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sábado, 4 de janeiro de 2014

O Padrão

Padrão

Não se pode cansar de dizer o quanto Fernando Pessoa é genial e o quanto sua obra é vasta. No entanto, ao se juntar a capacidade do autor com um tema excelente, a história de Portugal, saiu Mensagem. Sempre digo que tenho pena de quem não fala português. Somos poucos nativos e muito poucos que aprenderam. E todo o resto do mundo, não pode nem imaginar o que está perdendo. Como está escrito um pouco depois, também na segunda parte da obra é que "mas o que a eles não toca é a magia que evoca o Longe e faz dele história."
Mensagem conta a história de Portugal. A primeira parte, descrevendo o escudo português, Fernando Pessoa vai contando a história de Portugal até a época das grandes navegações. Na segunda parte, O Mar Português, ele faz uma homenagem aos principais navegadores, os quais não eram simplesmente gente ignorante que o rei conseguia obrigar a entrar no barco atrás do dinheiro, mas eram pessoas que tinham estudado muito e eram, muitas vezes de famílias importantes de então. A terceira parte fala do futuro previsto pelo autor, o qual imaginava uma era onde Portugal voltasse a ser a nação mais importante do globo. Grande parte da teoria dele vem de suas doutrinas, que eu explico quando colocar alguma coisa dessa parte.
O Padrão é a homenagem à Diogo Cão, navegador que descobriu como chegar até o sul da África ao perceber que muitas vezes era necessário navegar ao laro, sem ver a terra. E isso só era possível pelo sistema de navegação e localização desenvolvido pelos navegantes. Apreciem e pensem sobre o significado.

Padrão - Mensagem - Fernando Pessoa

O esforço é grande e o homem é pequeno.  
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei  
Este padrão ao pé do areal moreno  
E para diante naveguei.  

A alma é divina e a obra é imperfeita.  
Este padrão sinala ao vento e aos céus  
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:  
O por-fazer é só com Deus. 

E ao imenso e possível oceano  
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,  
Que o mar com fim será grego ou romano:  
O mar sem fim é português. 

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma  
E faz a febre em mim de navegar  
Só encontrará de Deus na eterna calma  
O porto sempre por achar.  

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Farsa de Inês Pereira

Gil Vicente é um dos mais antigos poetas portugueses. Seus autos, sobretudo os religiosos, como o Auto da Barca do Inferno, o Auto da Alma e tantos outros, são um dos melhores expoentes da literatura portuguesa medieval. A Farsa de Inês Pereira é um pouco diferente das demais, apresentando um teatro mais voltado à comédia, como soem ser as farsas. O próprio Gil Vicente explica a obra no começo:

"A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa."

O trecho abaixo mostra a vida de casada de Inês Pereira com o primeiro marido, "o cavalo", a morte deste, e sua decisão de casamento com o segundo, o "asno"



A Farsa de Inês Pereira - Gil Vicente



Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga: 

Inês
“Quem bem tem e mal escolhe 
Por mal que lhe venha não s'anoje.” 
Renego da discrição 
Comendo ò demo o aviso, 
Que sempre cuidei que nisso 
Estava a boa condição. 
Cuidei que fossem cavaleiros 
Fidalgos e escudeiros, 
Não cheios de desvarios, 
E em suas casas macios, 
E na guerra lastimeiros.

Vede que cavalarias, 
Vede que já mouros mata 
Quem sua mulher maltrata 
Sem lhe dar de paz um dia! 
Sempre eu ouvi dizer 
Que o homem que isto fizer 
Nunca mata drago em vale 
Nem mouro que chamem Ale: 
E assi deve de ser
Juro em todo meu sentido 
Que se solteira me vejo, 
Assi como eu desejo, 
Que eu saiba escolher marido, 
À boa fé, sem mau engano, 
Pacífico todo o ano, 
E que ande a meu mandar 
Havia m'eu de vingar 
Deste mal e deste dano! 

Entra o Moço com uma carta de Arzila, e diz: 
Moço — Esta carta vem d’Além 
Creio que é de meu senhor.
Inês
Mostrai cá, meu guarda-mor 
E veremos o que i vem. 

Lê o sobrescrito. 

“À mui prezada senhora 
Inês Pereira da Grã, 
À senhora minha irmã.” 
De meu irmão...Venha embora! 

Moço
Vosso irmão está em Arzila? 
Eu apostarei que i vem 
Nova de meu senhor também. 
Inês — Já ele partiu de Tavila? 
Moço — Há três meses que é passado. 
Inês — Aqui virá logo recado 
Se lhe vai bem, ou que faz. 
Moço — Bem pequena é a carta assaz! 
Inês — Carta de homem avisado. 
Lê Inês Pereira a carta, a qual diz: 

“Muito honrada irmã, 
Esforçai o coração 
E tomai por devoção 
De querer o que Deus quiser.” 
E isto que quer dizer? 
“E não vos maravilheis 
De cousa que o mundo faça, 
Que sempre nos embaraça 
Com cousas. Sabei que indo 
Vosso marido fugindo 
Da batalha pera a vila, 
A meia légua de Arzila, 
O matou um mouro pastor.” 
Moço — Ó meu amo e meu senhor! 
Inês — Dai-me vós cá essa chave 
E i buscar vossa vida. 
Moço — Oh que triste despedida! 
Inês
Mas que nova tão suave! 
Desatado é o nó. 
Se eu por ele ponho dó, 
O Diabo me arrebente! 
Pera mim era valente, 
E matou-o um mouro só!

Guardar de cavaleirão, 
Barbudo, repetenado, 
Que em figura de avisado
É malino e sotrancão. 
Agora quero tomar 
Pera boa vida gozar, 
Um muito manso marido. 
Não no quero já sabido, 
Pois tão caro há de custar.
Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz: 
Lianor — Como estais, Inês Pereira? 
Inês — Muito triste, Lianor Vaz. 
Lianor — Que fareis ao que Deus faz? 
Inês — Casei por minha canseira. 
Lianor — Se ficaste prenhe basta. 
Inês — Bem quisera eu dele casta, 
Mas não quis minha ventura. 

Lianor
Filha, não tomeis tristura, 
Que a morte a todos gasta. 
O que havedes de fazer? 
Casade-vos, filha minha. 

Inês
 Jesus! Jesus! Tão asinha! 
Isso me haveis de dizer? 
Quem perdeu um tal marido, 
Tão discreto e tão sabido, 
E tão amigo de minha vida? 

Lianor
Dai isso por esquecido, 
E buscai outra guarida. 
Pêro Marques tem, que herdou, 
Fazenda de mil cruzados. 
Mas vós quereis avisados... 

Inês
Não! já esse tempo passou. 
Sobre quantos mestres são 
Experiência dá lição. 
Lianor — Pois tendes esse saber 
Querei ora a quem vos quer 
Dai ò demo a opinião. 

Vai Lianor Vaz por Pêro Marques, e fica Inês Pereira só, dizendo: 

Inês
Andar! Pêro Marques seja. 
Quero tomar por esposo 
Quem se tenha por ditoso
De cada vez que me veja. 
Por usar de siso mero, 
Asno que me leve quero, 
E não cavalo folão. 
Antes lebre que leão, 
Antes lavrador que Nero. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O autor aos seus versos

Manuel Maria Barbosa du Bocage é dos mais famosos poetas do arcadismo português. Sua família era inimiga do Marquês de Pombal, sendo que seu pai foi preso por este e passou 6 anos na cadeia. Quanto à suas próprias vida e obra, a primeira foi bastante turbulenta, sendo que ele se alistou na Marinha e quase ficou morando no Rio de Janeiro quando passou por lá em sua viagem. Por sua obra, teve problema com a Inquisição e dizem que chegou a ser preso por isso, já depois de ter passado uns anos na cadeia por sua vida desregrada. Parece que isso tudo lhe fez vem, porque depois de livre resolveu se assentar na vida e trabalhou como tradutor tendo arrumado alguns padres bem situados como amigos. Quanto aos seus poemas, a maioria é complexo pela filosofia gnóstica escondida, e foram eles uma forte influência no romantismo português.


O autor aos seus versos - Manuel Maria Barbosa du Bocage


Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Palácio da Ventura

Antero de Quental é um dos maiores nomes do Romantismo português, e em especial, da poesia romântica. Assim como em sua vida conviviam seu militantismo socialista fanático e seu distúrbio bipolar, também seus poemas tem duas fases, a primeira, socialista militante, e a segunda da metafísica desesperançada e perdida. Essa segunda fase é considerada pelos estudiosos a de maior valor artístico. Mas foi a riqueza e importância de sua família que lhe permitiram não só viver de rendimentos para fazer poesia, mas também ter contato com todos os grandes nomes da literatura portuguesa daquele período.



O Palácio da Ventura - Antero de Quental


Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão — e nada mais!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Espólio do Senhor Cipriano - Parte IV


O estilo de Julio Dinis é uma mistura entre Romantismo e Realismo. Ao mesmo tempo, por ter mãe de ascendência irlandesa, ele dominava o inglês, o que lhe trouxe a possibilidade de leitura de clássicos ingleses, como Jane Austen e Dickens, de onde ele aprendeu o realismo psicológico, o qual ele mistura ao romantismo português. Sob essa ótica realista, sua obra tem um realismo muito mais inglês, com personagens complexas e que mudam de acordo com a narrativa do que com o realismo francês. Além disso, pelo encanto que tinha pelo próprio país, está misturado não só o romantismo dos sentimentos, onde, afinal, todos acabam felizes, mas um romantismo um pouco ufanista, que exalta a Pátria mostrando seus atrativos.

O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte IV




— Ele me ajudará também — dizia consigo mesmo a boa mulher, como se quisesse colorir com um pensamento egoísta o impulso que lhe viera directamente do coração.
Nós temos destas coisas.
Mas o certo é que, apesar da melhor vontade, em pouco podia Agostinho auxiliar a madrinha.
Auxiliar de que maneira? Emprego não o pôde ele obter. Naquela cidade, como em muitas outras terras do reino, não se vêem com bons olhos os infelizes que voltam do Brasil pobres. Lá parece uma prova de pouco espírito e da nenhuma aptidão a essa boa gente um semelhante sucesso. O Brasil é, para ela, como o campo de batalha. Ou volta-se de lá vitorioso, ou morre-se combatendo. Fugir é de covardes.
E ora aí têm os leitores a razão por que dois meses depois da chegada de Agostinho, era ainda Maquelina quem só provia às despesas da casa, as quais, como era de supor, tinham aumentado; desenvolvendo a pobre velha esforços sublimes para um duplo resultado: obter meios de subsistência e ocultar ao sobrinho os imensos sacrifícios, a que para isso se sujeitava.
Mas Agostinho suspeitava-os e afligia-se. Um dia falou à madrinha nas vozes que corriam ainda sobre as
riquezas do defunto. Maquelina sorriu tristemente, respondendo:
— Pois procura-as.
Agostinho deitou-se à obra com calma, revolveu de novo o quintal a mais de um metro de profundidade, despregou as tábuas do soalho, sondou as paredes, trepou aos mais altos escaninhos da casa... tudo
foi inútil.
Disse adeus ainda a essa ilusão. O que lhe valeu foi estar já costumado a despedir-se delas. A primeira vez custa mais.
No entretanto os esforços e vigílias de Maquelina arruinaram-lhe a saúde. Lutou braço a braço com a doença como lutara com a fome. Lutas heróicas que passam ignoradas, enquanto tantas outras, muito
menos merecedoras das honras da epopeia, são extremamente celebradas em oitava rima. Afinal caiu vencida no leito, e então é que o futuro se lhe mostrou carregado. A pobre mulher não se iludia nem sobre a gravidade da sua moléstia, nem sobre as consequências da sua morte.
Que seria de Agostinho? Agostinho, a quem ela amava já como se amam os entes fracos que vieram procurar a nossa protecção, com esse amor bem mais intenso mesmo do que o votado aos seres que
nos protegem.
Porque o primeiro lisonjeia o nosso orgulho, e o segundo, esse, revela a nossa inferioridade. Coisas humanas.
O futuro de Agostinho era a ideia negra de Maquelina; como ela ficaria contente por morrer se não fora isso! Mas agora custava-lhe; esta lembrança aumentava-lhe a doença. Que diria ela à irmã, quando no Céu lhe pedisse novas do filho? Que o deixara na miséria? E era isso de boa madrinha?
E estes pensamentos e apreensões definhavam-na a olhos vistos. Agostinho aterrou-se, e reconheceu então tudo quanto tinha havido de heróica abnegação no procedimento da tia.
O seu coração de homem teve um movimento pelo qual procurou libertar-se da espécie de colapso em que infortúnios continuados o haviam lançado. Agostinho curvara a cabeça sob a corrente de desgraças que sem interrupção haviam sucedido na sua vida; agora tentava elevá-la em um último esforço.
— É preciso tentar fortuna — dizia ele consigo — amanhã de manhã sairei a pedir trabalho, a tudo me quero sujeitar, a tudo. E adormeceu com este pensamento, sonhando daí a pouco em uma mina de ouro, onde ao fim de muita fadiga, só conseguiu extrair enormes pedras de carvão.
O leitor pode imaginar toda a agradável voluptuosidade de semente sonho. Por a manhã ergueu-se disposto a realizar o projecto da véspera; mas foi encontrar a tia em um estado tão assustador, que não teve
imo para abandoná-la.
— Não tem de ser! — disse consigo Agostinho, a quem a desgraça ase tornara fatalista.
Maquelina mostrava-se de facto em risco iminente. O facultativo de partido veio vê-la; pois Maquelina havia enfim conseguido entrar no quadro dos pobres. Tomou-lhe um pulso, depois o outro; deu-lhe três pancadas do lado direito do tórax, igual número do esquerdo; pousou-lhe o ouvido sobre as descarnadas costelas, e, como se escutasse lá dentro os passos da morte, ergueu-se e fez um gesto de descontentamento visível.
Receitou um chá de alteia e saiu.
Agostinho esperava-o à porta.
— Então ?
O médico puxou pelo relógio, ao qual principiou a dar corda, dizendo com a indiferença profissional:
— Como àquela máquina se não dá corda como a esta, pára dentro em poucas horas.
Agostinho sentiu subirem-lhe as lágrimas aos olhos. O médico voltou-se ainda de novo para dizer:
— Eu escuso de cá voltar, agora o padre.
Estas palavras, ditas em tom mais alto e da maneira mais natural possível, como as sabem dizer alguns adeptos da ciência hipocrática, que se jactam de fortes, chegaram aos ouvidos de Maquelina, que juntou as mãos, e, erguendo os olhos ao Céu, disse com voz débil:
— Aqui está a serva do Senhor, cumpra-se em mim a sua santíssima vontade.
Quando Agostinho entrou no quarto, encontrou-a resignada. Nessa mesma tarde confessou-se e sacramentou-se aquela pobre de Cristo.
Na cidade dizia-se:
— Coitada! o irmão matou-a. Morre de fome e fadiga e com dinheiro em casa.
Era forte cisma a do povo.
Mas há dessas teimas.
Ao pé da noite pediu Maquelina um chá para mitigar a sede
Naquele dia não se acendera ainda o lume em casa. Agostinho esquecera-se de comer, e se se lembrasse não sei bem o que teria sucedido. Melhor foi que se não lembrasse.
Agostinho correu à cozinha, reuniu a custo alguns cavacos já meio queimados para acender o lume, e voltou à sala.
Maquelina dava-lhe instruções da cama.
— Ainda achaste lenha ?
— Achei, sim, madrinha.
— Bem; ora agora... Essa lamparina está acesa ainda?
— Está, madrinha, está, pois não vê.
— Não, filho, já a não vejo.
Havia neste já uma significação que comoveu Agostinho.
Ela continuava:
— Encontraste carqueja ?...
— Não, madrinha... mas...
— Valha-me Deus — disse ela, lutando já com dificuldades para se fazer ouvir. —Olha, sabes, aí... na gaveta do toucador... está uma papelada de que... às vezes me sirvo para economizar. Acende alguma
na... lamparina e... Ai! — terminou ela com um suspiro, que o longo esforço que tinha feito para falar lhe tornara necessário; e depois em voz mais baixa acrescentou:
— Louvado seja o Senhor, a que estado eu cheguei!
Agostinho abriu a gaveta.
— Aí — continuou Maquelina com voz sumida e trémula.
— Achaste? bem... ora agora...
Agostinho inflamou à chama escassa da lamparina um dos papéis que tirara do velho toucador da tia.
— Isso — disse esta satisfeita por se ver compreendida.
Ãs sombras indistintas que reinavam no aposento sucedeu a claridade da lavareda, mas foi de pouca duração. Ainda não teria ardido metade do papel, já Agostinho, soltando um grito inexprimível, o atirava ao chão, abafava-o com os pés, precipitando ao mesmo tempo pela vivacidade do movimento a lamparina, que se fez em pedaços.
A escuridade tornou-se completa.
— Que foi, santo nome de Jesus! que foi, Agostinho? — dizia assustada Maquelina, erguendo-se a meio corpo.
— Que papéis eram estes, minha madrinha?
— Eu sei lá, filho; mas que foi ? valha-me o Senhor,
— Uma luz! uma luz! — bradou Agostinho fora de si; e saiu repentinamente da casa, atravessou a rua, enfiou pela primeira porta que encontrou aberta, galgou um lanço de escadas, penetrou em um quarto
onde trabalhavam pacificamente algumas mulheres, apoderou-se da luz que viu no meio da mesa, em volta da qual elas se formavam em círculo, e sem dar uma única palavra, saiu arrebatado, deixando em completa estupefacção as circunstantes, que só passados minutos voltaram a si, para correrem atrás do mancebo, que parecia possesso.
Agostinho entrou de novo no quarto da tia moribunda, aproximou-se do lugar onde deixara os restos do papel meio consumido, apanhou-o, examinou-o com escrupulosa atenção, depois correu à gaveta do toucador, sujeitou a igual exame os outros papéis semelhantes que ai estavam a monte.
— Por amor de Deus, madrinha... mas... de onde vieram estes papéis ? — exclamou ele, ao passo que um por um os passava em revista.
Maquelina, apoiada no braço convulso e com os olhos espantados, olhava para o sobrinho estupefacta.
— Eram do mano, o Senhor o tenha em glória; guardava-os naquela arca; ele sempre me disse que de nada valiam, e agora que eu me via precisada ia-os queimando, para...
— Mas, valha-nos a Virgem! era uma riqueza inteira que queimava assim!
— Que dizes tu, filho?
Os combustíveis da tia Maquelina eram nem mais nem menos que boas e excelentes notas de banco, às quais o velho Cipriano reduzira os seus haveres, porque o amedrontava o tinir do dinheiro metálico, como chamariz de ladrões: enquanto que por outro lado nunca se pudera resignar a separar-se do seu querido capital, em cuja contemplação saboreava aquela doce voluptuosidade, só dos avarentos conhecida.
Quando se procedeu a investigações em casa de Maquelina para descobrir o tesouro oculto, esqueceram-se, como quase sempre acontece, de examinar os lugares, por onde deviam ter principiado; enquanto profundavam a terra e escavavam as paredes, ninguém se lembrou de abrir a pequena gaveta, que nem chave tinha sequer, e onde Maquelina alojara toda a riqueza. Mas quem o podia supor!
O instinto do povo não o enganara desta vez. Cipriano era de facto rico. Vivera uma vida de privações, praticou um negócio de alta usura debaixo das maiores cautelas e mistério impenetrável; aí está explicada a sua riqueza. É receita infalível para chegar ao mesmo resultado; as pessoas, a quem não nausearem os ingredientes, adoptem-na, porque não falha. Desconfiando de todos, da própria irmã desconfiava, e dava-lhe por isso a entender que de nenhuma importância eram os papéis que ela às vezes por acaso chegara a descobrir.
Maquelina era ignorante, e nem imaginava sequer que se pudesse ter uma riqueza em papéis. Na sua inteligência, como na das crianças, a ideia de riqueza andava associada à de muito dinheiro em ouro e prata:
gavetas, cómodas, caixas e burras cheias dele ; e por isso ia queimando agora lentamente aquele tesouro que o irmão acumulara; e isto com o fim de poupar carqueja!
Cleópatra, brindando os amantes com soluções de pérolas preciosas, não conseguiu ser mais magnifica. Era um passatempo de milionário o de Maquelina.
Se Deus lhe prolongasse a vida, até onde iria aquela monstruosa combustão? Que soma enorme seria aniquilada! E ainda assim quanto não consumiria!
Nunca se pôde calcular.
Há o quer que é de sublime neste quadro. Uma mulher velha, caquética, esfomeada, agonizante, tendo ao alcance do braço uma riqueza, como ela nem sequer concebera nos seus mais ambiciosos sonhos, e queimando-a!
A notícia inesperada, que recebia agora, imprimiu àquela existência o derradeiro abalo. A alma, já quase desapegada do corpo, abandonou-o de todo e partiu.
À meia-noite morreu a santa criatura, contente, porque deixara rico o sobrinho e afilhado, único parente que possuía na terra.
Ainda assim, quando se divulgou a notícia, o que, graças à comunicabilidade das mulheres a quem gostinho usurpara a luz, e que foram as primeiras a sabê-la, se não fez esperar muito, houve quem se penteasse como herdeiro.
Faria rir se expusesse aqui os fundamentos das pretensões desta gente, e eu não quero fazer rir o leitor a quem peço antes uma lágrima para a memória de Maquelina.
Não seguiremos agora a história de Agostinho, que se modela por a de todos os homens ricos.
Apenas direi que por suas especulações comerciais conseguiu multiplicar o capital tão inesperadamente herdado, e hoje é milionário.
Vejam o instinto do povo!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Espólio do Senhor Cipriano - Parte III

Júlio Dinis é mais conhecido por seus 4 romances. As Pupilas do Senhor Reitor é o primeiro a ser publicado e também o mais conhecido. Foi adaptado para o teatro e representado ainda em vida do autor. Os fidalgos da Casa Mourisca foi último escrito e não chegou nem a ser completamente revisto por Júlio Dinis. Esses dois e A Morgadinha dos Canaviais mostram a vida no campo e nas aldeia portuguesas. A paixão pelo campo foi inspirada ao autor quando este esteve passando um tempo na casa de alguns parentes para tentar tratar a tuberculose.
Já Uma Família Inglesa trata da vida da pequena burguesia nascente na cidade do Porto, transformando-se em algo com traços autobiográficos, pois foi o meio onde o autor nasceu. Em todos eles, Júlio Dinis é escrupuloso em descrever com detalhes e realismo a paisagem, os costumes, o estilo de vida e os caracteres das classes portuguesas. Dessa forma, há descrições minuciosas e por vezes extensas que procuram ser leves pois o autor considera-as como parte fundamental de sua obra como um todo.


O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte III



Não sei de nada mais delicado, do que é este ser misterioso e respeitável por excelência, a que se dá o nome de público. É singular como todos tomam a peito manter-lhe a veneração devida e se doem às mais levas infracções que esta sofre. Grita-se contra um facto escandaloso, pateia-se no teatro uma produção imoral, fulmina-se um procedimento menos honesto, em respeito ao público, já se sabe. Não me ofendi eu, nem vós, nem eles; interrogai-os um por um, nenhum se dará por ofendido, mas todos vos responderão com a fórmula: «e o público!» Porém valha-nos Deus, o público é exactamente constituído por mim, por ti, por vós todos que assim respondeis; como é, pois, que de elementos tão pouco susceptíveis resulta um produto
tão melindroso?
Cada qual no gabinete lê uma obra de duvidosa moralidade, ri-se, diverte-se com a leitura, e ninguém quererá admitir que ele lhe possa ter causado o menor prejuízo. Aí temos portanto uma obra inofensiva ; pois não é tal; antes a vemos proclamar um verdadeiro veneno servido pela imprensa ao público, um miasma que se ergue dos prelos, um fermento de dissolução de costumes, e outros nomes igualmente feios. A não vermos nestes factos a confirmação daquelas ideias, que nas primeiras páginas expendi, não sei que outra solução razoável daremos ao problema.
É certo, porém, que o público, citado pelo regedor, achava-se exactamente nestas circunstancias. Todos os presentes abanavam a cabeça em sinal de aprovação; nenhum pela sua parte se mostrava escandalizado com o extemporâneo aparecimento de Maquelina, mas o complexo pelos modos sofria muito com isso.
A referida observação da autoridade humedeceram-se os olhos de Maquelina.
— E que lhe hei-de eu fazer, Sr. Bento Maria ? Quem é pobre...
Houve sussurro na assembleia; o adjectivo parecia beliscar o auditório.
— Pobre! É sempre o mesmo estribilho — disseram algumas vozes.
O regedor serenou o tumulto, dirigindo-se a Maquelina.
— Bem, deixemos agora isso. O que a traz por aqui?
Maquelina explicou-se. A indignação dos circunstantes rebentou.
— Sempre é desaforo!
— Também é preciso ter descaramento.
— É digna do irmão, já vejo.
— A alma do sovina meteu-se-lhe no corpo.
— Quem esconjura esta mulher ?
O regedor principiou a franzir a testa.
— Ora vejam a pobrezinha.
— Nosso Senhor a favoreça, irmã.
— Ora já viram!
O regedor levantou-se.
— Quem enterra o mano ?
— Forte perda, se fica de fora!
— Aquele nem os bichos o querem.
— Leva rumor! Ai, que eu...—rugiu por entre dentes o regedor, e todos imediatamente... silent, arrectisque auribus adstant. Pudera; o ai, que eu... do Sr. Bento Maria não ficou a dever nada ao célebre quos ego... de Neptuno. O regedor sabia, como Virgílio, o valor de eloquentes reticências. Em auxílio da ordem veio de mais a observação de um circunstante, dotado de sentimentos mais humanitários.
— A mulher tem razão, coitadinha, se o miserável deixou tudo escondido.
As massas são fáceis de impressionar. O alvitre modificou as opiniões.
-— É assim, é assim.
— Pobre criatura!
— Que vale tê-lo, se se não sabe aonde ?
Por este tê-lo entendia-se dinheiro; é de facto o substantivo que mais elipses suporta; tão presente o trazem na ideia, que não necessita estar nas orações antecedentes, para ser subentendido.
— Sim, sim, ela tem razão, é pobre, é...
O regedor enfarinhado nas praxes constitucionais, não era homem que fosse de encontro à opinião dos fregueses e, portanto, depois de concentrar por algum tempo o espírito, operação que nem por isso lhe aumentou demasiado a energia, passou o seguinte atestado, modelo de diplomacia e de exactidão ortográfica:
«Eu Bento Maria do portal, regidor de esta freguesia atesto im
como Maquilina Rosa Martins, solteira, de esta Cidade, não tem, aberes para lazer, as despesas do intero do seu irmon cepreano cujo consta ter dinheiro. Mas o quecerto é que por morte se não incontrou i se é
berdadeiro o dito do bulgo o debe ter, nalgum iscondrijo, que ainda se não inchergou. E por ser berdade o que Açupra, atesto e mo diserem pessoas diganas para mim de todo o Creto, pacei esta que juro.
«Dada em esta Cidade a 12 de Janeiro de...
«Bento maria do portal.»
Bento Maria era decididamente o funcionário público de mais expediente e de mais arrojadas medidas que existia então na cidade, Depois de mais algumas dificuldades e tropeços sempre se conseguiu enterrar, à ordem da junta de paróquia, o velho Cipriano, o qual de outra maneira bem teria de ficar fora do seio da terra, por não haver deixado dinheiro.
Todos estes acontecimentos, longe de desvanecerem os boatos das ocultas e sonhadas riquezas de Cipriano, os aumentaram, e deram lugar a duas versões diferentes.
Uns, mas eram a minoria, lançavam em rosto à pobre Maquelina o mesmo que haviam imputado ao irmão; outros, porém, viam nela uma vítima, ainda além da campa, da sórdida avareza do incorrigível octogenário.
Só Maquelina é que rejeitava urna e outra crença. Sabia-se inocente e não se acreditava vítima. E lutando com a idade avançada, tirava forças da fraqueza e ia provendo conforme podia ao seu sustento
quotidiano.
Não pôde, porém, resistir inteiramente às insinuações dos que falavam em tesouros enterrados, e as portas da casa abriram-se de par em par a uma junta de inquérito, presidida pelo regedor, a qual, pelos mais escusos recantos, e a grande profundidade no quintal procurou o decantado tesouro, sem no fim colher frutos de tantos esforços.
E as coisas conservaram-se por muito tempo neste pouco agradável statu quo. Um dia, porém, pioraram longe de se desanuviarem, as circunstâncias de Maquelina. Um sobrinho seu, filho de uma irmã que morrera jovem, voltou do Brasil e, contra o que era de esperar, vinha como partira, isto é,
com a riqueza de Job na desgraça.
A história deste rapaz é uma história longa e curiosa, que desta vez não contarei ao leitor.
Uma manhã, pois, quando Maquelina estava meditando em não sei que medida de economia doméstica, importantíssima para a melhor direcção de suas mesquinhas finanças, entrou-lhe pela porta dentro um rapaz magro, espigado, de fisionomia denunciadora de sofrimentos, o qual lhe estendia as mãos, dizendo: — Bons dias, madrinha, então não me conhece?
— Santa Maria! Querem ver que... És tu, Agostinho?
— Eu, eu mesmo.
A boa Maquelina saltou-lhe ao pescoço e devorou-o de beijos. O rapaz viu-se em talas e com ameaças de asfixia. Depois veio um pensamento à tia Maquelina, pensamento um pouco interesseiro é verdade, mas desculpem-na, e não ma principiem já por isso a olhar com maus olhos; todos como ela o teriam, e, o que
pior é, a poucos viria apenas em segundo lugar e só muito após dos espontâneos impulsos de uma afeição desinteressada: «o rapaz vinha Brasil... e o Brasil sempre é o Brasil» foi a ideia que lhe voou pelo
— Então — disse ela, movida por essa ideia— vens... rico!
Agostinho voltou os bolsos do avesso por única resposta. Maquelina juntou as mãos e não deu palavra.
E para quê? Queriam ainda de parte a parte mímica mais expressiva!
.— Vim para não morrer de fome.
Aqui benzeu-se a boa da tia.
— Embarquei como moço de navio por não ter dinheiro para a passagem.
Neste ponto persignou-se.
— E agora venho pedir-lhe — continuou o sobrinho — que me receba em casa até... até... arranjar modo de vida.
Maquelina, quando, junto da pia baptismal do pequeno Agostínho, se declarara madrinha, à face da Igreja, do filho querido de sua irmã, tinha já concebido uma alta ideia da missão que desde aquele momento ia adoptar por sua e para com o recém-nascido, que sustentava nos braços; nem foram para ela simples palavras de formalidade as que em tom de prédica ouvira ao pároco, sobre os seus deveres futuros. «Na falta dos pais, dissera ele, aos padrinhos compete a vigilância e a educação das crianças, que sob a sua protecção entrarem no grémio da Igreja católica». Ora os pais de Agostinho lá se tinham já partido para melhor morada, e Maquelina, que, eminentemente escrupulosa em negócios de consciência, se julgava por ela obrigada a cumprir até ãs últimas extremidades os seus deveres de cristã, tinha de mais a mais um coração farto para afeições e sentimento.
Fechou, pois, os olhos aos sacrifícios futuros e aceitou a companhia do afilhado.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Espólio do Senhor Cipriano - Parte II

Júlio Dinis é o pseudônimo mais conhecido do escritor Joaquim Guilherme Gomes Coelho. O autor (Porto 1839-1871) foi formado em Medicina, mas não se interessava pela profissão, ao contrário, sua verdadeira paixão era a literatura. Apesar do pouco tempo de vida, deixou uma obra grande entre críticas literárias, poemas, contos e 4 romances. No início de sua vida começou a escrever para jornais, de onde foram pegos os contos para as coletâneas Serões da Província e Inéditos e Esparsos, publicada postumamente. Em 1869 Julio Dinis parte para a Madeira para tratar de tuberculose, diagnosticada alguns anos antes, mas não permanece inativo, escrevendo sempre. No mesmo ano de sua morte, uma sua peça de teatro é representada no Rio de Janeiro, consagrando assim a internacionalização, por assim dizer do autor. Serões da Província, onde se encontra o conto foi publicado em 1869.



O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte II



Maquelina à palavra requerimento empalideceu. Fazer um requerimento é um negócio importante, um passo difícil na vida destes seres inofensivos e alheios a processos judiciais, a cuja confraria pertencia a boa mulher.
Mas que remédio! Saiu dali e procurou o presidente da câmara.
Era este um gordo merceeiro, cuja cabeça se podia dizer um vulcão de medidas tendentes todas ao melhoramento público e progresso social. Durante a sua feliz administração dos negócios municipais, contava actos realmente surpreendentes de tino governativo.
Seja-me lícito citar aqui alguns factos da vida pública deste não aproveitado estadista. Os moradores de uma rua estreita, onde os beirais dos telhados fronteiros quase se encontravam a ponto de interceptarem a passagem da luz solar, queixavam-se da mania, desenvolvida em alguns vizinhos, de cultivarem frondosos arbustos nas sacadas das habitações, com grande incómodo e prejuízo dos queixosos, para os quais anoitecia mais depressa, graças à sombra impenetrável que projectavam os folhudos ramos na já de si pouco esclarecida rua. O sábio edil legislou à vista disso:
«Ficam proibidas as árvores em todos os lugares onde a vegetação seja impossível.»
Eu penso que se Montesquieu tivesse notícia desta lei havia de apreciá-la, pela admirável concordância com as da imutável natureza. De outra vez os contribuintes pacíficos que habitavam próximo aos arrabaldes, lamentaram-se, em termos legais, pelas incómodas harmonias, com que todas as manhãs os despertavam os carreteiros com a infernal chiadeira de impertinentes carros. Pensava aquela boa gente que a sinfonia de ouverture da criação não perdia nada se lhe suprimissem da orquestra o pouco harmonioso instrumento. Atendendo à justa reclamação dos povos, o judicioso funcionário promulgou que: «Todos os carros que chiassem contra as posturas municipais, pagassem dois mil-réis de multa, sendo metade para o denunciante, dado o caso de serem ouvidos».
Já se vê que chiar contra as posturas era coisa séria; a câmara tinha susceptibilidades e ofendida chegava a multar... os carros. Quando esta medida se discutiu em plena vereação, um dos camaristas levantou-se e deu mostras de querer falar.
— Peço a palavra, sr. presidente.
— Tem a palavra o ilustre colega.
— Eu desejava que se fosse mais severo contra os perturbadores do sono público e se desse maior alcance a esta medida policial, multando todo o carro que chiar, quer seja ouvido, quer não.
O conselho, atendendo porém a que não convinha ser demasiado ríspido com os povos e que os carros não sendo ouvidos, pouco podiam incomodar, adoptou a cláusula do autor do projecto, rejeitando a emenda.
E foi muito bem considerado.
Outra ocasião ainda, ouvindo o nosso homem discutirem dois bacharéis, classe de sábios que sempre respeitou, sobre a conveniência das Rodas, e vendo-os acordes na necessidade de importantes e radicais reformas nestes estabelecimentos, veio para casa pensativo, e o cérebro, fecundado por aquela ideia, lidou toda a noite em gestação mental, tendo no fim o seu bom sucesso, porquanto pela manhã o magistrado municipal apresentou à aprovação dos colegas a seguinte medida regulamentar:
«Toda a mãe que expuser seu filho sem um bilhete do município, fica tacitamente encarregada da educação deste.»
A entender-se gramaticalmente a coisa, rude tarefa cabia à pobre da mãe, superior ao esforço humano.
Esta medida de um incomensurável alcance económico, por um triz ia passando.
Mas emperrou no advérbio tacitamente, que de facto era a maior palavra do período e que o legislador empregara para o arredondar; ele tinha lá suas ideias a respeito de estilo, não obstante viver antes das últimas reformas dos liceus, na qual pelos modos este assunto foi regulado de uma vez para sempre. Se a lacónica definição de Buffon é verdadeira, se o estilo é o homem, ninguém de facto como o nosso
vereador podia fazer períodos mais rotundos. Mas o corpo camarário viu na frase não sei que sentido maquiavélico, e mostrou escrúpulos.
Em vão o digno chefe de tão respeitável corporação, com aquela abnegação quase estóica que o caracterizava, se prontificou a substituir esse advérbio por outro qualquer, sem escolha, tais como: restritamente, completamente, impreterivelmente, categoricamente, etc, etc ; ele só queria salvar a beleza da forma; não houve de que, o conselho, entrando uma vez no caminho da desconfiança, não tinha por costume
recuar.
Esteve ainda assim, vai não vai, a resolver-se pela adopção do categoricamente, agradado da eufonia da palavra; mas enfim nem esse admitiu, e a medida foi rejeitada. Era pois diante deste vasto talento governativo que Maquelina fora enviada a implorar um diploma de pobre. Louvado seja Deus! até isto se implora!
— Mas — observou o judicioso presidente ao ouvi-la — pobre é todo aquele que não tem dinheiro.
Maquelina concordou. Pudera não. A definição satisfazia a todos os preceitos mencionados no Genuense; curta, clara, etc,  e t c ; e mais o nosso vereador não estudara lógica.
O homem continuou:
- E segundo é voz e fama vocês têm mundos e fundos.
Aqui principiava Maquelina a discordar, por infelicidade sua. Em única resposta mostrou os cobres que trazia.
— Eis a minha riqueza.
— Pois sim, pois sim... mas... olhe, disso não quero eu saber. É pobre ? Peça ao pároco e ao regedor um atestado, e depois,.. depois... isso é com a junta de paróquia.
— Mas...
— Adeus, minha amiga, temos conversado.
E o oráculo emudeceu.
Maquelina ao sair levava uma cara, que seria a sua justificação, se o vereador acreditasse na ciência dos fisionomistas; mas parece-me poder atestar o contrário. O bom homem chamaria tolo a Laváter, se o
tivesse conhecido.
Dali passou Maquelina a casa do pároco.
Eram horas da sesta e o reverendo dormia; único ponto de contacto que tinha com Homero. E que sono!
Bem pudera de seus paroquiais flancos elevar-se toda a bem provida árvore de Jessé, que está representada na nave direita da igreja dos Franciscanos no Porto, que ele rivalizaria em impassibilidade com
aquele venerável patriarca, que a sustenta.
Quando o foram acordar, o pastor daqueles povos resmungou, moveu-se, voltou-se para o outro lado e... continuou a dormir. À segunda tentativa, tornou a resmungar, tornou a mover-se, a voltar-se para o
outro lado e... tornou a dormir; à terceira, sentou-se na cama, esfregou os olhos, abriu a boca estrepitosamente e não deu acordo de si; pôs-se a olhar depois para o travesseiro com visíveis tentações
de se precipitar de novo nele; obstou-o a criada, que voltou a chamá-lo â vida real. Então seguiu-se o descer do leito, o evacuar dos pulmões obstruídos por um catarro crónico, o fungar de uma farta pitada, e enfim apareceu o homem em toda a magnitude da sua... gordura.
Dizem que o erguer do leito é a ocasião em que os monarcas são mais acessíveis a pedidos; o nosso abade, conquanto também cabeça coroada, não se parecia neste particular com suas majestades; pelo contrário, se havia para ele horas de mau humor eram as que se seguiam ao momento em que a inexorável força das circunstâncias o obrigava a emergir de entre os lençóis, oceano, onde voluntariamente aquele sol e mergulhava.
— Oh! oh! — bradou o indolente levita ao ver Maquelina — então foi-se o homem?
— Assim o quis Nosso Senhor.
— E vamos a saber, quanto se herdou ?
Maquelina exibiu os quatrocentos réis, que era todo o espólio em metal.
— Histórias da Maria Carocha — resmungou o abade zangado.
— É isto que digo a V. S.*: meu irmão...
— Não me venha contar tonilhos. Diga lá o que quer?
Maquelina expôs o fim da visita. O padre arregalou os olhos.
— Ui! Essa é de barbas! Eu hei-de atestar que você é pobre!
Maquelina fez um sinal afirmativo.
— Ora, santinha, ora. E para isso fez-me acordar de um sono que... que...
— Mas, sr. abade, é a verdade que V. S.* atesta, e senão diga-me onde me encontra a riqueza?
— Seu irmão há-de ter deixado somas fabulosas!
— Pois venha V. Rev.ma ver e dirá depois. Jesus, meu Deus, procurem, procurem, oxalá que achassem, meu divino Pai do Céu
— Enfim, mulher, não me meta em trabalhos; vá ter-se com o regedor, e eu, o mais que posso fazer, é confirmar lá na junta o que ele certificar.
Maquelina passou à regedoria. O regedor era taberneiro, e naquele momento o seu duplo estabelecimento estava atulhado de fregueses.
As largas mãos deste vigilador da ordem pública distribuíam simultaneamente vinho e justiça aos circunstantes, e mais amplas medidas de justiça que de vinho a acreditarmos os consumidores. A entrada de Maquelina causou sensação.
O regedor, em pleno gozo do seu funcionalismo, dignou-se interrogar a irmã do falecido, e os olhos da importante autoridade, pondo nela:
— Então que a traz por aqui, Sr.* Maquelina? — disse com voz benigna. — Não é bonito andar assim já pela rua, quando tem seu irmão morto em casa. Que há-de dizer o público ?!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Espólio do sr. Cipriano - Parte I

Júlio Dinis é um dos principais romancistas do Romantismo português. Para os próximos posts, colocarei o conto O Espólio do Sr. Cipriano. É um conto leve, divertido, inocente que retrata a inocência da ignorância. Sua publicação, primeiramente em jornal, consta agora no livro Serões da Província, uma coletânea de contos do autor. Nesses contos, assim como em seus romances, o autor descreve o campo português "em português". Pelo modo da descrição, imaginamos o sol, a relva, o vento, o resfolegamento para se chegar ao alto de cada morro, o sorriso ao observar a estrada de poeira, lá em baixo, mas não tão baixo, a alegria, o espírito leve e a saudade de não se sabe o quê. Nesse conto, porém há principalmente a inocência pura das pessoas simples.



O Espólio do Senhor Cipriano - Júlio Dinis - Parte I


Desde que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência dos factos desarraigá-la. Parece que à medida que um por um se vão quebrando os laços que a prendiam à razão e diminuindo a plausibilidade que dos espíritos sensatos a fazia ainda aceitar, mais atractivos ela ostenta à fantasia popular, sempre afeiçoada ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões, como as crianças a perseguirem as borboletas através das campinas.
Quando o povo vê fugir, por inverosímil, do campo da discussão um facto controvertido, é quanto mais se apressa a recebê-lo como dogma, a adoptá-lo com a cegueira da fé; é então que o transmite aos filhos, à maneira de um novo artigo do seu credo religioso, e olha para o que se atreve a levantar a mão iconoclasta contra esses vagos objectos do seu culto ideal como para um ímpio, digno da fulminação celeste.
De historiadores e biógrafos se ri; não há provas nem documentos que valham para lhe fazer ver as coisas diferentes de como as imaginou ; mais vezes aqueles cedem até, sacrificando a exactidão à poesia, e admitindo em seus escritos a colaboração da pena popular. Por isso nas crónicas dos tempos passados é através das lendas que se pode procurar a história. Adornada com as galas e louçainhas do maravilhoso, é que o povo se apraz de acolher a tradição. Despida às mãos do historiador austero, parece afectar-lhe tão escandalosamente a vista, como a dos mais castos monges da Tebaida as formas nuas de tentadoras aparições.
Igualmente, ao lado da biografia exacta de um indivíduo, ainda dos mais obscuros, o povo refere de ordinário outra, menos documentada talvez, porém sempre mais curiosa.Com olhar perscrutador penetra o seio das famílias a descobrir aí factos recônditos, pequenos incidentes da vida doméstica, onde, mais facilmente do que nos da vida pública, se reflectem os caracteres e as índoles.
Não julgueis que lhe basta a enumeração das batalhas, dos feitos brilhantes, dos serviços humanitários, dos actos civis do herói do dia; quer vê-lo em família, depois de despir a farda, a toga ou os arminhos, para envergar o modesto robe de chambre; aspira a devassar-lhe no modo de viver intimo e a estudar-lhe os hábitos; obriga a personagem da história a representar diante de si o papel de filho, de irmão, de amante, de esposo e de pai no drama da vida, e é então que mais interesse lhe excita, é então que aplaude; e quando lhe falecem as informações, inventa, recorre ao inesgotável tesouro da imaginação senão a alguma coisa de mais seguro. E nisto é o povo verdadeiramente admirável ! Há o que quer que é sobrenatural na maneira por que se lhe revelam às vezes segredos, sabidos apenas por duas pessoas, interessadas ambas em conservá-los ignorados ; não espera por provas, satisfaz-se já com indícios ; pronuncia-se, quando os mais prudentes hesitam, e, devemos confessá-lo, se em certos casos esta antecipação o leva ao erro, muitas vezes também, ou quase sempre, por caminhos misteriosos, o conduz a verdade.
Os boatos! Aí temos um desses problemas que desafiam toda a ciência humana. De onde partiram estas, deixem-me assim chamar-lhes, emanações subtis que aspiramos todos, os crédulos e os espíritos fortes, os ignorantes e os ilustrados, como todos contraímos a epidemia, cujo foco se desconhece?
Suscita-se ãs vezes sobre qualquer indivíduo uma opinião que se diz pública, somente porque cada qual em particular se não atreve a reconhecê-la por sua; os factos conhecidos da vida desse homem parece desmentirem-na, todas as aparências lhe são contrárias, é humanamente impossível encontrar algures os fundamentos dessa crença, nascida não se sabe onde, propagada não se sabe como; e contudo persiste. Porquê? Quem o pode dizer? É, a meu ver, um facto da ordem de outros que observa o naturalista na história dos animais. É um fenomeno de instinto.
Na aproximação do Inverno, as aves viajoras reúnem-se em bandos para desertarem das paragens que parecia oferecerem-lhes ainda por algum tempo os últimos calores de uma estação favorável. Que indício lhes revelou o perigo ? Quem lhes apontou o caminho de mais amenas regiões ? O instinto, respondem os filósofos; e a mesma lesposta obtereis, se o interrogardes sobre tantos outros maravilhosos actos que nos surpreendem, nos costumes de certas famílias zoológicas.
Concedam, pois, também ao povo instintos, instintos que o fazem adivinhar factos ocultos, como a ave pressente o Inverno, instintos sobre os quais se elevam juízos, que a razão prudente repele ao princípio,
mas que tantas vezes o futuro vem confirmar mais tarde.
O povo tem uma fisiologia especial, que ainda está por escrever; concurso de individualidades tão heterogéneas, dá uma resultante, cuja noção não nos pode vir só do conhecimento isolado dos componentes.
Quem o fosse estudar por uma análise minuciosa, quem, por um quase processo anatómico o decompusesse em elementos, para um a um os examinar com escrupuloso cuidado, não o teria compreendido; não seria mais feliz do que se procurasse resolver o problema da vida dissecando um cadáver, e aplicando o microscópio a cada fibra de seus tecidos e órgãos. Onde os homens se reúnem em povo, uma influência oculta se lhes associa: uma como inteligência comum, daí os enigmas da multidão.
A solução destes enigmas não a procurem portanto nos indivíduos, que neles não reside; está na entidade colectiva; assim como o modo de reagir do sal neutro não se encontra no ácido, nem na base,
seus elementos únicos; é o resultado da combinação. Sirvam estas reflexões de prefácio ao caso modesto e obscuro que vamos narrar e que as exemplifica.
Por uma das tais vozes interiores, que entretém o povo dos mais recatados mistérios da vida de família, como se linguareiro duende lhos andasse segredando ao ouvido, era que em uma pequena cidade da
província do Minho, havia muito se tornara opinião geral que Cipriano Martins, octogenário que vivia miseravelmente na mais estreita e mal esclarecida rua do menos limpo e povoado bairro daquela já de si não
muito apetecível terra, não obstante tais aparências pouco inculcadoras, possuía fabulosas riquezas, e era devorado pela mais sórdida e inqualificável sovinice.
Nada podia modificar a opinião pública a este respeito; era absoluta, geral, intransigente, incapaz de vacilar, estável no seu posto, que defendia heroicamente contra o ataque combinado de todas as aparências ; sublime de pertinácia, admirável de resistência.
Nunca experimentara destas oscilações vulgares nas mais enraizadas crenças; nunca passara por as alternativas de desfavor que até as ideias mais generosas sofrem no correr das épocas, nunca; nem
quando os aguçados cotovelos do velho Cipriano rompiam escandalosamente através das mangas coçadas e beneméritas do seu casacão de saragoça; nem quando aos olhos dos comentadores se patenteavam as laceradas plantas... das botas colossais de que o nosso Harpagão usava, ou as numerosas cicatrizes — vestígios honrosos de longos anos de assinalados serviços — que lhe crivavam as calças, onde cada fábrica de tecidos tinha um espécime de seus produtos combinados todos em artístico mosaico.
Cada vez que o inofensivo tema dos longos e pouco misericordiosos comentários populares, entrava em uma loja a comprar os parcos materiais de sua diária alimentação e estendia a mão para receber os trocos miúdos, aos quais, como outro qualquer, tinha direitos incontestáveis e garantidos por lei, havia nos circunstantes certo resfolegar de mofa que, ao voltar costas o velho, degenerava em bem significativas e nada equívocas exclamações.
— Olhem o unhas de fome!
— Sume-te, porco!
— É capaz de se enforcar por um vintém !
— Se lhe caísse um pataco ao Inferno, atirava-se lá para apanhá-lo, o tinhoso.
— Sovina!
— A pobre irmã morre à míngua por causa da mesquinhez deste tesoureiro do Diabo.
— Come duas sardinhas barrentas, e cozinha só de três em três dias para não fazer despesa em lenha! Podem crê-lo ?
— Junta, junta, para outros to gastarem!
— O peso do teu cofre é que te há-de afogar na caldeira de Pêro Botelho!
E assim por diante iam as apóstrofes, cada qual mais lisonjeira para a reputação do modesto velho, cujos nervos felizmente se não supraexcitavam com tais estímulos. Tinha uns invejáveis nervos o Sr. Cipriano! a única das suas qualidades que lhe podiam invejar as leitoras. Não há vício menos popular do que o da avareza, pela razão de serem poucos os que com ele lucram.
Assim Cipriano Martins era uma personagem antipática para os seus compatriotas.
Mas quem lhe vira o dinheiro? quem lhe descobrira a riqueza? Neste momento cada qual, interrogado à parte, encolhia os ombros, prolongava os beiços, enrugava a fronte, e respondia:
— Diz-se.
Santa palavra! salvatério das asserções arrojadas! como a consciência fica tranquila quando, após uma afirmação, cuja responsabilidade não quer, a boca oficiosa te pronuncia! Descendente em linha recta daquele traditur dos historiadores romanos, tu és, como teu ilustre avô, o melhor e mais universal excipiente, em que se administram ao público fortes doses de boatos, que ele engole de mais boamente do que quantas pílulas tem arredondado de Hipócrates para cá os dedos dos boticários ou apregoado os Holloways de todos os tempos.
Cipriano Martins tinha uma vez por ano as suas liberalidades, circunstância que, longe de amenizar a rudeza dos juízos públicos a seu respeito, antes a exacerbava; pois de facto nunca mais alto subiam as murmurações como quando em sexta-feira santa saía das algibeiras do sóbrio velho para as dos pobres da freguesia a quantia realmente importante de... cem réis em moedas de cinco. Então é que era ouvir o povo.
— Arrancou hoje cem fibras do coração.
— Tem para chorar cem dias, o velho.
— E para jejuar outros tantos.
— Se isto assim continua, aparece-nos de alguma vez o homem enforcado em sábado de Aleluia.
— Melhor, escusa o povo de queimar outro Judas.
Quando se entra na via das concessões é necessário não dar passos acanhados; sob pena de aumentar ainda mais a indisposição dos ânimos.
Consideração esta de longo alcance político, não obstante as aparências modestas que a revestem aqui.
Cipriano Martins caiu doente, e não chamou médico. A câmara, que adoptava o pensamento público sobre o estado financeiro do seu patrício, recusava inscrevê-lo no quadro dos pobres, razão pela qual o não visitou o médico de partido.
A câmara andou assisada nisto e mostrou-se convencida da seguinte verdade, saída da boca de um grande vulto político: «Quando os governos não tomam espontaneamente a iniciativa no movimento das massas, são arrastados por ela.»
Ora a câmara, que era o governo e não pouco respeitável, não tinha grande vontade de ser arrastada; um dos vereadores, mais que todos, em cuja caixa de rapé estava representado em gravura o fim trágico de Mazeppa, sentia de si para si um estremeção de grande desconforto só de ouvir o termo. Por isso, a câmara adoptou a opinião das massas,
Esta subiu ao auge da indignação, vendo Cipriano desprezar a medicina.
— Olhem o miserável a regatear às portas da morte o preço da vida!
— O homem tem razão — respondeu o barbeiro, a quem por consenso unânime fora decretado o diploma de espirituoso da terra — o homem tem razão, que bem conhece quão pouco ela lhe vale.
Este dito do ilustrado superintendente das mais respeitáveis barbas da freguesia foi repetido em todos os círculos com geral aplauso; e a reputação de aguçado satírico, de que há muito gozava o digno colega de Figaro, aumentou, se de aumento era susceptível ainda.
Cipriano Martins morreu, e então é que a curiosidade pública se pôs alerta, e, para entreter o tempo de espera, prestou ouvidos às historietas da imaginação. Esta fez o seu dever, nada deixando a desejar.
Cipriano a cerrar os olhos, e o público mais do que nunca a tomá-lo à sua conta. Discutiu-se-lhe a herança, avaliou-se-lhe a fortuna, apontaram-se os herdeiros, inventaram-se testamentos, fantasiaram-se cláusulas absurdas, anteviram-se demandas, devassaram-se esconderijos, arrombaram-se cofres, desenterraram-se riquezas monstruosas; isto tudo durante vinte e quatro horas, no fim das quais nem riquezas, nem esconderijos, nem cofres, nem herança, nem testamento, nem cláusulas e, por conseguinte, nem herdeiros nem demandas vieram justificar a geral expectativa.
Foi um desapontamento, que, a falar verdade, custou a digerir; os melhores estômagos imparam com ele e mais de uma vez foi regurgitado. E toda aquela boa gente se punha então a ruminá-lo de seu vagar, sem que o fizesse mais digerível.
A irmã do morto, que de si para si nunca nutrira grandes esperanças, porque nunca tivera fé nas riquezas do mano, apresentou-se nesse mesmo dia, chorando, em casa do administrador a pedir-lhe que providenciasse para se fazer o enterro do velho Cipriano, pois, nas gavetas, só lhe encontrara uns cobres, que não bastavam para as despesas exigidas pela solenidade.
O administrador viera céptico de Coimbra, doença que apanhara nas margens do Mondego e que pelos modos se lhe tornara crónica no concelho, que, como diziam os jornais da época, tão dignamente administrava. Por isso olhou para a pobre Maquelina — pois era esse o nome dela — através dos vidros da luneta pendente, ao mesmo tempo que o mais incrédulo sorriso, que o espelho lhe aconselhara, vinha
encrespar-lhe espirituosamente o lábio superior. Ao desbaste de crenças, que este magistrado sofrera, tinha por felicidade sobrevivido entre poucas a crença no espelho, um dos principais conselheiros a quem devia a manutenção da dignidade administrativa.
— Com que então só uns cobritos, diz vossemecê, hem?
O bacharel fizera a descoberta de que este hem lhe dava às palavras certa melodia de bom gosto, e por isso o adoptara.
— Eis tudo quanto possuo — respondeu Maquelina, mostrando em patacos um cruzado, quando muito — V. S.ª bem vê — continuou — meu irmão tinha o seu pequeno negócio de socos, há muito em decadência; ele, coitado, estava velho e não queria oficiais... e agora com a moléstia... por mais economias que a gente fizesse, sempre eram despesas certas e nenhum dinheiro a apurar.
O administrador teve aqui um movimento de lábios, expressivo de inveterada descrença; e como para mais depressa se livrar do contacto de um ser humano, respondeu secamente:
— Faça, se quiser, um requerimento à câmara, porque seu irmão não figura no quadro dos pobres.
E mais não disse.

domingo, 18 de novembro de 2012

O sol é grande, caem co'a calma as aves

Francisco Sá de Miranda foi o introdutor do soneto na forma clássica além dos versos decassílabos em Portugal. Depois de ter estudado em Lisboa, viajou para a Itália onde teve contato com inúmeras personalidades literárias do tempo e de onde trouxe a nova estética de poesia em 1526. Há entre ele e Gil Vicente uma rixa famosa da qual não se sabe bem os motivos. Embora ele tenha sido à sua época menos apreciado do que o rival, é certo que foi o grande influenciador de Camões e foi sua moda literária que se estabeleceu e continuou na língua portuguesa.



O sol é grande, caem co'a calma as aves - Sá de Miranda



O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-me-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ecos de Paris



Agora coloco a metade do primeiro capítulo de uma das obras do maior expoente realista português: Eça de Queiroz. O autor, que vivia em Paris, teve grande influência dos escritores franceses da época. Alguns de seus romances, como a trilogia "O crime do padre Amaro", "Os Maias" e "O primo Basílio" seguem a estrutura do romance realista francês. E outros, como "A cidade e as Serras" tem mais o estilo próprio do autor. No entanto, mesmo os primeiros têm características que fogem um pouco à cartilha através de personagens não planos entre outras. Ecos de Paris fala ao mesmo tempo da cidade e da vida social.
Essa introdução no primeiro capítulo conta a descaracterização cultural para imitar as revoluções sociais que aconteciam em Paris. Caminho esse que desagrada o autor e ao fim do qual ele prevê o total desinteresse pelas cópias em detrimento de Paris e Londres.



Ecos de Paris - Eça de Queiroz



I
PARIS E LONDRES


Eu não direi, como Lord Beaconsfield, que «no mundo só há de verdadeiramente interessante Paris e Londres, e todo o resto é paisagem». É realmente difícil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou ver apenas no movimento social da Alemanha um fresco regato que vai cantando por entre as relvas altas.
Não se pode negar, porém, que a multidão contemporânea tende para esta opinião do romanesco autor de Tancredo e da guerra do Afeganistão: nada vê no universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa coisa cintilante e vaga que pode compreender desde as criações da arte até aos  menus  dos restaurantes, desde o espírito das gazetas até ao luxo das librés – e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se dela, onde ela é mais original, mais complexa, mais rica, mais pitoresca, mais episódica, em Paris e em Londres: ao resto da Terra pede apenas cenários de Natureza, relíquias de arte, trajes e arquitecturas...
... Em Roma contempla os ornamentos do passado – o Coliseu e o papa; em Madrid interessam-no só os Velásquez e os touros; ninguém viaja na Suíça para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar diante dos Alpes.
E assim, para a turba humana, mais impressionável que critica, o mundo aparece como uma decoração armada em tomo de Paris e Londres, uma curiosidade cenográfica que se olha um momento, pedindo-se logo toda a atenção na tragicomédia social que palpita ao centro.
Isto  é uma superstição. Mas se realmente, o mundo fosse apenas uma paisagem acessória  – a devoção burguesa por Paris e Londres, residências privilegiadas da humanidade criadora, seria justificável: porque, na verdade, o interesse do universo está todo na vida, na sua luta, na sua paixão, no seu cerimonial, no seu ideal e no seu mal. O Sol, nascendo por trás das Pirâmides, sobre o fulvo deserto da Líbia, forma um prodigioso cenário; o vale do Caos, nos Pirenéus, é de uma grandeza exuberante – mas todos estes espectáculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comédia de ciúmes, passada num quinto andar. Que há, com efeito, de comum entre mim e o Monte Branco? Enquanto que as alegrias amorosas do meu vizinho, ou os prantos do seu luto, são como a consciência visível das minhas próprias sensações.
O grande Dickens, diante dos Alpes ou dos palácios de Veneza, punha-se a pensar com saudades nas tristes ruas de Londres, num rumor de fim de dia e no prazer de surpreender as expressões de ansiedade, triunfo ou dor, nas faces dos que passam, alumiados pelo gás vivo das lojas. E que o melhor espectáculo para o homem  – será sempre o próprio homem.
Se sobre a Terra só houvesse fachadas de catedrais ou vulcões flamejantes, a Terra parecer-nos-ia tão insípida como a Lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a própria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as  águas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o vale – a paisagem é intolerável, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença de um peito, de um coração vivo.
Mas a verdade  é que fora de Paris e Londres há também humanidade. Sampetersburgo não forma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou Sampetersburgo como um mero acessório da decoração, como aquele arabezinho diminuto que os fotógrafos colocam sempre à base das ruínas de Palmira, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de púrpura que nos quadros do século XVII ornam as paisagens ideais.
O que essa humanidade de província faz, diz, sofre ou goza – é-lhe indiferente. Não é a ela que vai ver, se visita os lugares que ela habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada  é algum monumento, algum panorama  –- a paisagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Sintra, a Alemanha é o Reno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois dele, o que estraga a beleza de Lisboa  é a
presença do Lisboeta  – como a mim o que me estraga a Alemanha  é a presença do Prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade  – a de Paris e de Londres.
Mas, dentro em pouco, nem ruínas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, nas maneiras e nos edifícios, desde os regulamentos de polícia até à vitrina dos joalheiros  – a dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, há cópias do Mabile, e os ulemás esquecem as metáforas gentis dos poetas persas, para repetir os
ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi, ao penetrar as muralhas de Jerusalém foi o cancã da Bela Helena, e saiu da habitação de um rabi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dois velhos colarinhos de papel,  modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetizavam suficientemente aquela
riba sagrada.
O mundo vai-se tornando uma contrafacção universal de Bulevar e da Regent Street. E o modelo das duas cidades  é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginaliza, e se perde sob a forma francesa ou britânica, mais se considera a si mesma civilizada e merecedora dos aplausos do Times. O Japonês julga-se, na escala dos seres, muito superior ao Chinês, porque em Yedo já o indígena se penteia como o tenor Capoul e lê Edmond About no original; enquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pequim, ainda vai no rabicho e em Confúcio. E, ainda assim, nas margens do Amor já há fábricas de tecidos de algodão, como em Manchester.
Positivamente, inclino também para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do universo está em Paris e em Londres: tudo mais é má imitação de província. Por isso que a curiosidade pública  é impelida para lá – dando ao resto do mundo apenas aquele olhar rápido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paisagem ou se perfilam linhas de um pórtico.
É por isso que ninguém que tenha o orgulho de se considerar ser racional prescinde de se informar diariamente de tudo  que se passa em Paris ou em Londres, desde as revoluções até às toilettes, desde os poemas até aos escândalos.
O desejo mais natural do homem é saber o que vai no seu bairro e em Paris.
Que importa o que sucede na  Ásia Central, onde os Russos se batem, ou  na Austrália, onde há crise ministerial? O que se quer saber é o que fez ontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.
E com razão: a Ásia Central e a Austrália não ensinam nada, e Paris e Londres ensinam tudo.
Tendo assim sacrificado suficientemente à regra, que quer que todo o escritor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de frases genéricas armadas em pórtico – creio que devo começar esta crónica falando hoje de Paris, capital dos povos e pátria genuína de Mr. Prudhomme...

sábado, 3 de novembro de 2012

Alma Minha Gentil, que te Partiste


Apesar de controverso, muitos julgam Camões o maior poeta da língua portuguesa. Embora sua imortalidade seja devida sobretudo ao seu poema épico, os Lusíadas, recebe um lugar importante em sua obra a poesia lírica. Enquanto na primeira há o otimismo com relação ao futuro e o orgulho das glórias do passado, na segunda há a melancolia e muitas vezes a saudade, exclusividade nossa. O sentimento intraduzível, o estar sozinho entre as gentes, uma das bases do tripé da alma portuguesa, aliada à coragem e à amizade.



Alma Minha Gentil, que te Partiste - Luís Vaz de Camões


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

domingo, 28 de outubro de 2012

Nossas Madres Vam a Sam Simon


Entre a aurora da literatura portuguesa certamente as cantigas de amor e de amigo tem o primeiro lugar. Era uma das bases, ainda antes de ser trazida a forma clássica italiana de soneto. Existem muitas cantigas certamente mais importantes do que a seguinte. Escolhi essa no entanto por ser uma cantiga de amigo, ou seja, com o eu-lírico feminino, onde o refrão é bem claro e bem colocado e retrata cenas da vida cotidiana ao invés do amor cortês de sonho das cantigas de amor. Além disso, por ser em galego-português, a maioria delas é de difícil compreensão. Essa é bem clara, tanto no sentido geral como nas palavras antigas.


Nossas Madres Vam a Sam Simon - Pero Viviães


Pois nossas madres vam a Sam Simom
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos d'andar
com nossas madres, e elas entom
       queimem candeas por nós e por si,
       e nós, meninhas, bailaremos i.
 
Nossos amigos todos lá irám
por nos veer e andaremos nós
bailand'ant'eles fremosas em cós;
e nossas madres, pois que alá vam,
       queimem candeas por nós e por si.
       e nós, meninhas, bailaremos i.
 
Nossos amigos irám por cousir
como bailamos e podem veer
bailar [i] moças de bom parecer;
e nossas madres, pois lá querem ir,
       queimem candeas por nós e por si,
       e nós, meninhas, bailaremos i.

domingo, 7 de outubro de 2012

A Morte do Conde dos Arcos


A literatura portuguesa é sempre mais triste do que a brasileira. A saudade, exclusividade da nossa língua, é um lugar comum na maioria das obras. A obra a seguir não é propriamente de saudade. Mas deixa nos olhos um gosto de saudade. De "tudo o que passou", de "passado lindo sem futuro". O texto a seguir é de Rabelo da Silva, em seu "Contos e Lendas", um trecho da "Última Corrida de Touros em Salvaterra"




A Morte do Conde dos Arcos



Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as músicas. Chegou El-Rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo e vê-se ondear um oceano de cabeças e de plumas. Na praça ressoam brava alegria as trombetas, as charamelas e os timbales. Aparecem os cavaleiros, fidalgos distintos todos, com o conto das lanças nos estribos e os brasões bordados no veludo das gualdrapas dos cavalos. As plumas dos chapéus debruçam-se em matizados cocares, e as espadas, em bainhas lavradas, pendem de soberbos talins. Os capinhas e forcados vestem com garbo à castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o entusiasmo.

O Conde dos Arcos, entre os cavaleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado à moda da corte de Luís XV, de veludo preto, fazia realçar a elegância do corpo. Na gola da capa e no corpete, sobressaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos, as ligas bordadas deixavam escapar com artifício os tufos de cambraieta alvíssima. O Conde não excedia a estatura ordinária: mas, esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pálidas de mais, porém animadas de grande expressão, e o fulgor das pupilas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão recobrado, que se tornava irresistível. Filho do Marquês de Marialva e discípulo querido de seu pai, do melhor cavaleiro de Portugal e talvez da Europa, a cavalo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Ele e o corcel, como que ajustados em uma só peça, realizavam a imagem do centauro antigo.

A bizarria com que percorreu a praça, domando, sem esforço, o fogoso corcel, arrancou prolongados e repetidos aplausos. Na terceira volta, obrigando o cavalo a ajoelhar-se diante de um camarote, fez que uma dama escondesse, torvada, no lenço as rosas vivíssimas do rosto, que decerto descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos rápidos como o faiscar de relâmpago pudesse alguém adivinhar o que só dois sabiam.

El-Rei, quando o mancebo o cumprimentou pela última vez, sorriu-se e disse, voltando-se:

- Porque virá o Conde quase de luto à festa?

Principiou o combate.

Não é nosso propósito descrever uma corrida de touros. Todos têm assistido a elas e sabem de memória o que o espectáculo oferece de notável. Diremos só que a raça dos bois era apurada, e que os touros se corriam desembolados, à espanhola. Nada diminuía, portanto, as probabilidades do perigo e a poesia da luta.

Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um touro preto investiu com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indício de grande ligeireza, e movimentos rápidos e bruscos, sinal de força prodigiosa. Apenas tocara o centro da praça, estacou como deslumbrado, sacudiu a fronte e, escarvando a terra impaciente, soltou um mugido feroz, no meio do silêncio que sucedeu às palmas e gritos dos espectadores. Dentro em pouco, os capinhas, salvando a pulos as trincheiras, fugiam à velocidade espantosa do animal, e dois ou três cavalos expirantes denunciavam a sua fúria.

Nenhum dos cavaleiros se atreveu a sair contra ele. Fez-se uma pausa. O touro pisava a arena, ameaçador e parecia desafiar em vão um contendor. De repente, viu-se o Conde dos Arcos, firme na sela, provocar o ímpeto da fera, e a hástea flexível do rojão ranger e estalar, embebendo o ferro no pescoço musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma aclamação imensa do anfiteatro inteiro e as vozes triunfais das trombetas e charamelas encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavalo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair uma rosa, e o Conde, curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flor do chão sem afrouxar a carreira, levou-a aos lábios e meteu-a no peito. Investindo depois com o touro, tornado imóvel com a raiva concentrada, rodeou-o estreitando em volta dele os círculos, até chegar quase a pôr-lhe a mão na anca.

O mancebo desprezava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arrepiar a testa do touro com a ponta da lança. Precipitou-se então o animal com fúria cega e irresistível. O cavalo baqueou, traspassado, e o cavaleiro, ferido na perna, não pode levantar-se. Voltando sobre ele, o boi enraivecido arremessou-o aos ares, esperou-lhe a queda nas armas e não se arredou senão quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadáver.

Este doloroso lance ocorreu com a velocidade do raio. Estava já consumada a tragédia, e não havia expirado ainda o eco dos últimos aplausos.

De repente, um silêncio em que se englobavam milhares de agonias emudeceu o circo. Rei, vassalos e damas, meio corpo fora dos camarotes, fitavam a praça sem respirar e erguiam logo depois a vista ao céu, como para seguir a alma que para lá voava, envolta em sangue.

Quando o mancebo, dobado no ar, exalava a vida antes de tocar o chão, um gemido agudo, composto de soluços e choro, caiu sobre o cadáver como uma lágrima de fogo. Uma dama desmaiada nos braços de outras senhoras soltara aquele grito estridente, derradeiro ai do coração ao rebentar no peito.

El-Rei D. José, com as mãos no rosto, parecia petrificado.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ah, um Soneto...

Para inaugurar a literatura portuguesa, eis um poema de um dos maiores - na minha opinião o mais genial - poeta de língua portuguesa, Fernando Pessoa. Acho que pode-se até dizer que Pessoa é o maior poeta da escola modernista. Há muita coisa a dizer sobre ele. Desde sua primeira obra e obra prima, Mensagem, poema que, espantosamente ganhou segundo lugar em um concurso, até as enormes obras de seus heterônimos, como o soneto a seguir, escrito sob o heterônimo de Álvaro de Campos. O heterônimo, que o próprio criador dizia não ser ele mesmo mas outra pessoa nele, e com quem ele conversava no espelho, juntamente com Alberto Caeiro e Ricardo Reis, outros heterônimos. Esses três são os mais famosos dentre as criações de Fernando Pessoa. Para eles, o poeta tinha até escrito biografias e cada um tinha uma forma diferente de escrever, bem diferentes entre si e diferentes do estilo de Fernando Pessoa, ele mesmo. Álvaro de Campos era engenheiro que tinha estudado e vivido na Inglaterra, além de ter feito várias viagens descritas por ele mesmo. "Ah, um soneto..." fala ao mesmo tempo do coração e do próprio ato de se fazer um soneto. É um dos poemas mais emblemáticos tanto do heterônimo quanto de Fernando Pessoa.

Ah, um Soneto...


Meu coração é um almirante louco 
que abandonou a profissão do mar 
e que a vai relembrando pouco a pouco 
em casa a passear, a passear... 

No movimento (eu mesmo me desloco 
nesta cadeira, só de o imaginar) 
o mar abandonado fica em foco 
nos músculos cansados de parar. 

Há saudades nas pernas e nos braços. 
Há saudades no cérebro por fora. 
Há grandes raivas feitas de cansaços. 

Mas — esta é boa! — era do coração 
que eu falava... e onde diabo estou eu agora 
com almirante em vez de sensação? ...