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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Espólio do Senhor Cipriano - Parte IV


O estilo de Julio Dinis é uma mistura entre Romantismo e Realismo. Ao mesmo tempo, por ter mãe de ascendência irlandesa, ele dominava o inglês, o que lhe trouxe a possibilidade de leitura de clássicos ingleses, como Jane Austen e Dickens, de onde ele aprendeu o realismo psicológico, o qual ele mistura ao romantismo português. Sob essa ótica realista, sua obra tem um realismo muito mais inglês, com personagens complexas e que mudam de acordo com a narrativa do que com o realismo francês. Além disso, pelo encanto que tinha pelo próprio país, está misturado não só o romantismo dos sentimentos, onde, afinal, todos acabam felizes, mas um romantismo um pouco ufanista, que exalta a Pátria mostrando seus atrativos.

O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte IV




— Ele me ajudará também — dizia consigo mesmo a boa mulher, como se quisesse colorir com um pensamento egoísta o impulso que lhe viera directamente do coração.
Nós temos destas coisas.
Mas o certo é que, apesar da melhor vontade, em pouco podia Agostinho auxiliar a madrinha.
Auxiliar de que maneira? Emprego não o pôde ele obter. Naquela cidade, como em muitas outras terras do reino, não se vêem com bons olhos os infelizes que voltam do Brasil pobres. Lá parece uma prova de pouco espírito e da nenhuma aptidão a essa boa gente um semelhante sucesso. O Brasil é, para ela, como o campo de batalha. Ou volta-se de lá vitorioso, ou morre-se combatendo. Fugir é de covardes.
E ora aí têm os leitores a razão por que dois meses depois da chegada de Agostinho, era ainda Maquelina quem só provia às despesas da casa, as quais, como era de supor, tinham aumentado; desenvolvendo a pobre velha esforços sublimes para um duplo resultado: obter meios de subsistência e ocultar ao sobrinho os imensos sacrifícios, a que para isso se sujeitava.
Mas Agostinho suspeitava-os e afligia-se. Um dia falou à madrinha nas vozes que corriam ainda sobre as
riquezas do defunto. Maquelina sorriu tristemente, respondendo:
— Pois procura-as.
Agostinho deitou-se à obra com calma, revolveu de novo o quintal a mais de um metro de profundidade, despregou as tábuas do soalho, sondou as paredes, trepou aos mais altos escaninhos da casa... tudo
foi inútil.
Disse adeus ainda a essa ilusão. O que lhe valeu foi estar já costumado a despedir-se delas. A primeira vez custa mais.
No entretanto os esforços e vigílias de Maquelina arruinaram-lhe a saúde. Lutou braço a braço com a doença como lutara com a fome. Lutas heróicas que passam ignoradas, enquanto tantas outras, muito
menos merecedoras das honras da epopeia, são extremamente celebradas em oitava rima. Afinal caiu vencida no leito, e então é que o futuro se lhe mostrou carregado. A pobre mulher não se iludia nem sobre a gravidade da sua moléstia, nem sobre as consequências da sua morte.
Que seria de Agostinho? Agostinho, a quem ela amava já como se amam os entes fracos que vieram procurar a nossa protecção, com esse amor bem mais intenso mesmo do que o votado aos seres que
nos protegem.
Porque o primeiro lisonjeia o nosso orgulho, e o segundo, esse, revela a nossa inferioridade. Coisas humanas.
O futuro de Agostinho era a ideia negra de Maquelina; como ela ficaria contente por morrer se não fora isso! Mas agora custava-lhe; esta lembrança aumentava-lhe a doença. Que diria ela à irmã, quando no Céu lhe pedisse novas do filho? Que o deixara na miséria? E era isso de boa madrinha?
E estes pensamentos e apreensões definhavam-na a olhos vistos. Agostinho aterrou-se, e reconheceu então tudo quanto tinha havido de heróica abnegação no procedimento da tia.
O seu coração de homem teve um movimento pelo qual procurou libertar-se da espécie de colapso em que infortúnios continuados o haviam lançado. Agostinho curvara a cabeça sob a corrente de desgraças que sem interrupção haviam sucedido na sua vida; agora tentava elevá-la em um último esforço.
— É preciso tentar fortuna — dizia ele consigo — amanhã de manhã sairei a pedir trabalho, a tudo me quero sujeitar, a tudo. E adormeceu com este pensamento, sonhando daí a pouco em uma mina de ouro, onde ao fim de muita fadiga, só conseguiu extrair enormes pedras de carvão.
O leitor pode imaginar toda a agradável voluptuosidade de semente sonho. Por a manhã ergueu-se disposto a realizar o projecto da véspera; mas foi encontrar a tia em um estado tão assustador, que não teve
imo para abandoná-la.
— Não tem de ser! — disse consigo Agostinho, a quem a desgraça ase tornara fatalista.
Maquelina mostrava-se de facto em risco iminente. O facultativo de partido veio vê-la; pois Maquelina havia enfim conseguido entrar no quadro dos pobres. Tomou-lhe um pulso, depois o outro; deu-lhe três pancadas do lado direito do tórax, igual número do esquerdo; pousou-lhe o ouvido sobre as descarnadas costelas, e, como se escutasse lá dentro os passos da morte, ergueu-se e fez um gesto de descontentamento visível.
Receitou um chá de alteia e saiu.
Agostinho esperava-o à porta.
— Então ?
O médico puxou pelo relógio, ao qual principiou a dar corda, dizendo com a indiferença profissional:
— Como àquela máquina se não dá corda como a esta, pára dentro em poucas horas.
Agostinho sentiu subirem-lhe as lágrimas aos olhos. O médico voltou-se ainda de novo para dizer:
— Eu escuso de cá voltar, agora o padre.
Estas palavras, ditas em tom mais alto e da maneira mais natural possível, como as sabem dizer alguns adeptos da ciência hipocrática, que se jactam de fortes, chegaram aos ouvidos de Maquelina, que juntou as mãos, e, erguendo os olhos ao Céu, disse com voz débil:
— Aqui está a serva do Senhor, cumpra-se em mim a sua santíssima vontade.
Quando Agostinho entrou no quarto, encontrou-a resignada. Nessa mesma tarde confessou-se e sacramentou-se aquela pobre de Cristo.
Na cidade dizia-se:
— Coitada! o irmão matou-a. Morre de fome e fadiga e com dinheiro em casa.
Era forte cisma a do povo.
Mas há dessas teimas.
Ao pé da noite pediu Maquelina um chá para mitigar a sede
Naquele dia não se acendera ainda o lume em casa. Agostinho esquecera-se de comer, e se se lembrasse não sei bem o que teria sucedido. Melhor foi que se não lembrasse.
Agostinho correu à cozinha, reuniu a custo alguns cavacos já meio queimados para acender o lume, e voltou à sala.
Maquelina dava-lhe instruções da cama.
— Ainda achaste lenha ?
— Achei, sim, madrinha.
— Bem; ora agora... Essa lamparina está acesa ainda?
— Está, madrinha, está, pois não vê.
— Não, filho, já a não vejo.
Havia neste já uma significação que comoveu Agostinho.
Ela continuava:
— Encontraste carqueja ?...
— Não, madrinha... mas...
— Valha-me Deus — disse ela, lutando já com dificuldades para se fazer ouvir. —Olha, sabes, aí... na gaveta do toucador... está uma papelada de que... às vezes me sirvo para economizar. Acende alguma
na... lamparina e... Ai! — terminou ela com um suspiro, que o longo esforço que tinha feito para falar lhe tornara necessário; e depois em voz mais baixa acrescentou:
— Louvado seja o Senhor, a que estado eu cheguei!
Agostinho abriu a gaveta.
— Aí — continuou Maquelina com voz sumida e trémula.
— Achaste? bem... ora agora...
Agostinho inflamou à chama escassa da lamparina um dos papéis que tirara do velho toucador da tia.
— Isso — disse esta satisfeita por se ver compreendida.
Ãs sombras indistintas que reinavam no aposento sucedeu a claridade da lavareda, mas foi de pouca duração. Ainda não teria ardido metade do papel, já Agostinho, soltando um grito inexprimível, o atirava ao chão, abafava-o com os pés, precipitando ao mesmo tempo pela vivacidade do movimento a lamparina, que se fez em pedaços.
A escuridade tornou-se completa.
— Que foi, santo nome de Jesus! que foi, Agostinho? — dizia assustada Maquelina, erguendo-se a meio corpo.
— Que papéis eram estes, minha madrinha?
— Eu sei lá, filho; mas que foi ? valha-me o Senhor,
— Uma luz! uma luz! — bradou Agostinho fora de si; e saiu repentinamente da casa, atravessou a rua, enfiou pela primeira porta que encontrou aberta, galgou um lanço de escadas, penetrou em um quarto
onde trabalhavam pacificamente algumas mulheres, apoderou-se da luz que viu no meio da mesa, em volta da qual elas se formavam em círculo, e sem dar uma única palavra, saiu arrebatado, deixando em completa estupefacção as circunstantes, que só passados minutos voltaram a si, para correrem atrás do mancebo, que parecia possesso.
Agostinho entrou de novo no quarto da tia moribunda, aproximou-se do lugar onde deixara os restos do papel meio consumido, apanhou-o, examinou-o com escrupulosa atenção, depois correu à gaveta do toucador, sujeitou a igual exame os outros papéis semelhantes que ai estavam a monte.
— Por amor de Deus, madrinha... mas... de onde vieram estes papéis ? — exclamou ele, ao passo que um por um os passava em revista.
Maquelina, apoiada no braço convulso e com os olhos espantados, olhava para o sobrinho estupefacta.
— Eram do mano, o Senhor o tenha em glória; guardava-os naquela arca; ele sempre me disse que de nada valiam, e agora que eu me via precisada ia-os queimando, para...
— Mas, valha-nos a Virgem! era uma riqueza inteira que queimava assim!
— Que dizes tu, filho?
Os combustíveis da tia Maquelina eram nem mais nem menos que boas e excelentes notas de banco, às quais o velho Cipriano reduzira os seus haveres, porque o amedrontava o tinir do dinheiro metálico, como chamariz de ladrões: enquanto que por outro lado nunca se pudera resignar a separar-se do seu querido capital, em cuja contemplação saboreava aquela doce voluptuosidade, só dos avarentos conhecida.
Quando se procedeu a investigações em casa de Maquelina para descobrir o tesouro oculto, esqueceram-se, como quase sempre acontece, de examinar os lugares, por onde deviam ter principiado; enquanto profundavam a terra e escavavam as paredes, ninguém se lembrou de abrir a pequena gaveta, que nem chave tinha sequer, e onde Maquelina alojara toda a riqueza. Mas quem o podia supor!
O instinto do povo não o enganara desta vez. Cipriano era de facto rico. Vivera uma vida de privações, praticou um negócio de alta usura debaixo das maiores cautelas e mistério impenetrável; aí está explicada a sua riqueza. É receita infalível para chegar ao mesmo resultado; as pessoas, a quem não nausearem os ingredientes, adoptem-na, porque não falha. Desconfiando de todos, da própria irmã desconfiava, e dava-lhe por isso a entender que de nenhuma importância eram os papéis que ela às vezes por acaso chegara a descobrir.
Maquelina era ignorante, e nem imaginava sequer que se pudesse ter uma riqueza em papéis. Na sua inteligência, como na das crianças, a ideia de riqueza andava associada à de muito dinheiro em ouro e prata:
gavetas, cómodas, caixas e burras cheias dele ; e por isso ia queimando agora lentamente aquele tesouro que o irmão acumulara; e isto com o fim de poupar carqueja!
Cleópatra, brindando os amantes com soluções de pérolas preciosas, não conseguiu ser mais magnifica. Era um passatempo de milionário o de Maquelina.
Se Deus lhe prolongasse a vida, até onde iria aquela monstruosa combustão? Que soma enorme seria aniquilada! E ainda assim quanto não consumiria!
Nunca se pôde calcular.
Há o quer que é de sublime neste quadro. Uma mulher velha, caquética, esfomeada, agonizante, tendo ao alcance do braço uma riqueza, como ela nem sequer concebera nos seus mais ambiciosos sonhos, e queimando-a!
A notícia inesperada, que recebia agora, imprimiu àquela existência o derradeiro abalo. A alma, já quase desapegada do corpo, abandonou-o de todo e partiu.
À meia-noite morreu a santa criatura, contente, porque deixara rico o sobrinho e afilhado, único parente que possuía na terra.
Ainda assim, quando se divulgou a notícia, o que, graças à comunicabilidade das mulheres a quem gostinho usurpara a luz, e que foram as primeiras a sabê-la, se não fez esperar muito, houve quem se penteasse como herdeiro.
Faria rir se expusesse aqui os fundamentos das pretensões desta gente, e eu não quero fazer rir o leitor a quem peço antes uma lágrima para a memória de Maquelina.
Não seguiremos agora a história de Agostinho, que se modela por a de todos os homens ricos.
Apenas direi que por suas especulações comerciais conseguiu multiplicar o capital tão inesperadamente herdado, e hoje é milionário.
Vejam o instinto do povo!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Espólio do Senhor Cipriano - Parte III

Júlio Dinis é mais conhecido por seus 4 romances. As Pupilas do Senhor Reitor é o primeiro a ser publicado e também o mais conhecido. Foi adaptado para o teatro e representado ainda em vida do autor. Os fidalgos da Casa Mourisca foi último escrito e não chegou nem a ser completamente revisto por Júlio Dinis. Esses dois e A Morgadinha dos Canaviais mostram a vida no campo e nas aldeia portuguesas. A paixão pelo campo foi inspirada ao autor quando este esteve passando um tempo na casa de alguns parentes para tentar tratar a tuberculose.
Já Uma Família Inglesa trata da vida da pequena burguesia nascente na cidade do Porto, transformando-se em algo com traços autobiográficos, pois foi o meio onde o autor nasceu. Em todos eles, Júlio Dinis é escrupuloso em descrever com detalhes e realismo a paisagem, os costumes, o estilo de vida e os caracteres das classes portuguesas. Dessa forma, há descrições minuciosas e por vezes extensas que procuram ser leves pois o autor considera-as como parte fundamental de sua obra como um todo.


O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte III



Não sei de nada mais delicado, do que é este ser misterioso e respeitável por excelência, a que se dá o nome de público. É singular como todos tomam a peito manter-lhe a veneração devida e se doem às mais levas infracções que esta sofre. Grita-se contra um facto escandaloso, pateia-se no teatro uma produção imoral, fulmina-se um procedimento menos honesto, em respeito ao público, já se sabe. Não me ofendi eu, nem vós, nem eles; interrogai-os um por um, nenhum se dará por ofendido, mas todos vos responderão com a fórmula: «e o público!» Porém valha-nos Deus, o público é exactamente constituído por mim, por ti, por vós todos que assim respondeis; como é, pois, que de elementos tão pouco susceptíveis resulta um produto
tão melindroso?
Cada qual no gabinete lê uma obra de duvidosa moralidade, ri-se, diverte-se com a leitura, e ninguém quererá admitir que ele lhe possa ter causado o menor prejuízo. Aí temos portanto uma obra inofensiva ; pois não é tal; antes a vemos proclamar um verdadeiro veneno servido pela imprensa ao público, um miasma que se ergue dos prelos, um fermento de dissolução de costumes, e outros nomes igualmente feios. A não vermos nestes factos a confirmação daquelas ideias, que nas primeiras páginas expendi, não sei que outra solução razoável daremos ao problema.
É certo, porém, que o público, citado pelo regedor, achava-se exactamente nestas circunstancias. Todos os presentes abanavam a cabeça em sinal de aprovação; nenhum pela sua parte se mostrava escandalizado com o extemporâneo aparecimento de Maquelina, mas o complexo pelos modos sofria muito com isso.
A referida observação da autoridade humedeceram-se os olhos de Maquelina.
— E que lhe hei-de eu fazer, Sr. Bento Maria ? Quem é pobre...
Houve sussurro na assembleia; o adjectivo parecia beliscar o auditório.
— Pobre! É sempre o mesmo estribilho — disseram algumas vozes.
O regedor serenou o tumulto, dirigindo-se a Maquelina.
— Bem, deixemos agora isso. O que a traz por aqui?
Maquelina explicou-se. A indignação dos circunstantes rebentou.
— Sempre é desaforo!
— Também é preciso ter descaramento.
— É digna do irmão, já vejo.
— A alma do sovina meteu-se-lhe no corpo.
— Quem esconjura esta mulher ?
O regedor principiou a franzir a testa.
— Ora vejam a pobrezinha.
— Nosso Senhor a favoreça, irmã.
— Ora já viram!
O regedor levantou-se.
— Quem enterra o mano ?
— Forte perda, se fica de fora!
— Aquele nem os bichos o querem.
— Leva rumor! Ai, que eu...—rugiu por entre dentes o regedor, e todos imediatamente... silent, arrectisque auribus adstant. Pudera; o ai, que eu... do Sr. Bento Maria não ficou a dever nada ao célebre quos ego... de Neptuno. O regedor sabia, como Virgílio, o valor de eloquentes reticências. Em auxílio da ordem veio de mais a observação de um circunstante, dotado de sentimentos mais humanitários.
— A mulher tem razão, coitadinha, se o miserável deixou tudo escondido.
As massas são fáceis de impressionar. O alvitre modificou as opiniões.
-— É assim, é assim.
— Pobre criatura!
— Que vale tê-lo, se se não sabe aonde ?
Por este tê-lo entendia-se dinheiro; é de facto o substantivo que mais elipses suporta; tão presente o trazem na ideia, que não necessita estar nas orações antecedentes, para ser subentendido.
— Sim, sim, ela tem razão, é pobre, é...
O regedor enfarinhado nas praxes constitucionais, não era homem que fosse de encontro à opinião dos fregueses e, portanto, depois de concentrar por algum tempo o espírito, operação que nem por isso lhe aumentou demasiado a energia, passou o seguinte atestado, modelo de diplomacia e de exactidão ortográfica:
«Eu Bento Maria do portal, regidor de esta freguesia atesto im
como Maquilina Rosa Martins, solteira, de esta Cidade, não tem, aberes para lazer, as despesas do intero do seu irmon cepreano cujo consta ter dinheiro. Mas o quecerto é que por morte se não incontrou i se é
berdadeiro o dito do bulgo o debe ter, nalgum iscondrijo, que ainda se não inchergou. E por ser berdade o que Açupra, atesto e mo diserem pessoas diganas para mim de todo o Creto, pacei esta que juro.
«Dada em esta Cidade a 12 de Janeiro de...
«Bento maria do portal.»
Bento Maria era decididamente o funcionário público de mais expediente e de mais arrojadas medidas que existia então na cidade, Depois de mais algumas dificuldades e tropeços sempre se conseguiu enterrar, à ordem da junta de paróquia, o velho Cipriano, o qual de outra maneira bem teria de ficar fora do seio da terra, por não haver deixado dinheiro.
Todos estes acontecimentos, longe de desvanecerem os boatos das ocultas e sonhadas riquezas de Cipriano, os aumentaram, e deram lugar a duas versões diferentes.
Uns, mas eram a minoria, lançavam em rosto à pobre Maquelina o mesmo que haviam imputado ao irmão; outros, porém, viam nela uma vítima, ainda além da campa, da sórdida avareza do incorrigível octogenário.
Só Maquelina é que rejeitava urna e outra crença. Sabia-se inocente e não se acreditava vítima. E lutando com a idade avançada, tirava forças da fraqueza e ia provendo conforme podia ao seu sustento
quotidiano.
Não pôde, porém, resistir inteiramente às insinuações dos que falavam em tesouros enterrados, e as portas da casa abriram-se de par em par a uma junta de inquérito, presidida pelo regedor, a qual, pelos mais escusos recantos, e a grande profundidade no quintal procurou o decantado tesouro, sem no fim colher frutos de tantos esforços.
E as coisas conservaram-se por muito tempo neste pouco agradável statu quo. Um dia, porém, pioraram longe de se desanuviarem, as circunstâncias de Maquelina. Um sobrinho seu, filho de uma irmã que morrera jovem, voltou do Brasil e, contra o que era de esperar, vinha como partira, isto é,
com a riqueza de Job na desgraça.
A história deste rapaz é uma história longa e curiosa, que desta vez não contarei ao leitor.
Uma manhã, pois, quando Maquelina estava meditando em não sei que medida de economia doméstica, importantíssima para a melhor direcção de suas mesquinhas finanças, entrou-lhe pela porta dentro um rapaz magro, espigado, de fisionomia denunciadora de sofrimentos, o qual lhe estendia as mãos, dizendo: — Bons dias, madrinha, então não me conhece?
— Santa Maria! Querem ver que... És tu, Agostinho?
— Eu, eu mesmo.
A boa Maquelina saltou-lhe ao pescoço e devorou-o de beijos. O rapaz viu-se em talas e com ameaças de asfixia. Depois veio um pensamento à tia Maquelina, pensamento um pouco interesseiro é verdade, mas desculpem-na, e não ma principiem já por isso a olhar com maus olhos; todos como ela o teriam, e, o que
pior é, a poucos viria apenas em segundo lugar e só muito após dos espontâneos impulsos de uma afeição desinteressada: «o rapaz vinha Brasil... e o Brasil sempre é o Brasil» foi a ideia que lhe voou pelo
— Então — disse ela, movida por essa ideia— vens... rico!
Agostinho voltou os bolsos do avesso por única resposta. Maquelina juntou as mãos e não deu palavra.
E para quê? Queriam ainda de parte a parte mímica mais expressiva!
.— Vim para não morrer de fome.
Aqui benzeu-se a boa da tia.
— Embarquei como moço de navio por não ter dinheiro para a passagem.
Neste ponto persignou-se.
— E agora venho pedir-lhe — continuou o sobrinho — que me receba em casa até... até... arranjar modo de vida.
Maquelina, quando, junto da pia baptismal do pequeno Agostínho, se declarara madrinha, à face da Igreja, do filho querido de sua irmã, tinha já concebido uma alta ideia da missão que desde aquele momento ia adoptar por sua e para com o recém-nascido, que sustentava nos braços; nem foram para ela simples palavras de formalidade as que em tom de prédica ouvira ao pároco, sobre os seus deveres futuros. «Na falta dos pais, dissera ele, aos padrinhos compete a vigilância e a educação das crianças, que sob a sua protecção entrarem no grémio da Igreja católica». Ora os pais de Agostinho lá se tinham já partido para melhor morada, e Maquelina, que, eminentemente escrupulosa em negócios de consciência, se julgava por ela obrigada a cumprir até ãs últimas extremidades os seus deveres de cristã, tinha de mais a mais um coração farto para afeições e sentimento.
Fechou, pois, os olhos aos sacrifícios futuros e aceitou a companhia do afilhado.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Espólio do Senhor Cipriano - Parte II

Júlio Dinis é o pseudônimo mais conhecido do escritor Joaquim Guilherme Gomes Coelho. O autor (Porto 1839-1871) foi formado em Medicina, mas não se interessava pela profissão, ao contrário, sua verdadeira paixão era a literatura. Apesar do pouco tempo de vida, deixou uma obra grande entre críticas literárias, poemas, contos e 4 romances. No início de sua vida começou a escrever para jornais, de onde foram pegos os contos para as coletâneas Serões da Província e Inéditos e Esparsos, publicada postumamente. Em 1869 Julio Dinis parte para a Madeira para tratar de tuberculose, diagnosticada alguns anos antes, mas não permanece inativo, escrevendo sempre. No mesmo ano de sua morte, uma sua peça de teatro é representada no Rio de Janeiro, consagrando assim a internacionalização, por assim dizer do autor. Serões da Província, onde se encontra o conto foi publicado em 1869.



O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte II



Maquelina à palavra requerimento empalideceu. Fazer um requerimento é um negócio importante, um passo difícil na vida destes seres inofensivos e alheios a processos judiciais, a cuja confraria pertencia a boa mulher.
Mas que remédio! Saiu dali e procurou o presidente da câmara.
Era este um gordo merceeiro, cuja cabeça se podia dizer um vulcão de medidas tendentes todas ao melhoramento público e progresso social. Durante a sua feliz administração dos negócios municipais, contava actos realmente surpreendentes de tino governativo.
Seja-me lícito citar aqui alguns factos da vida pública deste não aproveitado estadista. Os moradores de uma rua estreita, onde os beirais dos telhados fronteiros quase se encontravam a ponto de interceptarem a passagem da luz solar, queixavam-se da mania, desenvolvida em alguns vizinhos, de cultivarem frondosos arbustos nas sacadas das habitações, com grande incómodo e prejuízo dos queixosos, para os quais anoitecia mais depressa, graças à sombra impenetrável que projectavam os folhudos ramos na já de si pouco esclarecida rua. O sábio edil legislou à vista disso:
«Ficam proibidas as árvores em todos os lugares onde a vegetação seja impossível.»
Eu penso que se Montesquieu tivesse notícia desta lei havia de apreciá-la, pela admirável concordância com as da imutável natureza. De outra vez os contribuintes pacíficos que habitavam próximo aos arrabaldes, lamentaram-se, em termos legais, pelas incómodas harmonias, com que todas as manhãs os despertavam os carreteiros com a infernal chiadeira de impertinentes carros. Pensava aquela boa gente que a sinfonia de ouverture da criação não perdia nada se lhe suprimissem da orquestra o pouco harmonioso instrumento. Atendendo à justa reclamação dos povos, o judicioso funcionário promulgou que: «Todos os carros que chiassem contra as posturas municipais, pagassem dois mil-réis de multa, sendo metade para o denunciante, dado o caso de serem ouvidos».
Já se vê que chiar contra as posturas era coisa séria; a câmara tinha susceptibilidades e ofendida chegava a multar... os carros. Quando esta medida se discutiu em plena vereação, um dos camaristas levantou-se e deu mostras de querer falar.
— Peço a palavra, sr. presidente.
— Tem a palavra o ilustre colega.
— Eu desejava que se fosse mais severo contra os perturbadores do sono público e se desse maior alcance a esta medida policial, multando todo o carro que chiar, quer seja ouvido, quer não.
O conselho, atendendo porém a que não convinha ser demasiado ríspido com os povos e que os carros não sendo ouvidos, pouco podiam incomodar, adoptou a cláusula do autor do projecto, rejeitando a emenda.
E foi muito bem considerado.
Outra ocasião ainda, ouvindo o nosso homem discutirem dois bacharéis, classe de sábios que sempre respeitou, sobre a conveniência das Rodas, e vendo-os acordes na necessidade de importantes e radicais reformas nestes estabelecimentos, veio para casa pensativo, e o cérebro, fecundado por aquela ideia, lidou toda a noite em gestação mental, tendo no fim o seu bom sucesso, porquanto pela manhã o magistrado municipal apresentou à aprovação dos colegas a seguinte medida regulamentar:
«Toda a mãe que expuser seu filho sem um bilhete do município, fica tacitamente encarregada da educação deste.»
A entender-se gramaticalmente a coisa, rude tarefa cabia à pobre da mãe, superior ao esforço humano.
Esta medida de um incomensurável alcance económico, por um triz ia passando.
Mas emperrou no advérbio tacitamente, que de facto era a maior palavra do período e que o legislador empregara para o arredondar; ele tinha lá suas ideias a respeito de estilo, não obstante viver antes das últimas reformas dos liceus, na qual pelos modos este assunto foi regulado de uma vez para sempre. Se a lacónica definição de Buffon é verdadeira, se o estilo é o homem, ninguém de facto como o nosso
vereador podia fazer períodos mais rotundos. Mas o corpo camarário viu na frase não sei que sentido maquiavélico, e mostrou escrúpulos.
Em vão o digno chefe de tão respeitável corporação, com aquela abnegação quase estóica que o caracterizava, se prontificou a substituir esse advérbio por outro qualquer, sem escolha, tais como: restritamente, completamente, impreterivelmente, categoricamente, etc, etc ; ele só queria salvar a beleza da forma; não houve de que, o conselho, entrando uma vez no caminho da desconfiança, não tinha por costume
recuar.
Esteve ainda assim, vai não vai, a resolver-se pela adopção do categoricamente, agradado da eufonia da palavra; mas enfim nem esse admitiu, e a medida foi rejeitada. Era pois diante deste vasto talento governativo que Maquelina fora enviada a implorar um diploma de pobre. Louvado seja Deus! até isto se implora!
— Mas — observou o judicioso presidente ao ouvi-la — pobre é todo aquele que não tem dinheiro.
Maquelina concordou. Pudera não. A definição satisfazia a todos os preceitos mencionados no Genuense; curta, clara, etc,  e t c ; e mais o nosso vereador não estudara lógica.
O homem continuou:
- E segundo é voz e fama vocês têm mundos e fundos.
Aqui principiava Maquelina a discordar, por infelicidade sua. Em única resposta mostrou os cobres que trazia.
— Eis a minha riqueza.
— Pois sim, pois sim... mas... olhe, disso não quero eu saber. É pobre ? Peça ao pároco e ao regedor um atestado, e depois,.. depois... isso é com a junta de paróquia.
— Mas...
— Adeus, minha amiga, temos conversado.
E o oráculo emudeceu.
Maquelina ao sair levava uma cara, que seria a sua justificação, se o vereador acreditasse na ciência dos fisionomistas; mas parece-me poder atestar o contrário. O bom homem chamaria tolo a Laváter, se o
tivesse conhecido.
Dali passou Maquelina a casa do pároco.
Eram horas da sesta e o reverendo dormia; único ponto de contacto que tinha com Homero. E que sono!
Bem pudera de seus paroquiais flancos elevar-se toda a bem provida árvore de Jessé, que está representada na nave direita da igreja dos Franciscanos no Porto, que ele rivalizaria em impassibilidade com
aquele venerável patriarca, que a sustenta.
Quando o foram acordar, o pastor daqueles povos resmungou, moveu-se, voltou-se para o outro lado e... continuou a dormir. À segunda tentativa, tornou a resmungar, tornou a mover-se, a voltar-se para o
outro lado e... tornou a dormir; à terceira, sentou-se na cama, esfregou os olhos, abriu a boca estrepitosamente e não deu acordo de si; pôs-se a olhar depois para o travesseiro com visíveis tentações
de se precipitar de novo nele; obstou-o a criada, que voltou a chamá-lo â vida real. Então seguiu-se o descer do leito, o evacuar dos pulmões obstruídos por um catarro crónico, o fungar de uma farta pitada, e enfim apareceu o homem em toda a magnitude da sua... gordura.
Dizem que o erguer do leito é a ocasião em que os monarcas são mais acessíveis a pedidos; o nosso abade, conquanto também cabeça coroada, não se parecia neste particular com suas majestades; pelo contrário, se havia para ele horas de mau humor eram as que se seguiam ao momento em que a inexorável força das circunstâncias o obrigava a emergir de entre os lençóis, oceano, onde voluntariamente aquele sol e mergulhava.
— Oh! oh! — bradou o indolente levita ao ver Maquelina — então foi-se o homem?
— Assim o quis Nosso Senhor.
— E vamos a saber, quanto se herdou ?
Maquelina exibiu os quatrocentos réis, que era todo o espólio em metal.
— Histórias da Maria Carocha — resmungou o abade zangado.
— É isto que digo a V. S.*: meu irmão...
— Não me venha contar tonilhos. Diga lá o que quer?
Maquelina expôs o fim da visita. O padre arregalou os olhos.
— Ui! Essa é de barbas! Eu hei-de atestar que você é pobre!
Maquelina fez um sinal afirmativo.
— Ora, santinha, ora. E para isso fez-me acordar de um sono que... que...
— Mas, sr. abade, é a verdade que V. S.* atesta, e senão diga-me onde me encontra a riqueza?
— Seu irmão há-de ter deixado somas fabulosas!
— Pois venha V. Rev.ma ver e dirá depois. Jesus, meu Deus, procurem, procurem, oxalá que achassem, meu divino Pai do Céu
— Enfim, mulher, não me meta em trabalhos; vá ter-se com o regedor, e eu, o mais que posso fazer, é confirmar lá na junta o que ele certificar.
Maquelina passou à regedoria. O regedor era taberneiro, e naquele momento o seu duplo estabelecimento estava atulhado de fregueses.
As largas mãos deste vigilador da ordem pública distribuíam simultaneamente vinho e justiça aos circunstantes, e mais amplas medidas de justiça que de vinho a acreditarmos os consumidores. A entrada de Maquelina causou sensação.
O regedor, em pleno gozo do seu funcionalismo, dignou-se interrogar a irmã do falecido, e os olhos da importante autoridade, pondo nela:
— Então que a traz por aqui, Sr.* Maquelina? — disse com voz benigna. — Não é bonito andar assim já pela rua, quando tem seu irmão morto em casa. Que há-de dizer o público ?!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Espólio do sr. Cipriano - Parte I

Júlio Dinis é um dos principais romancistas do Romantismo português. Para os próximos posts, colocarei o conto O Espólio do Sr. Cipriano. É um conto leve, divertido, inocente que retrata a inocência da ignorância. Sua publicação, primeiramente em jornal, consta agora no livro Serões da Província, uma coletânea de contos do autor. Nesses contos, assim como em seus romances, o autor descreve o campo português "em português". Pelo modo da descrição, imaginamos o sol, a relva, o vento, o resfolegamento para se chegar ao alto de cada morro, o sorriso ao observar a estrada de poeira, lá em baixo, mas não tão baixo, a alegria, o espírito leve e a saudade de não se sabe o quê. Nesse conto, porém há principalmente a inocência pura das pessoas simples.



O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte I


Desde que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência dos factos desarraigá-la. Parece que à medida que um por um se vão quebrando os laços que a prendiam à razão e diminuindo a plausibilidade que dos espíritos sensatos a fazia ainda aceitar, mais atractivos ela ostenta à fantasia popular, sempre afeiçoada ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões, como as crianças a perseguirem as borboletas através das campinas.
Quando o povo vê fugir, por inverosímil, do campo da discussão um facto controvertido, é quanto mais se apressa a recebê-lo como dogma, a adoptá-lo com a cegueira da fé; é então que o transmite aos filhos, à maneira de um novo artigo do seu credo religioso, e olha para o que se atreve a levantar a mão iconoclasta contra esses vagos objectos do seu culto ideal como para um ímpio, digno da fulminação celeste.
De historiadores e biógrafos se ri; não há provas nem documentos que valham para lhe fazer ver as coisas diferentes de como as imaginou ; mais vezes aqueles cedem até, sacrificando a exactidão à poesia, e admitindo em seus escritos a colaboração da pena popular. Por isso nas crónicas dos tempos passados é através das lendas que se pode procurar a história. Adornada com as galas e louçainhas do maravilhoso, é que o povo se apraz de acolher a tradição. Despida às mãos do historiador austero, parece afectar-lhe tão escandalosamente a vista, como a dos mais castos monges da Tebaida as formas nuas de tentadoras aparições.
Igualmente, ao lado da biografia exacta de um indivíduo, ainda dos mais obscuros, o povo refere de ordinário outra, menos documentada talvez, porém sempre mais curiosa.Com olhar perscrutador penetra o seio das famílias a descobrir aí factos recônditos, pequenos incidentes da vida doméstica, onde, mais facilmente do que nos da vida pública, se reflectem os caracteres e as índoles.
Não julgueis que lhe basta a enumeração das batalhas, dos feitos brilhantes, dos serviços humanitários, dos actos civis do herói do dia; quer vê-lo em família, depois de despir a farda, a toga ou os arminhos, para envergar o modesto robe de chambre; aspira a devassar-lhe no modo de viver intimo e a estudar-lhe os hábitos; obriga a personagem da história a representar diante de si o papel de filho, de irmão, de amante, de esposo e de pai no drama da vida, e é então que mais interesse lhe excita, é então que aplaude; e quando lhe falecem as informações, inventa, recorre ao inesgotável tesouro da imaginação senão a alguma coisa de mais seguro. E nisto é o povo verdadeiramente admirável ! Há o que quer que é sobrenatural na maneira por que se lhe revelam às vezes segredos, sabidos apenas por duas pessoas, interessadas ambas em conservá-los ignorados ; não espera por provas, satisfaz-se já com indícios ; pronuncia-se, quando os mais prudentes hesitam, e, devemos confessá-lo, se em certos casos esta antecipação o leva ao erro, muitas vezes também, ou quase sempre, por caminhos misteriosos, o conduz a verdade.
Os boatos! Aí temos um desses problemas que desafiam toda a ciência humana. De onde partiram estas, deixem-me assim chamar-lhes, emanações subtis que aspiramos todos, os crédulos e os espíritos fortes, os ignorantes e os ilustrados, como todos contraímos a epidemia, cujo foco se desconhece?
Suscita-se ãs vezes sobre qualquer indivíduo uma opinião que se diz pública, somente porque cada qual em particular se não atreve a reconhecê-la por sua; os factos conhecidos da vida desse homem parece desmentirem-na, todas as aparências lhe são contrárias, é humanamente impossível encontrar algures os fundamentos dessa crença, nascida não se sabe onde, propagada não se sabe como; e contudo persiste. Porquê? Quem o pode dizer? É, a meu ver, um facto da ordem de outros que observa o naturalista na história dos animais. É um fenomeno de instinto.
Na aproximação do Inverno, as aves viajoras reúnem-se em bandos para desertarem das paragens que parecia oferecerem-lhes ainda por algum tempo os últimos calores de uma estação favorável. Que indício lhes revelou o perigo ? Quem lhes apontou o caminho de mais amenas regiões ? O instinto, respondem os filósofos; e a mesma lesposta obtereis, se o interrogardes sobre tantos outros maravilhosos actos que nos surpreendem, nos costumes de certas famílias zoológicas.
Concedam, pois, também ao povo instintos, instintos que o fazem adivinhar factos ocultos, como a ave pressente o Inverno, instintos sobre os quais se elevam juízos, que a razão prudente repele ao princípio,
mas que tantas vezes o futuro vem confirmar mais tarde.
O povo tem uma fisiologia especial, que ainda está por escrever; concurso de individualidades tão heterogéneas, dá uma resultante, cuja noção não nos pode vir só do conhecimento isolado dos componentes.
Quem o fosse estudar por uma análise minuciosa, quem, por um quase processo anatómico o decompusesse em elementos, para um a um os examinar com escrupuloso cuidado, não o teria compreendido; não seria mais feliz do que se procurasse resolver o problema da vida dissecando um cadáver, e aplicando o microscópio a cada fibra de seus tecidos e órgãos. Onde os homens se reúnem em povo, uma influência oculta se lhes associa: uma como inteligência comum, daí os enigmas da multidão.
A solução destes enigmas não a procurem portanto nos indivíduos, que neles não reside; está na entidade colectiva; assim como o modo de reagir do sal neutro não se encontra no ácido, nem na base,
seus elementos únicos; é o resultado da combinação. Sirvam estas reflexões de prefácio ao caso modesto e obscuro que vamos narrar e que as exemplifica.
Por uma das tais vozes interiores, que entretém o povo dos mais recatados mistérios da vida de família, como se linguareiro duende lhos andasse segredando ao ouvido, era que em uma pequena cidade da
província do Minho, havia muito se tornara opinião geral que Cipriano Martins, octogenário que vivia miseravelmente na mais estreita e mal esclarecida rua do menos limpo e povoado bairro daquela já de si não
muito apetecível terra, não obstante tais aparências pouco inculcadoras, possuía fabulosas riquezas, e era devorado pela mais sórdida e inqualificável sovinice.
Nada podia modificar a opinião pública a este respeito; era absoluta, geral, intransigente, incapaz de vacilar, estável no seu posto, que defendia heroicamente contra o ataque combinado de todas as aparências ; sublime de pertinácia, admirável de resistência.
Nunca experimentara destas oscilações vulgares nas mais enraizadas crenças; nunca passara por as alternativas de desfavor que até as ideias mais generosas sofrem no correr das épocas, nunca; nem
quando os aguçados cotovelos do velho Cipriano rompiam escandalosamente através das mangas coçadas e beneméritas do seu casacão de saragoça; nem quando aos olhos dos comentadores se patenteavam as laceradas plantas... das botas colossais de que o nosso Harpagão usava, ou as numerosas cicatrizes — vestígios honrosos de longos anos de assinalados serviços — que lhe crivavam as calças, onde cada fábrica de tecidos tinha um espécime de seus produtos combinados todos em artístico mosaico.
Cada vez que o inofensivo tema dos longos e pouco misericordiosos comentários populares, entrava em uma loja a comprar os parcos materiais de sua diária alimentação e estendia a mão para receber os trocos miúdos, aos quais, como outro qualquer, tinha direitos incontestáveis e garantidos por lei, havia nos circunstantes certo resfolegar de mofa que, ao voltar costas o velho, degenerava em bem significativas e nada equívocas exclamações.
— Olhem o unhas de fome!
— Sume-te, porco!
— É capaz de se enforcar por um vintém !
— Se lhe caísse um pataco ao Inferno, atirava-se lá para apanhá-lo, o tinhoso.
— Sovina!
— A pobre irmã morre à míngua por causa da mesquinhez deste tesoureiro do Diabo.
— Come duas sardinhas barrentas, e cozinha só de três em três dias para não fazer despesa em lenha! Podem crê-lo ?
— Junta, junta, para outros to gastarem!
— O peso do teu cofre é que te há-de afogar na caldeira de Pêro Botelho!
E assim por diante iam as apóstrofes, cada qual mais lisonjeira para a reputação do modesto velho, cujos nervos felizmente se não supraexcitavam com tais estímulos. Tinha uns invejáveis nervos o Sr. Cipriano! a única das suas qualidades que lhe podiam invejar as leitoras. Não há vício menos popular do que o da avareza, pela razão de serem poucos os que com ele lucram.
Assim Cipriano Martins era uma personagem antipática para os seus compatriotas.
Mas quem lhe vira o dinheiro? quem lhe descobrira a riqueza? Neste momento cada qual, interrogado à parte, encolhia os ombros, prolongava os beiços, enrugava a fronte, e respondia:
— Diz-se.
Santa palavra! salvatério das asserções arrojadas! como a consciência fica tranquila quando, após uma afirmação, cuja responsabilidade não quer, a boca oficiosa te pronuncia! Descendente em linha recta daquele traditur dos historiadores romanos, tu és, como teu ilustre avô, o melhor e mais universal excipiente, em que se administram ao público fortes doses de boatos, que ele engole de mais boamente do que quantas pílulas tem arredondado de Hipócrates para cá os dedos dos boticários ou apregoado os Holloways de todos os tempos.
Cipriano Martins tinha uma vez por ano as suas liberalidades, circunstância que, longe de amenizar a rudeza dos juízos públicos a seu respeito, antes a exacerbava; pois de facto nunca mais alto subiam as murmurações como quando em sexta-feira santa saía das algibeiras do sóbrio velho para as dos pobres da freguesia a quantia realmente importante de... cem réis em moedas de cinco. Então é que era ouvir o povo.
— Arrancou hoje cem fibras do coração.
— Tem para chorar cem dias, o velho.
— E para jejuar outros tantos.
— Se isto assim continua, aparece-nos de alguma vez o homem enforcado em sábado de Aleluia.
— Melhor, escusa o povo de queimar outro Judas.
Quando se entra na via das concessões é necessário não dar passos acanhados; sob pena de aumentar ainda mais a indisposição dos ânimos.
Consideração esta de longo alcance político, não obstante as aparências modestas que a revestem aqui.
Cipriano Martins caiu doente, e não chamou médico. A câmara, que adoptava o pensamento público sobre o estado financeiro do seu patrício, recusava inscrevê-lo no quadro dos pobres, razão pela qual o não visitou o médico de partido.
A câmara andou assisada nisto e mostrou-se convencida da seguinte verdade, saída da boca de um grande vulto político: «Quando os governos não tomam espontaneamente a iniciativa no movimento das massas, são arrastados por ela.»
Ora a câmara, que era o governo e não pouco respeitável, não tinha grande vontade de ser arrastada; um dos vereadores, mais que todos, em cuja caixa de rapé estava representado em gravura o fim trágico de Mazeppa, sentia de si para si um estremeção de grande desconforto só de ouvir o termo. Por isso, a câmara adoptou a opinião das massas,
Esta subiu ao auge da indignação, vendo Cipriano desprezar a medicina.
— Olhem o miserável a regatear às portas da morte o preço da vida!
— O homem tem razão — respondeu o barbeiro, a quem por consenso unânime fora decretado o diploma de espirituoso da terra — o homem tem razão, que bem conhece quão pouco ela lhe vale.
Este dito do ilustrado superintendente das mais respeitáveis barbas da freguesia foi repetido em todos os círculos com geral aplauso; e a reputação de aguçado satírico, de que há muito gozava o digno colega de Figaro, aumentou, se de aumento era susceptível ainda.
Cipriano Martins morreu, e então é que a curiosidade pública se pôs alerta, e, para entreter o tempo de espera, prestou ouvidos às historietas da imaginação. Esta fez o seu dever, nada deixando a desejar.
Cipriano a cerrar os olhos, e o público mais do que nunca a tomá-lo à sua conta. Discutiu-se-lhe a herança, avaliou-se-lhe a fortuna, apontaram-se os herdeiros, inventaram-se testamentos, fantasiaram-se cláusulas absurdas, anteviram-se demandas, devassaram-se esconderijos, arrombaram-se cofres, desenterraram-se riquezas monstruosas; isto tudo durante vinte e quatro horas, no fim das quais nem riquezas, nem esconderijos, nem cofres, nem herança, nem testamento, nem cláusulas e, por conseguinte, nem herdeiros nem demandas vieram justificar a geral expectativa.
Foi um desapontamento, que, a falar verdade, custou a digerir; os melhores estômagos imparam com ele e mais de uma vez foi regurgitado. E toda aquela boa gente se punha então a ruminá-lo de seu vagar, sem que o fizesse mais digerível.
A irmã do morto, que de si para si nunca nutrira grandes esperanças, porque nunca tivera fé nas riquezas do mano, apresentou-se nesse mesmo dia, chorando, em casa do administrador a pedir-lhe que providenciasse para se fazer o enterro do velho Cipriano, pois, nas gavetas, só lhe encontrara uns cobres, que não bastavam para as despesas exigidas pela solenidade.
O administrador viera céptico de Coimbra, doença que apanhara nas margens do Mondego e que pelos modos se lhe tornara crónica no concelho, que, como diziam os jornais da época, tão dignamente administrava. Por isso olhou para a pobre Maquelina — pois era esse o nome dela — através dos vidros da luneta pendente, ao mesmo tempo que o mais incrédulo sorriso, que o espelho lhe aconselhara, vinha
encrespar-lhe espirituosamente o lábio superior. Ao desbaste de crenças, que este magistrado sofrera, tinha por felicidade sobrevivido entre poucas a crença no espelho, um dos principais conselheiros a quem devia a manutenção da dignidade administrativa.
— Com que então só uns cobritos, diz vossemecê, hem?
O bacharel fizera a descoberta de que este hem lhe dava às palavras certa melodia de bom gosto, e por isso o adoptara.
— Eis tudo quanto possuo — respondeu Maquelina, mostrando em patacos um cruzado, quando muito — V. S.ª bem vê — continuou — meu irmão tinha o seu pequeno negócio de socos, há muito em decadência; ele, coitado, estava velho e não queria oficiais... e agora com a moléstia... por mais economias que a gente fizesse, sempre eram despesas certas e nenhum dinheiro a apurar.
O administrador teve aqui um movimento de lábios, expressivo de inveterada descrença; e como para mais depressa se livrar do contacto de um ser humano, respondeu secamente:
— Faça, se quiser, um requerimento à câmara, porque seu irmão não figura no quadro dos pobres.
E mais não disse.

sábado, 24 de novembro de 2012

Tiro de Guerra No. 35


Antônio Alcântara Machado escreveu principalmente sobre os imigrantes. Foi ele quem nos deixou um relato entre biográfico e literário da realidade paulista em transformação entre as décadas de 1920 e 1930. Período que transformou a pacata cidade de entroncamentos ferroviários no princípio da atual metrópole. Durante a primeira metade do século XX a população decuplicou. E quem Alcântara Machado retrata por sua participação forte nesse crescimento são os imigrantes italianos. Os quais vieram para trabalhar como costureiras, como Carmela, que se encheram de patriotismo brasileiro como Aristodemo e que enriqueceram e se misturaram à alta sociedade como Adriano Meli. E muitos de nós podemos ver a realidade em pais, avós que conhecemos e antigos fatos da vida. Mas foi devido à sua morte precoce, em 1935 que a obra de Alcântara Machado é tão reduzida. No entanto seus contos-crônicas são parte da literatura e objeto de admiração.


Tiro de Guerra número 35 - Alcântara Machado



No Grupo Escolar da Barra Funda Aristodemo Guggiani aprendeu em três anos a roubar com perfeição no jogo de bolinhas (garantindo o tostão para o sorvete) e ficou sabendo na ponta da língua que o Brasil foi descoberto sem querer e é o país maior, mais belo e mais rico do mundo. O professor Seu Serafim todos os dias ao encerrar as aulas limpava os ouvidos com o canivete (brinde do Chalé da Boa Sorte) e dizia olhando o relógio:
- Antes de nos separarmos, meus jovens discentes, meditemos uns instantes no porvir da nossa idolatrada pátria.
Depois regia o hino nacional. Em seguida o da bandeira. O pessoal entoava os dois engolindo metade das estrofes. Aristodemo era a melhor voz da classe. Berrando puxava o coro. A campainha tocava. E o pessoal desembestava pela Rua Albuquerque Lins vaiando Seu Serafim.
Saiu do Grupo e foi para a oficina mecânica do cunhado. Fumando Bentevi e cantando a Caraboo. Mas sobretudo com muita malandrice. Entrou para o Juvenil Flor de Prata F. C. (fundado para matar o Juvenil Flor de Ouro F. C.). Reserva do primeiro quadro. Foi expulso por falta de pagamento. Esperou na esquina o tesoureiro. O tesoureiro não apareceu. Estreou as calças compridas no casamento da irmã mais moça (sem contar a Joaninha). Amou a Josefina.
Apanhou do primo da Josefina. Jurou vingança. Ajudou a empastelar o Fanfulla que falou mal do Brasil. Teve ambições. Por exemplo: artista do Circo Queirolo. Quase morreu afogado no Tietê.
E fez vinte anos no dia chuvoso em que a Tina (namorada do Lingüiça) casou com um chofer de praça na policia.
Então brigou com o cunhado. E passou a ser cobrador da Companhia Autoviação Gabrielle d'Annunzio. De farda amarela e polainas vermelhas.
Sua linha: Praça do Patriarca - Lapa. Arranjou logo uma pequena. No fim da Rua das Palmeiras.
Ela vinha à janela ver o Aristodemo passar. O Evaristo era quem avisava por camaradagem tocando o cláxon do ônibus verde. Aristodemo ficava olhando para trás até o Largo das Perdizes.
E não queria mesmo outra vida.
Um dia porém na seção "Colaboração das Leitoras" publicou A Cigarra as seguintes linhas de Mlle Miosótis sob o título de Indiscrições da Rua das Palmeiras:
"Por que será que o jovem A. G. não é mais visto todos os dias entre vinte e vinte e uma horas da noite no portão da casa da linda Senhorinha F. R. em doce colóquio de amor.? A formosa Julieta anda inconsolável! Não seja assim tão mauzinho, Seu A. G.! Olhe que a ingratidão mata..."
Fosse Mlle Miosótis (no mundo Benedita Guimarães, aluna mulata da Escola Complementar Caetano de Campos) indagar do paradeiro de Aristodemo entre os jovens defensores da pátria. E saberia então que Aristodemo Guggiani para se livrar do sorteio ostentava agora a farda nobilitante de soldado do Tiro-de-Guerra n.035.
- Companhia! Per... filar!
No Largo Municipal o pessoal evoluía entre as cadeiras do bar e as costas protofônicas de Carlos Gomes para divertimento dos desocupados parados aos montinhos aqui, ali, à direita, à esquerda, lá, atrapalhando.
- Meia volta! Vol... ver!
O sargento cearense clarinava as ordens de comando. Puxando pela rapaziada.
- Não está bom não! Vamos repetir isso sem avexame!
De novo não prestou.
- Firme!
Pareciam estacas.
- Meia volta!
Tremeram.
- Vol... ver!
Volveram.
- Abém!
Aristodemo era o base da segunda esquadra.
Sargento Aristóteles Camarão de Medeiros, natural de São Pedro do Cariri, quando falava em honra da farda, deveres do soldado e grandeza da pátria arrebatava qualquer um. Aristodemo só de ouvi-lo ficou brasileiro jacobino. Aristóteles escolheu-o para seu ajudante-de-ordens. Uma espécie de.
- Você conhece o hino nacional, criatura?
- Puxa, se conheço, Seu Sargento!
- Então você não esquece, não? Traz amanhã umas cópias dele para o pessoal ensaiar para o Sete de Setembro? Abom.
Aristodemo deu folga no serviço. Também levou um colosso de cópias. E o primeiro ensaio foi logo à noite.
Ou-viram do I-piranga as margens plá-cidas...
- Parem que assim não presta não! Falta patriotismo. Vocês nem parecem brasileiros. Vamos!
Ou-viram do I-piranga as margens plácidas
Da Inde-pendência o brado re-tumbante!
- Não é assim não. Retumbante tem que estalar, criaturas, tem que retumbar! É palavra. Como é que se diz mesmo?... é palavra... ah!... onomatopaica: RETUMBANTE!
E o hino rolou ribombando:
... a Inde-pendência o brado re-TUMBAN-te!
E o sol da li-berdade em raios ful...
De repente um barulho na segunda esquadra.
- Que isbregue é esse aí, criaturas?
Isbregue danado. O alemãozinho levou um tabefe de estilo. Onde entrou todo o muque de que pôde dispor na hora o Aristodemo.
- Está suspenso o ensaio. Podem debandar.
- Eu dei mesmo na cara dele, Seu Sargento. Por Deus do céu! Um bruto tapa mesmo. O desgraçado estava escachando com o hino do Brasil!
- Que é que você está me dizendo, Aristodemo?
- Escachando, Seu Sargento. Pode perguntar para qualquer um da esquadra. Em vez de cantar ele dava risada da gente. Eu fui me deixando ficar com raiva e disse pra ele que ele tinha obrigação de cantar junto com a gente também. Ele foi e respondeu que não cantava porque não era brasileiro. Eu fui e disse que se ele não era brasileiro é porque então era... um... eu chamei ele de... eu ofendi a mãe dele, Seu Sargento! Ofendi mesmo. Por Deus do céu. Então ele disse que a mãe dele não era brasileira para ele ser... o que eu disse. Então eu fui. Seu Sargento, achei que era demais e estraguei com a cara do desgraçado! Ali na hora.
- Vou ouvir as testemunhas do fato, Aristodemo. Depois procederei como for de justiça. Fiat justitia como diziam os antigos romanos. Confie nela, Aristodemo.
"Ordem do Dia
De conformidade com o ordenado pelo Ex.mo Sr. Dr. Presidente deste Tiro-de-Guerra e depois de ouvir seis testemunhas oculares e auditivas acerca do deplorável fato ontem acontecido nesta sede do qual resultou levar uma lapada na face direita o inscrito Guilherme Schwertz, n.081, comunico que fica o citado inscrito Guilherme Schwertz, n.081, desligado das fileiras do Exército, digo, deste Tiro-de-Guerra visto ter-se mostrado indigno de ostentar a farda gloriosa de soldado nacional Delas injúrias infamérrimas que ousou levantar contra a honra imaculada da mulher brasileira e principalmente da Mãe, acrescendo que cometeu semelhante ato delituoso contra a honra nacional no momento sagrado em que se cantava nesta sede o nosso imortal hino nacional. Comunico também que por necessidade de disciplina, que é o alicerce em que se firma toda corporação militar, o inscrito Aristodemo Guggiani, n.0117, único responsável pela lapada acima referida acompanhada de equimoses graves, fica suspenso por um dia a partirdesta data. Dura lex sed lex. Aproveito porém no entretanto a feliz oportunidade para apontar como exemplo o supracitado inscrito Aristodemo Guggiani, n.0117, que deve ser seguido sob o ponto de vista do patriotismo, embora com menos violência apesar da limpeza, digo, da limpidez das intenções. Aproveito ainda a oportunidade para declarar que fica expressamente proibido no pátio desta sede o jogo de futebol. Aqui só devemos cuidar da defesa da Pátria!
São Paulo, 23 de agosto de 1926.
(a) Sargento-Inspetor Aristóteles Camarão de Medeiros."
Aristodemo Guggiani logo depois apresentou sua demissão do cargo de cobrador da Companhia Autoviação Gabrielle d'Anunuzio. Sob aplausos e a conselho do Sargento Aristóteles Camarão de Medeiros. Trabalha agora na Sociedade de Transportes Rui Barbosa, Ltda.
Na mesma linha: Praça do Patriarca - Lapa.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Minha Gente - Parte IV


Trechos da Carta do Autor ao amigo João Condé que o pediu que falasse um pouco sobre a confecção de Sagarana:


"Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a-China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores es talarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.
Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir.
Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, revendo paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã.
O livro foi escrito — quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas — em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).
Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos (titulo provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após. "

E quando descreve cada uma das histórias:



"VII)  MINHA GENTE —   Por causa de urna gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais."


Minha Gente - Guimarães Rosa - Parte IV


Ontem, esteve aqui na fazenda um rapaz da vila. Bem vestido, simpático. Mas, logo que eu soube que ele viera quase somente para ver Maria Irma, tive-lhe ódio. E tive também o impulso de observar ao meu tio que os costumes da nossa terra estão progredindo demasiado depressa, e que quadravam melhor à suas austeridades de antanho.
O rapaz trouxe livros para minha prima. Penso mesmo ele os traz freqüentemente, porque ouvi Maria Irma falar-lhe em restituir outros. Livros em francês... Nunca pensei que minha prima os lesse. Também, ela hoje está toda diferente, mais bonita; por ocasião da minha chegada não se enfeitou assim! Entre Maria Irma e esse moço há qualquer coisa. Exaspero-me Detesto-os!
Ainda bem que um camarada veio dizer que estava passando ao largo, uma grande boiada, vinda do poente. Pedi um cavalo e fui para a estrada, e mui me serviu galopar ao sol, metade do dia, porque coisa mais bonita do que uma boiada não existe, não ser o pio do patativo-borrageiro, que é a tristeza punctiforme,  ou a Lapa do Maquiné, onde a beleza reside.
Cheguei de volta em casa á noitinha. O outro, graças a Deus, já se fora. Maria Irma foi muito boazinha para mim. Incomodou-se por eu não querer jantar. Ofereceu-me compota de toranjas, e isso me pareceu peitamento. Com um esforço heróico, recusei: o doce tinha sido feito para o meu rival.
Maria Irma estranha os meus modos. Pergunta se estou doente. Então, bruscamente, a interpelo:
— Por que você nunca me disse que gostava de ler, Maria Irma?!
— Pois você nunca me perguntou...
— Esse rapaz é que é o seu noivo?
— Não, não é este... E, também, noiva eu não sou, você bem sabe!
— Não fique zangada comigo, prima...
— Não estou... Mas você não deve me olhar assim... Parece que quer me fotografar...
Recuo. O que eu queria era só apertá-la nos meus braços.
— Mas, quem é então aquele rapaz, Maria Irma?
— O Ramiro? É o noivo de Armanda, amiga minha...
— E quem é Armanda, Maria Irma? É bonita? Filha de fazendeiro? Mora aqui por perto?
— É muito bonita, foi educada com parentes no Rio, já esteve na Europa, é filha de fazendeira porque o pai já morreu mora no Cedro.., e você é que nem um padre, para especular!
— E que vem fazer aqui o noivo, se tem uma noiva assim?
— Vem visitar-nos, quando tem de passar por aqui... Há algum mal na nossa amizade?
— E a outra sabe? Consente?
— Ela quer o que quer, e tem confiança em Ramiro, e em mim, que sou sua amiga...
— Não sou bem dessa teoria... Quando é o casamento?
— Armanda ainda não quis marcar a data...
— Ela domina o teu amigo, pelo que vejo...
— Não diga isso, primo, é absurdo!
— Maria Irma, sabe de uma coisa? Você gosta do Ramiro e o Ramiro gosta é de você. Apenas...
— Há outra coisa também, que você não sabe..
— Que é, prima?
— E que você é um imbecil, primo!

***

Chegou hoje cedo a máquina-de-escrever, encomenda de Tio Emílio, que a desencaixotou, pressuroso, promovendo-nos a seus secretários — Maria Irma e eu. É verdade que, a mim, de começo, ele nada pediu. Creio até que haja sorrido com malícia, ao ver a boa-vontade com que me ofereci para ajudar.
Mas, assim, pude passar o dia inteiro ao lado da minha prima. E juntos confeccionamos quase duas dezenas de cartas, na grande maioria destinadas a insignes analfabetos. No correr das horas, rascunhando “Prezado amigo e distinto correligionário” e “amo. obro.ato. ador.”, bem que eu projetei mais de uma investida, mas a coragem me faltou. Maria Irma agora não me fixava: espiava só para baixo, para o outro lado ou para a frente, se bem que eu às vezes lhe surpreendesse ligeiros olhares de viés.
À tarde, por fim, pus-me em brios, e me declarei, com veemência e transtorno. Maria Irma escutou-me, séria. A boquinha era quase linear; olhos tinham fundo, fogo, luz e mistério; e tonteava-me ainda mais o negrume encapelado dos cabelos. Quando eu ia repetir o meu amor pela terceira vez, ela, com voz tênue como cascata: orvalho, de folha em flor e flor em folha, respondeu-me:
— Em todos os outros que me disseram isso, eu acreditei... só em você é que eu não posso, não consigo acreditar...
Protestei, perdendo o resto do aprumo, com larga gesticulação e atropelo de argumentos.
Maria Irma sorriu:
— Gosto de ouvir você assim... Fica perfeitamente infantil... Eu fora às cordas. Mas ainda reagi:
— Quem sabe você me toma por um bicho-papão, Mariairmazinha?
E ela, empertigando a cabecinha, quase num desafio:
— Isso mesmo! Você disse bem.
Mas, nisso, o juiz entrou no ring, isto é, surgiu meu tio, entusiamadíssimo:
— Vamos escrever à Don’Ana do Janjão, da Panela-Cheia! Carta grande, palavreado escolhido. E outra para o bobo do marido... Mas não bota nada de que ele é bobo, aí, não, hein!?...
—  Carta simples, Tio Emilio? Só para cumprimentar?
— Não. É avisando que eu troquei duas imagens para a capelinha do Retiro. Santa Ana e São João... E, como foi em honra deles dois, que são meus amigos, faço questão de que eles sejam os padrinhos!... Põe, na carta, que eu considero muita honra. Vou fazer festa: música, missa cantada, o diabo!
Maria Irma, sem pestanejar, me explica: Don’Ana do Janjão e Janjão da Don’Ana são respectivamente esposo e esposa, e, pois, coproprietários da fazenda da Panela-Cheia. Janjão da Don’Ana é um paspalhão, e não conta. Mas Don’Ana do Janjão é uma mulherhomem, que manda e desmanda, amansa cavalos, fuma cachimbo, anda armada de garrucha, e chefia eleitorado bem copioso, no município n° 3.
— Mas, meu tio, essa graciosa homenagem vai render-lhe pouco serviço... Os eleitores de Don’Ana do Janjão sendo de outro município...
Ora, que idéia, meu sobrinho! Então você pensa que é só por interesse que a gente agrada as pessoas de quem a gente gosta?... E mesmo que fosse... Mesmo que fosse, tem muita gente, da banda de cá das divisas, que morre para obedecer à minha comadre Don’Ana...
— Comadre?
— Uê! Pois não vai ser?... Ela mais o marido, que é muito boa Pessoa, não vão batizar as imagens que eu mandei vir para a capelinha? Pode escrever, pode pôr na carta: “Minha ilustríssima e prezada comadre...” e na outra: “querido e estimado compadre Coronel Janjão”. Ele não é coronel nenhum, mas não faz mal... Muito distinta, a comadre Don’Ana... E capaz de querei fazer com a gente um trato por fora: ela manda o pessoal dela por aqui votar comigo, e eu faço o mesmo com o povinho tenho por lá, no Piau...
— Falo nisso, na carta, tio?
— Nada. Por enquanto, nada... Mas, capricha, mesmo Pergunta como é que vai o Juquinha... Juquinha é o ai-jesus de la, é um menino que a minha comadre Don’Ana está criando.

***

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irmã. Antes não o tivesse feito: quanto mais eu pelejava para assentar o idílio, mais minha prima se mostrava incomovível, impassível, sentimentalmente distante. Não importa, no começo é assim mesmo — pensei. Devo mostrar-me caído, enamorado.
Ceder terreno, para depois recuperá-lo. É boa tática... Um “gambito do peão da Dama”, como Santana diria... Por onde andará Santana?
— Você não teve saudades de mim, Maria Irma?
— Que pergunta! Nós estamos na mesma casa, estivemos separados só nas horas de sono...
— Pois, para mim, já é demais, Maria Irma... Preciso da tua presença...
— Me diz outra coisa: você é ambicioso?
— Eu?
— Pois não é? Não é ambicioso?
— Não sei. Uma coisa, sim, eu ambiciono...
— Um automóvel?
— Maria Irma!
— Que cor de automóvel você prefere? Talvez o papai compre um...
Não ouvi o resto. Tudo saiu pior do que o pior que  eu esperava! Maria Irma despreza a minha submissão. Tenho de jogar um “gambito do peão da Dama, recusado...”

***

No pastinho. Debaixo de um itapicuru, eu fumava, pensava, e apreciava a tropilha de cavalos, que retouçavam no gramado vasto. A cerca impedia que eles me vissem. E alguns estavam muito perto. No meio da rasa relva verde-água, uma poldra: deitada sobre a sua sombra. Arranjou um jeito de ajuntar bem as patas, e os olhos e a cabeça são tristes e velhos, na elástica infantilidade do corpo. Mas, há uma longa sugestão de maciez, nos pêlos felpos do pescoço.
O regato, acolá, azul claro, entre as margens de esmeralda, até parece abaulado. Para ele trota uma égua brilhantina — lisa e quente — que ao mover-se pega a desdobrar toalhas de carne, só músculos. Mas o poldrinho recém-nascido, ainda tão pernalta, vem pulando, atrás, aflito para mamar. Ao sumir o focinho sob o ventre e as coxas da mãe, todo o seu corpo é um alongar-se, de gula. A égua espera. Nunca ninguém soube dar com dignidade maior.
Aí, com o embornal e o cabresto, chegou o toquinho de gente preta de oito anos, que é o Moleque Nicanor.
— Que é que você veio fazer?
— Vim pegar o Vira-Saia, sim senhor, que patrão seu Emílio mandou...
— E você sabe?
— Pego, até sem precisar de milho nem cabresto! O senhor quer ver?
— Se fizer, ganha dois mil-réis. Moleque Nicanor arregalou os olhos, e eu pensei que ia vir as pancadas do seu coração.
Deixou comigo a capanga e o sedenho; foi acolá, cortou um cipó, e ajuntou pedrinhas no chapéu de palha.
— É prata mesmo que o senhor falou, ou é duzentorréis?
— Prata. Olha aqui...
A cem metros de nós, os cavalos pastavam calmamente.
— Uh, Coringa! Ei! Ei!...
Fazendo declarações de amor, com vozinha blandiciosa,  Moleque Nicanor vai andando devagarinho, em ziguezagues, diretamente para os animais, mas para um ponto imaginário, vinte metros á esquerda do bando. Agora assovia e sacode o chapéu com as pedras. Coringa relincha. Vira-Saia levanta a cabeça. Moleque Nicanor pára. Espera um pouco. Continua.
Os cavalos se afastam, mais metros para oeste. Moleque Nicanor alcançou o ponto visado, mas a distância inicial de pouco diminuiu.
Moleque Nicanor recomeça a manobra. Aí, de repente, nitrindo, os animais desembestam a correr pela campina, de nas abertas, em galope circular. Moleque Nicanor não se precipita. Parece ter previsto e alarma. Deita-se no capim, e, bem no centro da circunferência, espera que os eqüinos se cansem e desistam de correr. Então, ele recomeça. Assoviando, andando, parando, falando, agitando as pedrinhas no chapéu. Ao fim de um quarto de hora, não bem o que ele fez, além de ter feito o pelo-sinal; mas atropilha se fracionou. Os outros foram para longe, em dois grupos, para a borda da mata. Vira-Saia ficou sozinho.
O negrinho se endereça a ele, mas agora com requintes de suaviloqüência. Já estão a menos de vinte passos um do outro. E decerto que Vira-Saia está pensando que as pedrinhas do chapéu são mesmo milho debulhado, porque ele não sabe se quer correr ou se prefere esperar.
— Eh, meu irmãozinho! Eta beleza de cavalinho, só p’ra moça bonita montar!... Híu! Híu!... Vem cá, meu irmãozinho, chega p’r’aqui... Híu! Híu!...
A voz do Moleque Nicanor é uma comprida carícia. As pedrinhas chocalham. O cipó está bem escondido, debaixo do braço. Parou.
— Meu irmãozinho cavalinho... Híu! Híu!... Irmãozinho...
A distância agora é mínima. Vira-Saia avançou, um quase nada. Moleque Nicanor já estava imóvel. Vira-Saia vem mais pa ra perto... Mais... Pronto! Com viva rapidez e simulada displicência, Moleque Nicanor jogou o cipó no pescoço do animal. Vira-Saia estremeceu, mas queda quieto, porque pensa que já está mesmo prisioneiro. E, dócil, aceita que Moleque Nicanor lhe bata a mão num punhado de crina, e lhe passe o cipó na boca, abotoando-o em barbicacho e deitando uma volta furtada ao redor do focinho. Pula no
lombo nu do cavalo, dando-lhe com os calcanhares nas costelas. E grita:
— Ei! Anda, égua magra! Piguancha!... Irmãozinho que nada! Já se viu cavalo nenhum serirmão de gente?!...
Tenho de pagar os dois mil-réis. E mesmo mais outros dois, porque Moleque Nicanor arranjou a estória de um chicote que ele teria perdido no meio do capim, e de um dinheiro que prometeu às almas do Purgatório, a troco de que elas lhe ensinassem onde era que o chicote estava.
— E você é capaz de fazer isso com qualquer cavalo?
— Dos daqui, qualquer um, afora o Caraúna, por causa ele é inteiro e vira fera, à toa, à toa: investe e amoita a gente a dente... Mas, se o senhor quiser mim dar outros dois mil-réis eu vou ver se caço jeito de campear ele p’ra o senhor ver.. Recuso a proposta. E Moleque Nicanor, sempre montado em pêlo, me toma a bênção e toca, a meio galope, sem nem ao menos fazer questão de substituir o cipó pelo cabresto.
E, nisto, fiquei sabendo, de repente, que tinha elaborado um plano. Tenho necessidade urgente de valorizar-me. Ah, Maria Irma!
Seo Juca Soares, da fazenda das Tranqueiras, a duas léguas daqui, sempre gostou de mim.
“Periquito” fanático, portanto inimigo político de Tio Emilio. Mas tem a Alda, que está muito bonita, dizem, e que, em outros tempos, tal qual Maria Irma foi minha namorada de brinquedo. Pois vou passear lá. Hoje mesmo. Vou passar o dia. Será que meu tio pode ficar zangado?
Nada, não se zangou; ao contrário:
— Eu acho até que não há mal nenhum em você ir.. . Vai, vai! Você vai já? Então, vamos juntos até no atalho da ponte, porque eu tenho de ir ver o Salvino, que vai ser do júri do Xandrão Cabaça...
Não esperava que fosse essa a reação do meu tio. Ficou quase entusiasmado com o meu projeto.
Simulando excesso de interesse pelo passeio, vim ver Maria Irma, que ficou imperturbável.
Pergunto:
— E verdade que a Aldinha do Juca está uma moça encantadora?
— É. Está muito engraçadinha... Sempre foi...
Silêncio. Sorriso ingênuo de Maria Irma. Assôo o nariz.
— Então, para você, tanto faz que eu me interesse ou por outra... Não é?
— Ninguém manda em coração...
— Me diz uma coisa, Maria Irma, você gosta um pouquinho de mim?
— Por que não? Gosto de todos os meus parentes... E você nunca me fez mal nenhum...
— Maria Irma!
— Olha, os cavalos já estão arreados... Lá vem papai. E você não deve se atrasar... Vai gostar da Alda... Só que você gostaria mais de Armanda...
— A noiva do teu Ramiro?
— Você é ridículo.
— Ele gosta de você. Você pensa que eu sou tolo?
— Eu, e só eu, sei quem gosta ou não de mim! — Também pode ser que ele goste de vocês duas... Como é ela? É alta?
— Não. Da minha altura. Mais cheia de corpo... É bonita...
— Monta a cavalo?
— E guia automóvel, muito bem... E saída...
— Perdão, Maria Irma?
— É muito desembaraçada... Independente... Moderna...
— Deixemos esta conversa tola, Maria Irma...
— Deixemos. Até logo. Bom passeio!
Mordi os beiços e não gemi. Santana teria apenas classificado: partida empatada, por xeque perpétuo...
Vou passar o dia em casa do Juca Soares. E, conforme seja, amanhã lá volto, e mais todos os dias, e ainda mais dias, se preciso for! E onde é que anda esse Moleque Nicanor, mestre em tretas, para ganhar, à toa, à toa, mais dois mil-réis?!
Cavalgamos lado a lado, e Tio Emilio insiste no tema: que as coisas vão mal. Não tem confiança nos eleitores do São Tomé, nem nos do Marimbo... No Calambau tudo ainda está pior...
Mostra-se tão desfavorecido, que só falta garantir a derrota seu partido “João-de-Barro”...
Diz isso e repete, cinco, seis vezes, enquanto eu vou remoendo comigo os meus insignes pesares de amor. Passada a ponte, separamo-nos. Juca Soares recebeu-me muito bem. A Alda é bonita.  Mas, tem olhos verdes... É clara demais, meio loura... Não se parece nada com Maria Irma... Não é Maria Irma!
Juca Soares também só fala da política: que tudo está rendo muito bem para os “Periquitos”. A vitória é certa...
O Governo dará apoio forte, vai mandar mais praças  para o destacamento... E eu fico convencido da verdade de tudo isso.
Pouco demorei, conquanto muitos fossem os agrados. E casa, Tio Emílio já me esperava, ansioso, via-se. Contei-lhe conversa com o adversário. Pergunta:
— Que foi que você disse a ele?
— Não me lembro... Ah, sim: acho que disse que o senhor estava um pouco desanimado,que talvez aceitasse um acordo. ; Fiz mal?
Tio Emilio avança, de exultante:
— Fez muito bem, isto mesmo é que sapo queria! Eles a vão pensar que é verdade, e vão amolecer um pouco... Estou desanimado, qual nada!... Mas você costurou certo. E agora que tudo está mesmo bom, pois se o Juca Futrica contou prosa é porque as coisas para ele estão ruins... Você me rendeu servição, meu sobrinho.
Oh, céus! Até a minha inocente ida ao Juca Soares foi explorada em favor das manobras políticas do meu tio... Corro Maria Irma, que, frente ao espelho grande, acertava o comprimento de um vestido grená, estendendo-lhe as mangas em asas de ave e prendendo a gola com o mento. Sorriu, estendeu-me a mão, dobrou com cuidado o vestido.
— Que tal, a Aldinha? perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
— Um pouco tolos... Um pouco primos.
— Falo a sério, Maria Irma!
—  Por que não avisou?
— Por favor, um armistício... Quero parlamentar...
—  Guarda a bandeirinha branca. Vou servir café a você...
— Só depois.
— Então, senta e fuma...
— Escuta, Maria Irma: eu gosto de você... Eu te amo!
—Você pensa que gosta...
— Acredita que seja verdade. Por um momento, só...
— Fiz de conta. E depois?
— Então...
— Solta a minha mão!... Você já devia de me conhecer bem, para saber que eu não gosto disso.
—  Uma palavra, apenas, Maria Irma... Posso esperar?
— Não.
— Diga, Maria Irma, por favor!
— Não.
— Pelo menos, fica sabendo que eu adoro você, que...
—  Não sei...
— Então, devo ir-me embora?
— Sim... Vai...
— Vou, Maria Irma!
— Espera... Para onde você vai?
— Primeiro para as Três Barras, amanhã mesmo. De lá, á Vila, e ás Tabocas, onde tomarei o trem...
— Espera... Não vá ainda... Fica mais uns dias...
— Por quê, Maria Irma? Para quê?
—  É que... É que eu convidei Armanda para vir passar dias aqui, depois da eleição...
—Você é má, Maria Irma. — Não sou. Fica... Você vai gostar...
—  Que astúcia você tem na cabecinha, prima?
— Bem, é melhor que você vá. Você era capaz de pensar que é por minha causa que eu estou pedindo...
— Adeus, Maria Irma... Irma Maria...
—Tenho um retrato de Armanda... Você quer ver?
— Mostra ao Ramiro!
—Teimoso!
-—Adeus, Maria Irma!
— Adeus, trapalhão!

***

E agora? Agora, vou-me embora para as Três Barras, onde mora o meu tio Ludovico, que não tem filha bonita nenhuma e não cuida de política. Vou, amanhã mesmo!

***

A Tio Emilio, aí que as eleições estavam beirando por pouco, custou concordar com a minha partida; falou em ingratidão e amuou. Maria Irma foi clássica: não disse pau e nem pedra. E eu, confesso, quase chorei, no caminho. Mas estava em cima de um burro pardo, e, desse modo, chorar seria falta de pudor.
Nas Três Barras, o mundo era outro: muitos vaqueiros cantores; muitas violas; muitos passeios; muito sofri por causa de Maria Irma...
Pensava: será que agora, com a minha ausência, Maria Irma não estaria começando a gostar de mim? E penava com isso, que o amor, ao contrário de acontecer como a água em dois vasos estanques, deva gangorrar como pesos em conchas de balança. E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação. Da varanda, eu espiava um pedaço, dado ao luar, de ar claro; as árvores ficavam tão quietas, que aquele campo parecia correr, como um vau de riacho raso, de transparência movente. As vacas, àquela hora, mugiam imenso, apartadas dos bezerros. Os dias me cansavam muito, mas eu não conseguia dormir. Pelas frinchas da janela, entrava o mato em insônia, com vozes que eu não entendia. E, às vezes, tarde da noite, ouvia, do curral, bruscos estrépitos — bufos, pisoteios, e um trafegar a esmo —
excursões do gado sonambúlico.
E eu pensava, sempre em Maria Irma.
Mas o único acontecimento mesmo acabrunhante foi produzido por um papagaio, geral e caduco, já revertido ao silêncio, que cochilava em seu poleiro, mas que, um dia, lembrando-se de outrora, entortou a cabeça, me olhou com um olho, e, esganiçado, cantou:
“Cadê Mariquinha?
Foi passiá... Entrou no balão
Virou fogo do á!...”
— Gagá idiota! Deixa de cantar bobagens!
— Fogo... Fogo!... Prrrr... Fogo!... Fogo do á!...
Mas, aí, a negrinha Carmelinda chegou e explicou:
— É por causa que essa-uma é a cantiga que a gente  e p’ra todos os papagaios... E é a derradeira que eles esquecem, quando já estão velhinhos...
Ri e deixei o purrutaco dormir. Melhorei.
E aí foi que tive notícia de que as eleições tinham corrido,  com estrondoso triunfo do partido “João-de-Barro”. E assim chegou também o dia em que apareceu nas Três Barras um camarada do Tio Emílio, trazendo duas cartas para mim.
Abri o primeiro envelope, com excessiva pressa: continha um recado, à máquina, do meu tio, celebrando a vitória e insistindo para que eu  voltasse. Aquela folha de papel tinha passado, pelas mãos, pelos dedos morenos de Maria Irma!
Mas, havia também o outro envelope, e eu abri, com  preguiça, o outro envelope. Céus!
Santana, outra vez! ... Somente isto:
“Caríssimo, — analisando a posição em que interrompemos aquela Zuckertort-Réti,  na viagem a cavalo, verifiquei que o jogo não estava perdido para mim. Ao contrário! Junto o diagrama, porque não confio muito na sua memória, desculpe. Mas, veja o avanço do cavalo preto a 5C, e, em seguida, B3D, e o outro bispo batendo a grande diagonal, e...veja, oh, ajuizado moço Telêmaco, na quarta jogada, o tremendo ataque frontal dos peões negros, contra o roque branco. Indefendível! Xeque-mate!
Continuemos, por correspondência. Escreva para Pará -de-Minas.
Seu,
SANTANA.”
Pulei do banco, e gritei de alegria. Os novilhos, que enchiam o curral esperando a marcação, pareceram-me um exército, aguardando ordens minhas para arremeterem em fileiras. O dia ficou, de repente, o mais bonito e bendito. Gritei mesmo:
— Saltem um cálice da branquinha potabilíssima de Januária que está com um naco de umburana macerando no fundo da garrafa!... E cavalo arreado, já, já, para eu voltar para o Saco-do-Sumidouro... Desistir, nem de ser idiota não convém! Viva Santana, com os seus peões! Viva o xeque-do-pastor! Viva qual quer coisa!... Volto! Vou lá.
E não adiantou a insistência do tio Ludovico:
—Amanhã cedo você vai... Espera ao menos a ferra dos garrotes, que é coisa bonita, de que você vai gostar...
E nem os sábios conselhos do Viriato, vaqueiro campeão da “derruba do boi pela seda” e mateiro meu confidente em assuntos de amor:
— O senhor não deve de ir, porque torna a ficar gostando... Isso de querer-bem da gente é que nem avenca-peluda, que murcha e, depois de tempo, tendo água outra vez, fica verde... E que nem galho grosso de timbaúba, que está seco, e, a gente fincando p’ra fazer cerca, brota logo e põe raiz!...
— Nada disso, Viriato! Eu tenho opinião. Não cedo!... Mas quero que ela saiba que eu não gosto dela mais... expliquei, já afivelando as esporas.
E Viriato, curvando-se para me ajudar, abanou a cabeça e de clamou:
— Flor de angico-verdadeiro dura seis meses no pé...
Mas não era curta a viagem das Três Barras ao Saco-do-Sumidouro,  tanto que houve tempo para pensar e sentir. Amplos Campos navegantes; depois, o mato montano, onde pia o zabelê. Por aí, tive cansaço e vergonha de tudo o que antes eu ra e fizera, e foram notáveis os meus pensamentos. O pio do zabelê é escandido e gemido. A estrada do amor, a gente já está mesmo nela, desde que não pergunte por direção nem destino.
E a casa do amor — em cuja porta não se chama e não se espera —  fica um pouco mais adiante.
— Éco! Éco! - gritavam os tucanos verdes.
— Óco! Óco! — ralhavam os tucano-açus.

***

Cheguei numa tarde assaz bonita e quente, porque era fim de janeiro com veranico. Meu tio estava na varanda, deitado na rede, com um  monte de cartas e telegramas ao alcance da mão. Achei-o um pouco abatido. Mais magro.No alto da parede, os marimbondos tinham crescido novos cortiços oblongos. E as rosas amarelas forjam.
Tio Emilio me reteve abraçado, falando-me ao ouvido, com voz grossa e ronronante:
— Então, hein! Que arraso! Agora não há mais periquito para tomar casa que joão-de-barro fez!...
E, desprendendo-me, por fim:
— Olha o que o Presidente do Estado me mandou: que telegrama! Não pode haver mais periquito. É ali! Tretou, relou, tijolo nas costas!...
Mas, justamente agora, que se afastara um pouco, era que Tio Emílio abaixava a voz:
— O pior foi que eu tive um prejuízo grande... Gastei para mais de uns oitenta contos... Um estrago!... Estou pensando em fazer um acordo na política, em desde que eu fique sendo o chefe...
 E, numa onda brusca de carinho,Tio Emilio abraçou-me outra vez.
— Onde está Maria Irma? — perguntei. Estava no jardim, e tinha mesmo de estar no jardim. Mas não estava só.
Ruborizou-Se. Ofegou. E apresentou-me à outra.
— Meu primo... Armanda...
Armanda tinha uma expressão severa, e foi muito inóspito o seu olhar. Quase uma zanga.
— Com cada um de vocês já falei muito do outro... —acrescentou Maria Irma.
Hesitei. Armanda recuara um passo, e fingiu olhar o jasmineiro. Murmurei:
—  Então, Maria Irma, surpreendi você com a minha volta...
— Fico alegre...
— De verdade?
—  Não começa outra vez. Você não compreende...
Alguém riu. Era Armanda, a de maravilhosa boca e olhos esplêndidos.
—  Vou ver, papai chamou... Me esperem... explicou Maria Irma, abrindo vôo.
—  Prefiro caminhar. Quer? perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.
— Você está querendo tomar-me o pêlo?!
— Que é isso, Armanda?
— Nada. Vamos!
Urna lavadeira cantava, lá na beira do rego:
“De madrugada,
quando a lua se escondia...
o sol raiava
 na janela de Maria...”
Vinha um odor duro, das flores carminadas. Os aloendros. em fila, nos separavam do mundo. Pensamentos me agitavam; Queria...
—Você gosta de Maria Irma?
— Não...
— De quem?
— De você... Sempre gostei. Sempre! Antes de saber você existia...
— É engraçado...
—  É verdade. Não... Não é isso...
Armanda jogou fora o botão de bogari, e entrecruzou os dedos. E disse:
— É com você que eu vou casar.
—  Comigo!?...
— Então, por que você não me beija? Porque aqui na roça não é uso?

***

E foi assim que fiquei noivo de Armanda, com quem me casei, no mês de maio, ainda antes do matrimônio da minha prima, Maria Irma com o moço Ramiro Gouveia, dos Gouveias da fazenda da Brejaúba, no Todo-Fim-É-Bom.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Minha Gente - Parte III

Entre 1938 e 1951, Guimarães Rosa trabalha como diplomata, principalmente na Alemanha, onde ajudou os  judeus durante a guerra, Colômbia e Paris.
Em 1962, após anos de não publicações, onde seu prestígio como escritor crescia e a publicação de Grandes Sertões: Veredas, consegue entrar na Academia Brasileira de Letras.
Seu estilo, marcado pelo regionalismo, a criação de novas palavras de cunho popular misturado ao erudito, alcançou a esfera internacional e criou um estilo como que novo na literatura brasileira, sendo o romancista mais importante da 3a geração do modernismo brasileiro.
Sua obra foi bastante vasta, contendo principalmente coletâneas de contos, todos sobre o povo e a terra.
Guimarães Rosa morreu em 19 de novembro de 1967, 3 dias depois de ter tomado oficialmente posse de sua cadeira entre os imortais.

Minha Gente - Guimarães Rosa - Parte III


Horrível! Horrível o que hoje aconteceu. E quem convidou fui eu! Bento Porfirio bem que não queria ir. Eu era quem estava Com saudade dos estranhos sussurros do poço. Porque todos os córregos aqui são misteriosos —  somem-se solo adentro, de repente, em fendas de calcário, viajando, ora léguas, nos leitos subterrâneos, e apontando, muito adiante, num arroto Ou numa cascata de rasgão. Mas o mais enigmático de todos é este ribeirão, que às vezes sobe de nível, sem chuvas, sem motivo anunciado para minguar, de
pronto, menos de uma hora depois. Há, contínuo, aqui ou acolá, um gluglu, um chupão líquido, água rolando n’água; lá embaixo, nas pedras, a corredeira se apressa ou amaina; mas o som nunca é o mesmo de dois instantes atrás.
Os mangues da outra margem jogam folhas vermelhas na corrente. Descem como canoinhas. Param um momento ali naquele remanso, perto das frutinhas pretas da tarumã.
Olhos de Maria Irma... Bobagem, eu vou gostar mais de olhos castanhos, de olhos verdes... Suecas, húngaras,  dinamarquesas... polonesas de olhos pardos...
O ribeirão mudou de tom. Você ouviu, Bento? Ronca. Está se enchendo outra vez, sem turvar a água... De repente, o sabiá! Veio molhar o pio no poço, que é um bom ressoador. E quer passar a sua tristeza para a gente. Mas, agora, já sabemos nos defender. Podemos desmerecê-lo, quebrar-lhe a potência de acumulador de mágoas e dor de saudades. E, sem nenhuma combinação:
Eu disse:
— Gênero turdus... Um flavipes ou rufiventris...
E Bento berrou:
— Ô bicho enjoado! Vai chamar chuva noutra parte!.. A modo e coisa que está botando ovoe veio comer minhoca de beira de córgo... Cruz!
E cantou, alto, para abafar os lamentos do outro:
“Ouvi um sabiá cantando
 na beira do ribeirão...
Ô pássaro que canta triste!
Não me traz consolação...”
Então o sabiá calou o bico e foi-se embora, porque  a cantiga do Bento ainda era mais melancolizante. Agora é o córrego que parece triste. Trocou outra vez de toada... Deve ter uma lavadeira lavando roupa e chorando, lá longe, lá longe, lá para trás dos morros frios, onde há outras roças, outra gente, outro sabiá...
Afinal, quem é que é burro?! Que foi que nós viemos fazer aqui?... Os cigarros seacabaram. Vamos voltar para casa, Bento Porfírio?
— Já, já... É só o tempinho d’eu pegar aquele dourado dançante, que prancheou ali agorinha mesmo... Queixo esperto! Tabarão! Já comeu três iscas... Mas hoje é o dia dele! Cada qual tem o seu dia... E peixe é bicho besta, que morre pela boca...
Bento Porfírio volta a falar na amante: o marido, o Alexandre, não sabe que está sendo enganado... Mas aquilo não é pouca-vergonha, não: é amor sério... A de-Lourdes não tolera o marido, não dorme com ele, não beija, nem nada... Estão combinando fugir juntos... Braços morenos... (Maria Irma!)... lenço vermelho na cabeça... metade... agaranto... anto...ão... eu... é...
Não escuto mais. Estou namorando aquela praiazinha na sombra. Três palmos de areia molhada... Um mundo!... Que é aquilo? Uma concha de molusco. Uma valva lisa, quase vegetal. Carbonífero... Siluriano.,. Trilobitas... Poesia... Mas este é um bicho vivo, uma itã. No córrego tem muitos iguais...
Bento Porfírio suspira fundo. Continua falando alto:
—  ...estava de branco.., na vinda p’ra cá bateu a mão, saudando... O Alexandre é um bobo a gente vai ser feliz... ...de-Lourdes...  ... p’ra longe...  ... nem não há...Não há... Não há... Não ouço mais o Bento. Há qualquer coisa estranha aqui... Há mais alguém aqui! Alguém está escutando! Não tenho coragem para voltar o rosto.
Fui testemunha. Pode lá a gente ser mesmo testemunha? Não sei como foi: um grito de raiva, uma pancada, o t’bum n’água uma queda pesada, como um pulo de anta. Alexandre, o marido, de calças arregaçadas. Só as calças arregaçadas, os pés enormes,descalços na lama... Um ramo verde-maçã, a se agitar, em rendilha... Daí, a foice, na mão do Alexandre... O Alexandre, primeiro de cara fechada, depois com um ar de palerma... A foice, com sangue, ficou no chão. A água ensangüentada... O Alexandre vai indo embora. Já gastou a raiva. O morto não se vê. Está no fundo.
Agora me acalmo. Não me fizeram nada. Só estou é com a roupa molhada, do espirrão da água. Também, aqui não é de; uso dar-se voz de prisão... E não posso pedir ao assassino que me ajude a tirar o Bento do poço. Corro para casa. No caminho, recupero parte da compostura.
Tio Emílio acabava de chegar da vila, e, sentado no banco do alpendre, labutava para descalçar as botas.
Fui falando, esbaforido, insofrido. Mas meu tio, cortando o jacto das minhas informações, disse:
— Espera um pouco.
Trabucou mais dois minutos. Afinal, conseguiu desfazer-se das botas e calçou os chinelos.
Perguntou:
— Você tem certeza de que o Bento já está morto?
— Mortíssimo. Morreu em flagrante...
—Ah!...
E levantou-se calmamente, e calmamente pegou a andar na varanda, no vaivém de sempre, pensando, pensando. Nem me via. Sentei-me no banco, com raiva de tanta fleuma e querendo ver o que ele iria resolver. Por fim, parou e rosnou.
— Como é que o Xandrão Cabaça, tão sem idéia, foi descobrir a história lá deles? Boi sonso, marrada certa!
Chamou o Norberto, o capataz, e mandou que fosse ver o corpo.  E que corresse alguém ao arraial, para chamar o subdelegado.
O capataz saiu, convocando os camaradas. Meu tio se chegou  para o parapeito, e tirou o fumo mais o canivete. Não me contive: — Mas,Tio Emilio, o senhor que é tão justiceiro e correto, e que gostava tanto do Bento Porfírio, vai deixar isto assim? Não vai mandar, depressa, gente atrás do Alexandre, para
ver se o prendem?
Tio Emílio, alisando a sua palha, e com o sorriso que um sábio teria para uma criança, olhou-me, e disse:
— Para os mortos... sepultura! Para os vivos.., escapula!
Humilhei meus pendões. Calei-me. Meu tio esfregava nas palmas das mãos o fumo picado. Enrolou o cigarro. De súbito, bateu na testa e pulou:
- Não é que eu não sei onde é que eu estava mesmo com a cabeça?! Ô Gervásio, corre aqui!... Já perdi um voto, e, se o desgraçado fugir para longe, são dois que eu perco...
Tirou dinheiro do bolso e entregou ao mulato. Ajunta, depressa, uns homens, para campearem o Cabaça. Espera aí... Ele para o lado da vila não ia, com medo dos soldados... Para o Marimbo, também não, pois é onde que mo ram todos os parentes dele, e ele sabe que a gente havia de querer ir procurar lá... O Calambau era o melhor lugar para um se esconder, mas o Xandrão Cabaça é burro, não acertava de ter pensado nisso, não. Para os lados do Piau Não, acho que também não ia, porque no Piau vive o irmão do Bento... Nem para as Porteirinhas... Nem para os Tucanos... Ele foi mas é pa ra o Bagre, com tenção de, de lá, esquipar para o sertão! Vocês cacem de ir atrás dele, passando pelo atalho das Moreiras. E segurar e trazer. Mas voltem por dentro, pelo caminho do mato, que é para ninguém ver e nem ficar sabendo... Levem o Cabaça para a tapera do Retiro. Expliquem bem a ele, que ele vai ficai lá garantido, escondido das autoridades, até a gente arrumar as coisas, os jurados e tal.., O Cabaça é muito jumento e ignorante, e é capaz de não querer acreditar; se fizer barulho, vocês sojiguem, nem que seja peado e no tronco,.. E tio Emílio se sentou na cadeira-de-pano. Acendeu o cigarro. Tirou uma fumaça e espiou para ela. De repente, se mobilizou em pé, com grande susto para mim, e gritou pelo Gervásio, que já ia longe. Falou só:
— Vão no Calambau! Foi para lá que o Cabaça foi.
E sentou-se outra vez, ora descansado, murmurando:
— É isso... Capivara, a primeira vez que bate um trilho, passa com jeito. Depois, vai-se acostumando com o caminho, e pega a relaxar... Foi assim que o Bento morreu. Agora a gente tem é de ver os jurados, para o júri do leso do Xandrão Cabaça...
Saí para os fundos da casa. Maria Irma estava dando água às latas de plantas: jurujuba, dinheiro-em-penca e beicinho-de-sinhá. Narrei-lhe a tragédia. Minha prima levantou os supercílios, e seus olhos formosos se arredondaram, descobrindo o branco por cima da íris; e foi apenas com isso que revelou algum espanto.
— Coitadinha da Bilica... e da mulher do Alexandre... — disse. — Por causa da falta de vergonha de um, e da do outro, quem vai sofrer agora são as duas pobrezinhas...
Pororoca! Será que ninguém aqui pensa como eu?!...
Quero ir dormir, sem jantar, sem conversa de sede e siso.

***


Voltou a chover, O dia inteiro. Caiu um raio, na porteira do curral grande. Rega miúda, aborrecida. Só às vezes, sem aviso, despenca um maço d’água mal amarrada, ou zoa uma chuva rajada flechando o chão em feixe diagonal. Depois, estia devagar: já se escutam as goteiras. Ao pé da minha janela, a enxurrada desce para o bueiro, numa efêmera cascata suja, com inconveniências de cochicho e bochecho. E, quase que o dia inteiro, um sapo sentado no barro, se perguntava como foi feito o mundo.
Passei todo o tempo no quarto, lendo, pensando. Imaginei mesmo um romance, do qual Bento Porfírio, bem vivo, seria o herói.
Mas, agora, estou com remorso, porque não acompanhei o enterro; malícia dum momento, o Bento indo por essas estradas, estúpidas de lama. Chovia, na verdade, porém, a chuva não impediu Maria Irma de sair, para visitar e confortar a viúva e a outra. Meu tio também se mostrou assaz generoso para com as duas. Minha gente é boa.
Houve o arco-da-velha no céu, num abrir de sol, mostrando as cores, com um pilar no mato e o outro no monte.
Mas, cataplasma! Já começa a chover outra vez.

***

Chove. Chuva. Moles massas. Tudo macio e escorregoso. Com o que proferiu Gotama Buddha, o pastor dos insones, sob outras bananeiras e mangueiras outras, longínquas:
“Aprende do rolar dos rios,
dos regatos monteses, da queda das cascatas:
tagarelante, ondeia o seu caudal —
só o oceano é silêncio.”
Mas, do mudo fundo, despontam formas, se alongam. Anfitrites dormidas, na concha da minha mão, e anadiômenas a florirem da espuma.
Eu tinha cochilado na rede, depois de um almoço gostoso e pesado, enquanto Tio Emilio, na espreguiçadeira, lia sua pilha de jornais de uma semana. A varanda era uma praia de ilha, ao mar da chuva. Meu espírito fumaceou, por ares de minha só posse — e fui, por inglas de Inglaterras, e marcas de Dinamarcas, e landas de Holanda e Irlanda. Subi à visão de deusas, lentas apsaras de sabor de pétalas, lindas todas: Dária, da Circássia; Ragna e Aase; e Gúdrun, a de olhos cor dos fiordes; e Vivian, violeta; e Érika, sílfide loira; e Varvára, a de belos feros olhos verdes; e a princesa Viadislava, císnea e junoniana; e a
princesinha Berengária, que vinha, sutil, ao meu encontro, no alternar esvoaçante dos tornozelos preciosos...
Quem veio foi Maria Irma, num vestido azul-marinho, tanto corada e risonha.
— Sonhei. Sonhei demais, prima... Que é do tio?
— Foi dormir na cama, que é lugar mais quente.
— E você?...
— Queria perguntar uma coisa...
— Pergunte, Maria Irma. — Não. Não sou curiosa.
— Então, eu sei o que é...
— Então?
— É a respeito... Bem, é sobre. . . Você quer saber se eu deixei algum amor, a esperar por mim?
— Se deixou, ou não, não me interessa...
— Então, por que você quis perguntar, prima?
— E por que foi que você adivinhou a pergunta, primo?

***

Manhã maravilha. Muito cedo ainda, depois de gritos de galos e berros de bezerros, ouvi alguém cantar. Fui para a varanda, onde adensavam o ar os perfumes mais próximos, de vegetais e couros vivos. Sob a roseira, de rosas carnudas e amarelas, encontrei Maria Irma. Perguntei se era ela a dona de tão lindo timbre. Respondeu-me:
— Que idéia! Se nem para falar direito eu não tenho voz...
— Diga, Maria Irma, você pensou em mim?
— Não tenho feito outra coisa.
— Então...
—-Vamos tomar leite novo?
— Vamos!
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—  E agora?
—Vamos tomar café quente?
—Vamos e venhamos...
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— Mas, Maria Irma...
— Vamos ver se a chuva estragou a horta?
Havia uma cachoeira no rego, com a bica de bambu para o tubo de borracha. Experimentei regar: uma delícia! Com um dedo, interceptava o jacto, esparzindo-o na trouxa verde meio aberta dos repolhos, nas flácidas couves oleosas, nos tufos arrepiados dos carurus, nos quebradiços tomateiros, nos cachos da couve-flor, granulosos, e nas folhas cloríneas, verdeaquarela, das alfaces, que davam um ruído gostoso de borrifo.
Maria Irma, ao meu lado, pôs-me a mão no braço. Do  cabelo preto, ondulado, soltou-se uma madeixa, que lhe rolou para o rosto.
Eu apertava com força o tubo da mangueira, e o jorro, numa trajetória triunfal e libertada, ia golpear os recessos das plantinhas distantes. De repente, notei que estava com um pensamento mau: por que não namoraria a minha prima? Que adoráveis não seriam os seus beijos... E as mãos?!... Ter entre minhas aquelas mãos morenas, um pouquinho longas, talvez em desacordo com a delicadeza do conjunto, mas que me atraíam perdidamente...
Acariciar os seus braços bronzeados... Por que não?...
Súbito, notei que Maria Irma se ruborizava. E arrebatou a borracha, com rudeza quase:
— Não faz isso, que você está tirando a terra toda de redor dos pés de couve!
E, com um meio sorriso, querendo atenuar a repentina aspereza:
— Além disso, tem chovido, e ainda não é preciso regar horta hoje...
E, afinal, com um sorriso todo:
—....e, depois, faz mal molhar as plantas com sol quente. Vamos ver as galinhas?
— Pois vamos ver as galinhas, Maria Irma.
E acompanhei-a, namorando-lhe os tornozelos e o donairoso andar de digitígrado.
Pelo rego desciam bolas de lã sulfurina: eram os patinhos novos, que decerto tinham matado o tempo, dentro dos ovos, estudando a teoria da natação. E, no pátio, um turbilhão de asa e de bicos revoluteava e se embaralhava, rodeando a preta, que jogava os últimos punhados de milho, rolando e com a língua:
— Prrr-tic-tic-tic!
Um gordo galo pedrês, parecendo pintado de fresco com desenhos de labirinto de almanaque, sultaneava, dirigindo preferências a uma galinha ainda mais carijó e mais gorda, vestida de fichas de impressão digital. E veio de lá, ciumento e briguento, outro galo, esse branco, com chanfraduras e pontas na crista caída de lado. Barulho. E então a galinha choca, com cloqueios e passos graves, chamou os pintinhos para longe dali. E havia suras, transilvânias, nanicas, topetudas, calçudas; e guinés convexas, aperuadas; e peruas acucadas; e um peru bronze-e-brasa, de brincos, carúnculas, boné e guardanapo, todo paramentado de framboesas; e patos, esparramados, marrecos mascotes e pombas de casa.
Mas, de supetão, uma espécie de frango esquisito, meio carijó,  meio marrom, pulou no chão do terreiro e correu atrás da garnisé branquinha, que, espaventada, fugiu. O galo pedrês investiu, de porrete. Empavesado e batendo o monco, o peru grugulejou. A galinha choca saltou à frente das suas treze familiazinhas. E, ai, por causa do bico adunco, da extrema elegância e do exagero das garras, notei que o tal frango era mesmo um gavião.
Não fugiu: deitou-se de costas, apoiado na cauda do brada, e estendeu as patas, em guarda, grasnando ameaças com muitos erres. Para assustá-lo, o galo separou as penas do pescoço das do corpo, fazendo uma garbosa gola; avançou e saltou, como um combatente malaio, e lascou duas cacetadas, de sanco e esporão. Aí o gavião fez mais barulho, com o que o galo retro cedeu. E o gavião aproveitou a folga para voar para a cerca, enquanto o peru grugulejava outra vez, com vários engasgos.
—  Nunca pensei que um gavião pudesse ser tão covarde e idiota .. —  eu disse.
Maria Irma riu. —  Mas este não é gavião do campo! É manso. E dos meninos do Norberto... Vem aqui no
galinheiro, só porque gosta de confusão e algazarra. Nem come pinto, corre de qualquer galinha...
— Claro! Gavião civilizado...
— U’lalá... Perdeu duas penas..
O sorriso de Maria Irma era quase irônico, Não me zanguei mas também não gostei.