi para lá que o Cabaça foi.
E sentou-se outra vez, ora descansado, murmurando:
— É isso... Capivara, a primeira vez que bate um trilho, passa com jeito. Depois, vai-se acostumando com o caminho, e pega a relaxar... Foi assim que o Bento morreu. Agora a gente tem é de ver os jurados, para o júri do leso do Xandrão Cabaça...
Saí para os fundos da casa. Maria Irma estava dando água às latas de plantas: jurujuba, dinheiro-em-penca e beicinho-de-sinhá. Narrei-lhe a tragédia. Minha prima levantou os supercílios, e seus olhos formosos se arredondaram, descobrindo o branco por cima da íris; e foi apenas com isso que revelou algum espanto.
— Coitadinha da Bilica... e da mulher do Alexandre... — disse. — Por causa da falta de vergonha de um, e da do outro, quem vai sofrer agora são as duas pobrezinhas...
Pororoca! Será que ninguém aqui pensa como eu?!...
Quero ir dormir, sem jantar, sem conversa de sede e siso.

***


Voltou a chover, O dia inteiro. Caiu um raio, na porteira do curral grande. Rega miúda, aborrecida. Só às vezes, sem aviso, despenca um maço d’água mal amarrada, ou zoa uma chuva rajada flechando o chão em feixe diagonal. Depois, estia devagar: já se escutam as goteiras. Ao pé da minha janela, a enxurrada desce para o bueiro, numa efêmera cascata suja, com inconveniências de cochicho e bochecho. E, quase que o dia inteiro, um sapo sentado no barro, se perguntava como foi feito o mundo.
Passei todo o tempo no quarto, lendo, pensando. Imaginei mesmo um romance, do qual Bento Porfírio, bem vivo, seria o herói.
Mas, agora, estou com remorso, porque não acompanhei o enterro; malícia dum momento, o Bento indo por essas estradas, estúpidas de lama. Chovia, na verdade, porém, a chuva não impediu Maria Irma de sair, para visitar e confortar a viúva e a outra. Meu tio também se mostrou assaz generoso para com as duas. Minha gente é boa.
Houve o arco-da-velha no céu, num abrir de sol, mostrando as cores, com um pilar no mato e o outro no monte.
Mas, cataplasma! Já começa a chover outra vez.

***

Chove. Chuva. Moles massas. Tudo macio e escorregoso. Com o que proferiu Gotama Buddha, o pastor dos insones, sob outras bananeiras e mangueiras outras, longínquas:
“Aprende do rolar dos rios,
dos regatos monteses, da queda das cascatas:
tagarelante, ondeia o seu caudal —
só o oceano é silêncio.”
Mas, do mudo fundo, despontam formas, se alongam. Anfitrites dormidas, na concha da minha mão, e anadiômenas a florirem da espuma.
Eu tinha cochilado na rede, depois de um almoço gostoso e pesado, enquanto Tio Emilio, na espreguiçadeira, lia sua pilha de jornais de uma semana. A varanda era uma praia de ilha, ao mar da chuva. Meu espírito fumaceou, por ares de minha só posse — e fui, por inglas de Inglaterras, e marcas de Dinamarcas, e landas de Holanda e Irlanda. Subi à visão de deusas, lentas apsaras de sabor de pétalas, lindas todas: Dária, da Circássia; Ragna e Aase; e Gúdrun, a de olhos cor dos fiordes; e Vivian, violeta; e Érika, sílfide loira; e Varvára, a de belos feros olhos verdes; e a princesa Viadislava, císnea e junoniana; e a
princesinha Berengária, que vinha, sutil, ao meu encontro, no alternar esvoaçante dos tornozelos preciosos...
Quem veio foi Maria Irma, num vestido azul-marinho, tanto corada e risonha.
— Sonhei. Sonhei demais, prima... Que é do tio?
— Foi dormir na cama, que é lugar mais quente.
— E você?...
— Queria perguntar uma coisa...
— Pergunte, Maria Irma. — Não. Não sou curiosa.
— Então, eu sei o que é...
— Então?
— É a respeito... Bem, é sobre. . . Você quer saber se eu deixei algum amor, a esperar por mim?
— Se deixou, ou não, não me interessa...
— Então, por que você quis perguntar, prima?
— E por que foi que você adivinhou a pergunta, primo?

***

Manhã maravilha. Muito cedo ainda, depois de gritos de galos e berros de bezerros, ouvi alguém cantar. Fui para a varanda, onde adensavam o ar os perfumes mais próximos, de vegetais e couros vivos. Sob a roseira, de rosas carnudas e amarelas, encontrei Maria Irma. Perguntei se era ela a dona de tão lindo timbre. Respondeu-me:
— Que idéia! Se nem para falar direito eu não tenho voz...
— Diga, Maria Irma, você pensou em mim?
— Não tenho feito outra coisa.
— Então...
—-Vamos tomar leite novo?
— Vamos!
.................................................................................
—  E agora?
—Vamos tomar café quente?
—Vamos e venhamos...
...................................................................................
— Mas, Maria Irma...
— Vamos ver se a chuva estragou a horta?
Havia uma cachoeira no rego, com a bica de bambu para o tubo de borracha. Experimentei regar: uma delícia! Com um dedo, interceptava o jacto, esparzindo-o na trouxa verde meio aberta dos repolhos, nas flácidas couves oleosas, nos tufos arrepiados dos carurus, nos quebradiços tomateiros, nos cachos da couve-flor, granulosos, e nas folhas cloríneas, verdeaquarela, das alfaces, que davam um ruído gostoso de borrifo.
Maria Irma, ao meu lado, pôs-me a mão no braço. Do  cabelo preto, ondulado, soltou-se uma madeixa, que lhe rolou para o rosto.
Eu apertava com força o tubo da mangueira, e o jorro, numa trajetória triunfal e libertada, ia golpear os recessos das plantinhas distantes. De repente, notei que estava com um pensamento mau: por que não namoraria a minha prima? Que adoráveis não seriam os seus beijos... E as mãos?!... Ter entre minhas aquelas mãos morenas, um pouquinho longas, talvez em desacordo com a delicadeza do conjunto, mas que me atraíam perdidamente...
Acariciar os seus braços bronzeados... Por que não?...
Súbito, notei que Maria Irma se ruborizava. E arrebatou a borracha, com rudeza quase:
— Não faz isso, que você está tirando a terra toda de redor dos pés de couve!
E, com um meio sorriso, querendo atenuar a repentina aspereza:
— Além disso, tem chovido, e ainda não é preciso regar horta hoje...
E, afinal, com um sorriso todo:
—....e, depois, faz mal molhar as plantas com sol quente. Vamos ver as galinhas?
— Pois vamos ver as galinhas, Maria Irma.
E acompanhei-a, namorando-lhe os tornozelos e o donairoso andar de digitígrado.
Pelo rego desciam bolas de lã sulfurina: eram os patinhos novos, que decerto tinham matado o tempo, dentro dos ovos, estudando a teoria da natação. E, no pátio, um turbilhão de asa e de bicos revoluteava e se embaralhava, rodeando a preta, que jogava os últimos punhados de milho, rolando e com a língua:
— Prrr-tic-tic-tic!
Um gordo galo pedrês, parecendo pintado de fresco com desenhos de labirinto de almanaque, sultaneava, dirigindo preferências a uma galinha ainda mais carijó e mais gorda, vestida de fichas de impressão digital. E veio de lá, ciumento e briguento, outro galo, esse branco, com chanfraduras e pontas na crista caída de lado. Barulho. E então a galinha choca, com cloqueios e passos graves, chamou os pintinhos para longe dali. E havia suras, transilvânias, nanicas, topetudas, calçudas; e guinés convexas, aperuadas; e peruas acucadas; e um peru bronze-e-brasa, de brincos, carúnculas, boné e guardanapo, todo paramentado de framboesas; e patos, esparramados, marrecos mascotes e pombas de casa.
Mas, de supetão, uma espécie de frango esquisito, meio carijó,  meio marrom, pulou no chão do terreiro e correu atrás da garnisé branquinha, que, espaventada, fugiu. O galo pedrês investiu, de porrete. Empavesado e batendo o monco, o peru grugulejou. A galinha choca saltou à frente das suas treze familiazinhas. E, ai, por causa do bico adunco, da extrema elegância e do exagero das garras, notei que o tal frango era mesmo um gavião.
Não fugiu: deitou-se de costas, apoiado na cauda do brada, e estendeu as patas, em guarda, grasnando ameaças com muitos erres. Para assustá-lo, o galo separou as penas do pescoço das do corpo, fazendo uma garbosa gola; avançou e saltou, como um combatente malaio, e lascou duas cacetadas, de sanco e esporão. Aí o gavião fez mais barulho, com o que o galo retro cedeu. E o gavião aproveitou a folga para voar para a cerca, enquanto o peru grugulejava outra vez, com vários engasgos.
—  Nunca pensei que um gavião pudesse ser tão covarde e idiota .. —  eu disse.
Maria Irma riu. —  Mas este não é gavião do campo! É manso. E dos meninos do Norberto... Vem aqui no
galinheiro, só porque gosta de confusão e algazarra. Nem come pinto, corre de qualquer galinha...
— Claro! Gavião civilizado...
— U’lalá... Perdeu duas penas..
O sorriso de Maria Irma era quase irônico, Não me zanguei mas também não gostei.