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domingo, 24 de janeiro de 2021

Alba

ALBA - Geir Campos
.

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
do leste — o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.

sábado, 4 de janeiro de 2014

O Padrão

Padrão

Não se pode cansar de dizer o quanto Fernando Pessoa é genial e o quanto sua obra é vasta. No entanto, ao se juntar a capacidade do autor com um tema excelente, a história de Portugal, saiu Mensagem. Sempre digo que tenho pena de quem não fala português. Somos poucos nativos e muito poucos que aprenderam. E todo o resto do mundo, não pode nem imaginar o que está perdendo. Como está escrito um pouco depois, também na segunda parte da obra é que "mas o que a eles não toca é a magia que evoca o Longe e faz dele história."
Mensagem conta a história de Portugal. A primeira parte, descrevendo o escudo português, Fernando Pessoa vai contando a história de Portugal até a época das grandes navegações. Na segunda parte, O Mar Português, ele faz uma homenagem aos principais navegadores, os quais não eram simplesmente gente ignorante que o rei conseguia obrigar a entrar no barco atrás do dinheiro, mas eram pessoas que tinham estudado muito e eram, muitas vezes de famílias importantes de então. A terceira parte fala do futuro previsto pelo autor, o qual imaginava uma era onde Portugal voltasse a ser a nação mais importante do globo. Grande parte da teoria dele vem de suas doutrinas, que eu explico quando colocar alguma coisa dessa parte.
O Padrão é a homenagem à Diogo Cão, navegador que descobriu como chegar até o sul da África ao perceber que muitas vezes era necessário navegar ao laro, sem ver a terra. E isso só era possível pelo sistema de navegação e localização desenvolvido pelos navegantes. Apreciem e pensem sobre o significado.

Padrão - Mensagem - Fernando Pessoa

O esforço é grande e o homem é pequeno.  
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei  
Este padrão ao pé do areal moreno  
E para diante naveguei.  

A alma é divina e a obra é imperfeita.  
Este padrão sinala ao vento e aos céus  
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:  
O por-fazer é só com Deus. 

E ao imenso e possível oceano  
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,  
Que o mar com fim será grego ou romano:  
O mar sem fim é português. 

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma  
E faz a febre em mim de navegar  
Só encontrará de Deus na eterna calma  
O porto sempre por achar.  

sábado, 13 de abril de 2013

Soneterapia

Entre os poetas modernos brasileiros, pode-se considerar que tiveram muitos "aproveitadores" incompetentes, que diziam fazer poesia moderna e no fundo só escreviam um amontoado de futilidades sem razão, escondidas sob as novas e revolucionárias formas. No entanto, como diria Manuel Bandeira, um poeta, só é poeta se consegue escrever um bom soneto na forma clássica. E isso prova Augusto de Campos. O soneto dele é cheio de "guerra e escarnio". Ao mesmo tempo em que ele faz observações jocosas, de forma surpreendente para estar em um soneto, ele responde quase agressivamente às acusações dos contrários à poesia concreta, da qual ele era um expoente.


Soneterapia - Augusto de Campos



Drummond perdeu a pedra: é drummundano.
João Cabral entrou pra academia,
Custou mas descobriram que caetano
Era o poeta (como eu já dizia)

O concretismo é frio e desumano,
Dizem todos (tirando uma fatia).
E enquanto nós entramos pelo cano,
Os humanos entregam a poesia.

Na geléia geral da nossa história,
Sousândrade Kilkerry Oswald vaiados,
Estão comendo as pedras da vitória.

Quem não se comunica dá a dica:
Tó pra vocês chupins desmemoriados,
Só o incomunicável comunica.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Um dos mais recentes poetas brasileiros, Vinicius de Moraes provavelmente se imortalizou por uma de suas obras mais simples: "Lá vem o pato, pata aqui, pata acolá. Lá vem o pato para ver o que é que há". Naquele tempo, músicos faziam música e poetas escreviam suas letras. Vinicius de Moraes foi o mestre nessa arte. Escreveu letras para samba, MPB e finalmente músicas infantis as quais são lembradas hoje e certamente por muitas mais gerações. Além disso, ele também é o poeta da boemia moderna, e embora a maior parte da maioria dos poemas não seja propriamente popular, ainda muitas frases prontas que falamos (sem saber na maioria das vezes) são trechos de seus poemas. Seus trabalhos como jornalista e diplomata acabaram se tornando com o passar do tempo irrelevantes, enquanto suas "citações" passam ao futuro.


Não comerei da alface a verde pétala - Vinicius de Moraes


Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

domingo, 7 de abril de 2013

Romance LIV ou Do Enxoval Interrompido

Cecilia Meireles, embora não seja muito de meu gosto, é uma famosa poetisa do modernismo brasileiro. Sua principal obras, O Romanceiro da Inconfidência, retrata de forma imaginosa episódios da Inconfidência Mineira, imaginando cenas e fatos, como se ouvisse as pedras de Vila Rica (Ouro Preto) contando. Além dessa obra, ela escreveu muitos outros poemas, sendo vários infantis. O poema a seguir faz parte do Romanceiro da Inconfidência e conta as desventuras de Tomás Antônio Gonzaga, preso logo antes do casamento.


Romance LIV ou do enxoval interrompido - Cecília Meireles


Aqui esteve o noivo,
de agulha e dedal,
bordando o vestido
do seu enxoval.

Em maio, era em maio,
num maio fatal;
feneciam rosas
pelo seu quintal.
Por estrada e monte,
neblina total.
No perfil da lua,
um nimbo mortal.
(Mas quem lê na névoa
o amargo sinal?)

A noite na Vila
é densa e glacial.
O sono, embuçado
em cada beiral.
Quem não dorme, sonha
com seu enxoval.

A agulha, de prata,
e de ouro, o dedal.
Em haste de cera,
ergue o castiçal
para a turva noite
lírio de cristal.

“Sabeis, ó pastora,
daquele zagal que andava num prado
sobrenatural?
Teria inimigo?
Teria rival?”

O sono conversa
em cada poial.

“Sabeis, ó pastora,
quem seja o chacal
que os passos arrasta
de Longe arraial?
Eu vi sua língua:
é um negro punhal.
Que mortes fareja
o imundo animal?”

De prata era a agulha,
e de ouro, o dedal.
Em sonho traçava,
com doce espiral
de brilhantes flores,
novo madrigal.

“Sabeis, ó pastora,
por que o maioral
manda pôr algemas
no louro zagal
que tranqüilo borda
lírico enxoval?”

Estrela de aurora,
fonte matinal,
já vistes e ouvistes
desventura igual?
A agulha partiu-se.
Quebrou-se o dedal.
Romperam-se as flores
- a que vendaval?

 “Procurais os rastos
do infame chacal?
Sumiram-se embaixo
do trono real!”

Soluçam as águas
em seu manancial.
E em sedas que foram
de seda e coral,
vai rolando um triste
orvalho de sal.

“Sabeis, ó pastora,
daquele zagal,
que agora não borda
seu rico enxoval?”

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O autor aos seus versos

Manuel Maria Barbosa du Bocage é dos mais famosos poetas do arcadismo português. Sua família era inimiga do Marquês de Pombal, sendo que seu pai foi preso por este e passou 6 anos na cadeia. Quanto à suas próprias vida e obra, a primeira foi bastante turbulenta, sendo que ele se alistou na Marinha e quase ficou morando no Rio de Janeiro quando passou por lá em sua viagem. Por sua obra, teve problema com a Inquisição e dizem que chegou a ser preso por isso, já depois de ter passado uns anos na cadeia por sua vida desregrada. Parece que isso tudo lhe fez vem, porque depois de livre resolveu se assentar na vida e trabalhou como tradutor tendo arrumado alguns padres bem situados como amigos. Quanto aos seus poemas, a maioria é complexo pela filosofia gnóstica escondida, e foram eles uma forte influência no romantismo português.


O autor aos seus versos - Manuel Maria Barbosa du Bocage


Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Versos Íntimos

Como expoente de uma parte diferente do período simbolista no Brasil está Augusto dos Anjos. O poeta paraibano, morto com apenas 30 anos é um dos mais voltados ao desespero e angústia da literatura brasileira. Além disso, ele inova ao utilizar termos técnicos de medicina em seus poemas. Seus primeiros versos datam de seus sete anos, mas pela vida breve, teve apenas 1 livro publicado, EU, postumamente intitulado Eu e Outras Poesias, devido a alguns acréscimos. O soneto abaixo, talvez um de seus mais famosos mostra toda a angústia e o desprezo pelo mundo, marcas características do poeta.


Versos Íntimos - Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Meus oito anos

Casimiro de Abreu é o poeta do amor ingênuo. Apesar de amigo de Machado de Assis e patrono de uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras, o poeta da segunda fase do romantismo nunca escreveu sobre os amores rebuscados, falando sempre das memórias da infância e das saudades de então. Além disso, nas mentes do estudantes brasileiros, Casimiro de Abreu é de fato o poeta de 'nossos oito anos'. Quem nunca leu esse seu poema na escola? e nunca soube apreciá-lo somente mais tarde? O que fala o poema não retrata no seu sentido literal os oito anos da maioria, mas nos faz lembrar nossos oito anos, e nos   sugere paralelos, evocando nossas próprias saudades de escola.


Meus oito anos - Casimiro de Abreu


Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh ! dias de minha infância!
Oh ! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar!

Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Palácio da Ventura

Antero de Quental é um dos maiores nomes do Romantismo português, e em especial, da poesia romântica. Assim como em sua vida conviviam seu militantismo socialista fanático e seu distúrbio bipolar, também seus poemas tem duas fases, a primeira, socialista militante, e a segunda da metafísica desesperançada e perdida. Essa segunda fase é considerada pelos estudiosos a de maior valor artístico. Mas foi a riqueza e importância de sua família que lhe permitiram não só viver de rendimentos para fazer poesia, mas também ter contato com todos os grandes nomes da literatura portuguesa daquele período.



O Palácio da Ventura - Antero de Quental


Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão — e nada mais!

domingo, 9 de dezembro de 2012

Via Láctea

Olavo Bilac é, pode-se dizer, o poeta parnasiano por excelência. Gerações decoraram e ainda decoram seus poemas na escola. Como todo parnasianismo, sua obra é composta de sonetos na forma clássica, intensamente trabalhados até atingirem a forma perfeita. "É como o vaso que o artesão lima até à perfeição".  O soneto a seguir tem adicionalmente a beleza dos 'enjambements' em muitos dos seus versos. Quando se lê, é importante para a sonoridade que a pausa no fim do verso seja quase imperceptível e a verdadeira pausa seja no fim da frase, onde quer que ele esteja. Isso faz da poesia rica, pela estrutura complexa que lhe proporciona.



Via Láctea - Olavo Bilac



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas".

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Rua de Rimas

O português é, como se diz, uma língua poética por natureza. Em Guilherme de Almeida, o poeta paulista tem em suas inúmeras obras poesias para e do cotidiano da primeira metade do século XX brasileiro. O poeta modernista, apesar de não ser um grande nome do período tem em suas obras toda a poesia da simplicidade. Os versos a seguir, publicados primeiramente no jornal estão entre os preferidos do autor, cuja obra mais conhecida é a Canção do Expedicionário. Figura dita simpática por quem o conheceu, foi dos grandes promotores do período ufanista da metrópole de São Paulo, a primeira metade do século XX.


A Rua de Rimas - Guilherme de Almeida


A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE…

domingo, 18 de novembro de 2012

O sol é grande, caem co'a calma as aves

Francisco Sá de Miranda foi o introdutor do soneto na forma clássica além dos versos decassílabos em Portugal. Depois de ter estudado em Lisboa, viajou para a Itália onde teve contato com inúmeras personalidades literárias do tempo e de onde trouxe a nova estética de poesia em 1526. Há entre ele e Gil Vicente uma rixa famosa da qual não se sabe bem os motivos. Embora ele tenha sido à sua época menos apreciado do que o rival, é certo que foi o grande influenciador de Camões e foi sua moda literária que se estabeleceu e continuou na língua portuguesa.



O sol é grande, caem co'a calma as aves - Sá de Miranda



O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-me-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O tempo passa? Não passa


Carlos Drummond de Andrade foi o último grande poeta brasileiro. Ou simplesmente o último poeta brasileiro. Foi o grande expoente da terceira geração do modernismo e morreu em 1987. Seu poema mais famoso, "no meio do caminho tinha uma pedra" não é nem o mais bonito, nem o mais poético, nem o mais filosófico, nem o mais profundo. Acho que é o mais fácil de decorar, o mais clichê, talvez. O poema a seguir também não é o mais nada. É simplesmente um punhado de versos de amor bonitinhos, leves e quase ingênuos. Bom para ler e mais ainda para se surpreender no meio dos pesados e/ou filosóficos poemas do autor.



O tempo passa? Não passa - Carlos Drummond de Andrade


O tempo passa ? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Juca Pirama - Parte II


Ao lermos o poema inteiro, vemos as diferenças de ritmos e cadencias de cada parte. Como cada parte expressa uma situação, há um tipo de ritmo para cada uma. A primeira e última partes são festas dos Timbiras, assim, a cadência é a mesma. E só no fim, descobre-se o eu-lírico da poesia, que é como que narrada em primeira pessoa por um velho timbira, em outra festa, mas sempre enquanto ele "pratica d'outrora". Também a maldição do pai mostra a toada triste e a história contada pelo moço tupi entrecortada e ofegante pelo temor. Vale a pena uma leitura integral para se reparar não só na história mas na relação com os ritmos de cada parte do poema.



Juca Pirama - Gonçalves Dias - Parte II



VI

- Filho meu, onde estás? 
- Ao vosso lado; 
Aqui vos trago provisões; tomai-as, 
As vossas forças restaurai perdidas, 
E a caminho, e já! 
- Tardaste muito! 
Não era nado o sol, quando partiste, 
E frouxo o seu calor já sinto agora! 
- Sim demorei-me a divagar sem rumo, 
Perdi-me nestas matas intrincadas, 
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo; 
Convém partir, e já! 
- Que novos males 
Nos resta de sofrer? - que novas dores, 
Que outro fado pior Tupã nos guarda? 
- As setas da aflição já se esgotaram, 
Nem para novo golpe espaço intacto 
Em nossos corpos resta. 
- Mas tu tremes! 
- Talvez do afã da caça.... 
- Oh filho caro! 
Um quê misterioso aqui me fala, 
Aqui no coração; piedosa fraude 
Será por certo, que não mentes nunca! 
Não conheces temor, e agora temes? 
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige, 
E contra o seu querer não valem brios. 
Partamos!... - 
E com mão trêmula, incerta 
Procura o filho, tacteando as trevas 
Da sua noite lúgubre e medonha. 
Sentindo o acre odor das frescas tintas, 
Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente... 
Do filho os membros gélidos apalpa, 
E a dolorosa maciez das plumas 
Conhece estremecendo: - foge, volta, 
Encontra sob as mãos o duro crânio, 
Despido então do natural ornato!... 
Recua aflito e pávido, cobrindo 
Às mãos ambas os olhos fulminados, 
Como que teme ainda o triste velho 
De ver, não mais cruel, porém mais clara, 
Daquele exício grande a imagem viva 
Ante os olhos do corpo afigurada. 
Não era que a verdade conhecesse 
Inteira e tão cruel qual tinha sido; 
Mas que funesto azar correra o filho, 
Ele o via; ele o tinha ali presente; 
E era de repetir-se a cada instante. 
A dor passada, a previsão futura 
E o presente tão negro, ali os tinha; 
Ali no coração se concentrava, 
Era num ponto só, mas era a morte!

- Tu prisioneiro, tu? 
- Vós o dissestes. 
- Dos índios? 
- Sim. 
- De que nação? 
- Timbiras. 
- E a muçurana funeral rompeste, 
Dos falsos manitôs quebrastes maça... 
- Nada fiz... aqui estou. 
- Nada! - 
Emudecem; 
Curto instante depois prossegue o velho: 
- Tu és valente, bem o sei; confessa, 
Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo! 
- Nada fiz; mas souberam da existência 
De um pobre velho, que em mim só vivia.... 
- E depois?... 
- Eis-me aqui. 
- Fica essa taba?

- Na direção do sol, quando transmonta. 
- Longe? 
- Não muito. 
- Tens razão: partamos. 
- E quereis ir?... 
- Na direção do acaso.


VII

"Por amor de um triste velho, 
Que ao termo fatal já chega, 
Vós, guerreiros, concedestes 
A vida a um prisioneiro. 
Ação tão nobre vos honra, 
Nem tão alta cortesia 
Vi eu jamais praticada 
Entre os Tupis, - e mas foram 
Senhores em gentileza.

"Eu porém nunca vencido, 
Nem nos combates por armas, 
Nem por nobreza nos atos; 
Aqui venho, e o filho trago. 
Vós o dizeis prisioneiro, 
Seja assim como dizeis; 
Mandai vir a lenha, o fogo, 
A maça do sacrifício 
E a muçurana ligeira: 
Em tudo o rito se cumpra! 
E quando eu for só na terra, 
Certo acharei entre os vossos, 
Que tão gentis se revelam, 
Alguém que meus passos guie; 
Alguém, que vendo o meu peito 
Coberto de cicatrizes, 
Tomando a vez de meu filho, 
De haver-me por se ufane!" 
Mas o chefe dos Timbiras, 
Os sobrolhos encrespando, 
Ao velho Tupi guerreiro 
Responde com tôrvo acento:

- Nada farei do que dizes: 
É teu filho imbele e fraco! 
Aviltaria o triunfo 
Da mais guerreira das tribos 
Derramar seu ignóbil sangue: 
Ele chorou de cobarde; 
Nós outros, fortes Timbiras, 
Só de heróis fazemos pasto. -

Do velho Tupi guerreiro 
A surda voz na garganta 
Faz ouvir uns sons confusos, 
Como os rugidos de um tigre, 
Que pouco a pouco se assanha!


VIII

"Tu choraste em presença da morte? 
Na presença de estranhos choraste? 
Não descende o cobarde do forte; 
Pois choraste, meu filho não és! 
Possas tu, descendente maldito 
De uma tribo de nobres guerreiros, 
Implorando cruéis forasteiros, 
Seres presa de via Aimorés.

"Possas tu, isolado na terra, 
Sem arrimo e sem pátria vagando, 
Rejeitado da morte na guerra, 
Rejeitado dos homens na paz, 
Ser das gentes o espectro execrado; 
Não encontres amor nas mulheres, 
Teus amigos, se amigos tiveres, 
Tenham alma inconstante e falaz!

"Não encontres doçura no dia, 
Nem as cores da aurora te ameiguem, 
E entre as larvas da noite sombria 
Nunca possas descanso gozar: 
Não encontres um tronco, uma pedra, 
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos, 
Padecendo os maiores tormentos, 
Onde possas a fronte pousar.

"Que a teus passos a relva se torre; 
Murchem prados, a flor desfaleça, 
E o regato que límpido corre, 
Mais te acenda o vesano furor; 
Suas águas depressa se tornem, 
Ao contacto dos lábios sedentos, 
Lago impuro de vermes nojentos, 
Donde fujas com asco e terror!

"Sempre o céu, como um teto incendido, 
Creste e punja teus membros malditos 
E oceano de pó denegrido 
Seja a terra ao ignavo tupi! 
Miserável, faminto, sedento, 
Manitôs lhe não falem nos sonhos, 
E do horror os espectros medonhos 
Traga sempre o cobarde após si.

"Um amigo não tenhas piedoso 
Que o teu corpo na terra embalsame, 
Pondo em vaso d’argila cuidoso 
Arco e frecha e tacape a teus pés! 
Sê maldito, e sozinho na terra; 
Pois que a tanta vileza chegaste, 
Que em presença da morte choraste, 
Tu, cobarde, meu filho não és."


IX

Isto dizendo, o miserando velho 
A quem Tupã tamanha dor, tal fado 
Já nos confins da vida reservada, 
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias 
Da sua noite escura as densas trevas 
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára! 
O grito que escutou é voz do filho, 
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes 
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma! 
- Esse momento só vale a pagar-lhe 
Os tão compridos trances, as angústias, 
Que o frio coração lhe atormentaram

De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra. 
Ele que em tanta dor se contivera, 
Tomado pelo súbito contraste, 
Desfaz-se agora em pranto copioso, 
Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem, 
Gritos, imprecações profundas soam, 
Emaranhada a multidão braveja, 
Revolve-se, enovela-se confusa, 
E mais revolta em mor furor se acende. 
E os sons dos golpes que incessantes fervem, 
Vozes, gemidos, estertor de morte 
Vão longe pelas ermas serranias 
Da humana tempestade propagando 
Quantas vagas de povo enfurecido 
Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo 
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória, 
Aturado labor de tantos anos, 
Derradeiro brasão da raça extinta, 
De um jacto e por um só se aniquilasse.

- Basta! Clama o chefe dos Timbiras, 
- Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, 
E para o sacrifício é mister forças. -

O guerreiro parou, caiu nos braços 
Do velho pai, que o cinge contra o peito, 
Com lágrimas de júbilo bradando: 
"Este, sim, que é meu filho muito amado!

"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, 
"Corram livres as lágrimas que choro, 
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."


X

Um velho Timbira, coberto de glória, 
Guardou a memória 
Do moço guerreiro, do velho Tupi! 
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!

"Eu vi o brioso no largo terreiro 
Cantar prisioneiro 
Seu canto de morte, que nunca esqueci: 
Valente, como era, chorou sem ter pejo; 
Parece que o vejo, 
Que o tenho nest’hora diante de mi.

"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo! 
Pois não, era um bravo; 
Valente e brioso, como ele, não vi! 
E à fé que vos digo: parece-me encanto 
Que quem chorou tanto, 
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

Assim o Timbira, coberto de glória, 
Guardava a memória 
Do moço guerreiro, do velho Tupi. 
E à noite nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!"

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Juca Pirama - Parte I



Embora todos saibamos a inverossimilhança do ideal de índio narrada por Gonçalves Dias e o abismo de diferença entre o tupi e timbiras representados e os verdadeiros, não se pode deixar de apreciar a excelente poesia. Juca Pirama é o poema épico brasileiro. Ou o épico índio. Mostra um índio que representa uma nação, ou antes todas as nações de índios. O herói no entanto passa por momentos de desonra que o elevam ainda mais nos momentos de honra e glória. Além disso é um guerreiro com sentimentos. A única coisa que o faz vacilar ante a morte é o amor pelo pai. E isso o faz ainda mais heróico.



Juca Pirama - Gonçalves Dias - Parte I



I-Juca Pirama

No meio das tabas de amenos verdores, 
Cercadas de troncos - cobertos de flores, 
Alteiam-se os tetos d’altiva nação; 
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, 
Temíveis na guerra, que em densas coortes 
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória, 
Já prélios incitam, já cantam vitória, 
Já meigos atendem à voz do cantor: 
São todos Timbiras, guerreiros valentes! 
Seu nome lá voa na boca das gentes, 
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, 
As armas quebrando, lançando-as ao rio, 
O incenso aspiraram dos seus maracás: 
Medrosos das guerras que os fortes acendem, 
Custosos tributos ignavos lá rendem, 
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro, 
Onde ora se aduna o concílio guerreiro 
Da tribo senhora, das tribos servis: 
Os velhos sentados praticam d’outrora, 
E os moços inquietos, que a festa enamora, 
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto, 
Sua tribo não diz: - de um povo remoto 
Descende por certo - dum povo gentil; 
Assim lá na Grécia ao escravo insulano 
Tornavam distinto do vil muçulmano 
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro 
Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro 
Assola-se o teto, que o teve em prisão; 
Convidam-se as tribos dos seus arredores, 
Cuidosos se incubem do vaso das cores, 
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira 
Entesa-se a corda da embira ligeira, 
Adorna-se a maça com penas gentis: 
A custo, entre as vagas do povo da aldeia 
Caminha o Timbira, que a turba rodeia, 
Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança, 
Afeitas ao rito da bárbara usança, 
índio já querem cativo acabar: 
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, 
Brilhante enduape no corpo lhe cingem, 
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,


II

Em fundos vasos d’alvacenta argila 
Ferve o cauim; 
Enchem-se as copas, o prazer começa, 
Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam, 
Sentado está, 
O prisioneiro, que outro sol no ocaso 
Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo, 
Mostra-lhe o fim 
Da vida escura, que será mais breve 
Do que o festim!

Contudo os olhos d’ignóbil pranto 
Secos estão; 
Mudos os lábios não descerram queixas 
Do coração.

Mas um martírio , que encobrir não pode, 
Em rugas faz 
A mentirosa placidez do rosto 
Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta 
No passo horrendo? 
Honra das tabas que nascer te viram, 
Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes 
Revive o forte, 
Que soube ufano contrastar os medos 
Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, 
Lá murcha e pende: 
Somente ao tronco, que devassa os ares, 
O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse, 
Como viveu; 
E o caçador que o avistou prostrado 
Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes 
Revive o forte, 
Que soube ufano contrastar os medos 
Da fria morte.


III

Em larga roda de novéis guerreiros 
Ledo caminha o festival Timbira, 
A quem do sacrifício cabe as honras, 
Na fronte o canitar sacode em ondas, 
O enduape na cinta se embalança, 
Na destra mão sopesa a iverapeme, 
Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo 
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra, 
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, 
Como que por feitiço não sabido 
Encantadas ali as almas grandes 
Dos vencidos Tapuias, inda chorem 
Serem glória e brasão d’imigos feros.

"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro; 
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, 
"As nossas matas devassaste ousado, 
"Morrerás morte vil da mão de um forte."

Vem a terreiro o mísero contrário; 
Do colo à cinta a muçurana desce: 
"Dize-nos quem és, teus feitos canta, 
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa 
O índio, que ao redor derrama os olhos, 
Com triste voz que os ânimos comove.


IV

Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi: 
Sou filho das selvas, 
Nas selvas cresci; 
Guerreiros, descendo 
Da tribo tupi.

Da tribo pujante, 
Que agora anda errante 
Por fado inconstante, 
Guerreiros, nasci; 
Sou bravo, sou forte, 
Sou filho do Norte; 
Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas, 
De tribos imigas, 
E as duras fadigas 
Da guerra provei; 
Nas ondas mendaces 
Senti pelas faces 
Os silvos fugaces 
Dos ventos que amei.

Andei longes terras 
Lidei cruas guerras, 
Vaguei pelas serras 
Dos vis Aimoréis; 
Vi lutas de bravos, 
Vi fortes - escravos! 
De estranhos ignavos 
Calcados aos pés.

E os campos talados, 
E os arcos quebrados, 
E os piagas coitados 
Já sem maracás; 
E os meigos cantores, 
Servindo a senhores, 
Que vinham traidores, 
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo, 
Meu último amigo, 
Sem lar, sem abrigo 
Caiu junto a mi! 
Com plácido rosto, 
Sereno e composto, 
O acerbo desgosto 
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado 
Já cego e quebrado, 
De penas ralado, 
Firmava-se em mi: 
Nós ambos, mesquinhos, 
Por ínvios caminhos, 
Cobertos d’espinhos 
Chegamos aqui!

O velho no entanto 
Sofrendo já tanto 
De fome e quebranto, 
Só qu’ria morrer! 
Não mais me contenho, 
Nas matas me embrenho, 
Das frechas que tenho 
Me quero valer.

Então, forasteiro, 
Caí prisioneiro 
De um troço guerreiro 
Com que me encontrei: 
O cru dessossêgo 
Do pai fraco e cego, 
Enquanto não chego 
Qual seja, - dizei!

Eu era o seu guia 
Na noite sombria, 
A só alegria 
Que Deus lhe deixou: 
Em mim se apoiava, 
Em mim se firmava, 
Em mim descansava, 
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado 
De penas ralado, 
Já cego e quebrado, 
Que resta? - Morrer. 
Enquanto descreve 
O giro tão breve 
Da vida que teve, 
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo, 
Mas forte, mas bravo, 
Serei vosso escravo: 
Aqui virei ter. 
Guerreiros, não coro 
Do pranto que choro: 
Se a vida deploro, 
Também sei morrer.


V

Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba; 
Os guerreiros murmuram: mal ouviram, 
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem! 
Brada segunda vez com voz mais alta, 
Afrouxam-se as prisões, a embira cede, 
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

Timbira, diz o índio enternecido, 
Solto apenas dos nós que o seguravam: 
És um guerreiro ilustre, um grande chefe, 
Tu que assim do meu mal te comoveste, 
Nem sofres que, transposta a natureza, 
Com olhos onde a luz já não cintila, 
Chore a morte do filho o pai cansado, 
Que somente por seu na voz conhece. 
- És livre; parte. 
- E voltarei. 
- Debalde. 
- Sim, voltarei, morto meu pai. 
- Não voltes! 
É bem feliz, se existe, em que não veja, 
Que filho tem, qual chora: és livre; parte! 
- Acaso tu supões que me acobardo, 
Que receio morrer! 
- És livre; parte! 
- Ora não partirei; quero provar-te 
Que um filho dos Tupis vive com honra, 
E com honra maior, se acaso o vencem, 
Da morte o passo glorioso afronta.

- Mentiste, que um Tupi não chora nunca, 
E tu choraste!... parte; não queremos 
Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas 
O rebater do coração se ouvia 
Precípite. - Do rosto afogueado 
Gélidas bagas de suor corriam: 
Talvez que o assaltava um pensamento... 
Já não... que na enlutada fantasia, 
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, 
Do velho pai a moribunda imagem 
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato! 
Curvado o colo, taciturno e frio. 
Espectro d’homem, penetrou no bosque!
.

sábado, 3 de novembro de 2012

Alma Minha Gentil, que te Partiste


Apesar de controverso, muitos julgam Camões o maior poeta da língua portuguesa. Embora sua imortalidade seja devida sobretudo ao seu poema épico, os Lusíadas, recebe um lugar importante em sua obra a poesia lírica. Enquanto na primeira há o otimismo com relação ao futuro e o orgulho das glórias do passado, na segunda há a melancolia e muitas vezes a saudade, exclusividade nossa. O sentimento intraduzível, o estar sozinho entre as gentes, uma das bases do tripé da alma portuguesa, aliada à coragem e à amizade.



Alma Minha Gentil, que te Partiste - Luís Vaz de Camões


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

À Conceição Imaculada de Maria Santíssima

Gregório de Matos é considerado o pai da poesia brasileira. Ao mesmo tempo em que escreveu poesias sacras de sublime piedade, escrevia também sátiras totalmente mundanas. Ele foi sem dúvida o grande e primeiro expoente da poesia barroca. Sua poesia sacra utiliza as formas clássicas de soneto e linguagem mais rebuscada. No entanto, a clareza e certa simplicidade nas linhas de raciocínio tornam suas poesias claras e acessíveis. Já a poesia satírica usa mais formas populares e muitas vezes escondem o verdadeiro sentido que se queria passar na época.



À Conceição Imaculada de Maria Santíssima - Gregório de Matos


Para Mãe, para Esposa, Templo e Filha,
Decretou a Santíssima Trindade
Lá da sua profunda eternidade
A Maria, a quem fez com maravilha.

E como esta na graça tanto brilha,
No cristal de tão pura claridade
A Segunda Pessoa humanidade
Pela culpa de Adão tomar, se humilha.

Para que foi aceita a tal Menina?
Para emblema do Amor, obra piedosa
Do Padre, Filho, e Pomba essência trina:

É logo conseqüência esta forçosa,
Que Estrela, que fez Deus tão cristalina
Nem por sombras da sombra a mancha goza.

domingo, 28 de outubro de 2012

Nossas Madres Vam a Sam Simon


Entre a aurora da literatura portuguesa certamente as cantigas de amor e de amigo tem o primeiro lugar. Era uma das bases, ainda antes de ser trazida a forma clássica italiana de soneto. Existem muitas cantigas certamente mais importantes do que a seguinte. Escolhi essa no entanto por ser uma cantiga de amigo, ou seja, com o eu-lírico feminino, onde o refrão é bem claro e bem colocado e retrata cenas da vida cotidiana ao invés do amor cortês de sonho das cantigas de amor. Além disso, por ser em galego-português, a maioria delas é de difícil compreensão. Essa é bem clara, tanto no sentido geral como nas palavras antigas.


Nossas Madres Vam a Sam Simon - Pero Viviães


Pois nossas madres vam a Sam Simom
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos d'andar
com nossas madres, e elas entom
       queimem candeas por nós e por si,
       e nós, meninhas, bailaremos i.
 
Nossos amigos todos lá irám
por nos veer e andaremos nós
bailand'ant'eles fremosas em cós;
e nossas madres, pois que alá vam,
       queimem candeas por nós e por si.
       e nós, meninhas, bailaremos i.
 
Nossos amigos irám por cousir
como bailamos e podem veer
bailar [i] moças de bom parecer;
e nossas madres, pois lá querem ir,
       queimem candeas por nós e por si,
       e nós, meninhas, bailaremos i.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Tertuliano, o paspalhão

Como diz Glauco Mattoso no seu excelente blog de coletânea de sonetos, http://www.elsonfroes.com.br/sonetario/nsonetario.htm : "Ao longo de nossa história literária o soneto tem sido usado, com vantagem, para exercer a mesma função epigramática da trova ou da glosa decimal. Tanto na sátira política quanto na crônica de costumes ou na caricatura pessoal, o soneto é espaço mais propício ao retoque de um retrato psicológico ou social, no qual se patenteie simultaneamente a
perícia do fotógrafo. Quem assina o flagrante pode não ser poeta consagrado; pode até ser consagrado noutro departamento intelectual: mas o potencial crítico dum soneto certeiro terá validade permanente. Desnecessário lembrar que, apesar de ter sua relevância subestimada pela análise literária dita "séria", o gênero satírico é intrínseco à poesia desde seus primórdios. Basta citar, no caso brasileiro, Gregório de
Matos, a cujo verbete remeto o leitor. Neste espaço juntei alguns exemplos de sonetos satíricos além daqueles que se encontram nos verbetes mais renomados, como os do próprio Gregório, de Emílio de Meneses ou de Juó Bananére."


Sobre um playboy, versejou o comediógrafo Artur Azevedo:

TERTULIANO, O PASPALHÃO

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

— Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: — Juízo!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ah, um Soneto...

Para inaugurar a literatura portuguesa, eis um poema de um dos maiores - na minha opinião o mais genial - poeta de língua portuguesa, Fernando Pessoa. Acho que pode-se até dizer que Pessoa é o maior poeta da escola modernista. Há muita coisa a dizer sobre ele. Desde sua primeira obra e obra prima, Mensagem, poema que, espantosamente ganhou segundo lugar em um concurso, até as enormes obras de seus heterônimos, como o soneto a seguir, escrito sob o heterônimo de Álvaro de Campos. O heterônimo, que o próprio criador dizia não ser ele mesmo mas outra pessoa nele, e com quem ele conversava no espelho, juntamente com Alberto Caeiro e Ricardo Reis, outros heterônimos. Esses três são os mais famosos dentre as criações de Fernando Pessoa. Para eles, o poeta tinha até escrito biografias e cada um tinha uma forma diferente de escrever, bem diferentes entre si e diferentes do estilo de Fernando Pessoa, ele mesmo. Álvaro de Campos era engenheiro que tinha estudado e vivido na Inglaterra, além de ter feito várias viagens descritas por ele mesmo. "Ah, um soneto..." fala ao mesmo tempo do coração e do próprio ato de se fazer um soneto. É um dos poemas mais emblemáticos tanto do heterônimo quanto de Fernando Pessoa.

Ah, um Soneto...


Meu coração é um almirante louco 
que abandonou a profissão do mar 
e que a vai relembrando pouco a pouco 
em casa a passear, a passear... 

No movimento (eu mesmo me desloco 
nesta cadeira, só de o imaginar) 
o mar abandonado fica em foco 
nos músculos cansados de parar. 

Há saudades nas pernas e nos braços. 
Há saudades no cérebro por fora. 
Há grandes raivas feitas de cansaços. 

Mas — esta é boa! — era do coração 
que eu falava... e onde diabo estou eu agora 
com almirante em vez de sensação? ...