quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Rua de Rimas

O português é, como se diz, uma língua poética por natureza. Em Guilherme de Almeida, o poeta paulista tem em suas inúmeras obras poesias para e do cotidiano da primeira metade do século XX brasileiro. O poeta modernista, apesar de não ser um grande nome do período tem em suas obras toda a poesia da simplicidade. Os versos a seguir, publicados primeiramente no jornal estão entre os preferidos do autor, cuja obra mais conhecida é a Canção do Expedicionário. Figura dita simpática por quem o conheceu, foi dos grandes promotores do período ufanista da metrópole de São Paulo, a primeira metade do século XX.


A Rua de Rimas - Guilherme de Almeida


A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE…

domingo, 18 de novembro de 2012

O sol é grande, caem co'a calma as aves

Francisco Sá de Miranda foi o introdutor do soneto na forma clássica além dos versos decassílabos em Portugal. Depois de ter estudado em Lisboa, viajou para a Itália onde teve contato com inúmeras personalidades literárias do tempo e de onde trouxe a nova estética de poesia em 1526. Há entre ele e Gil Vicente uma rixa famosa da qual não se sabe bem os motivos. Embora ele tenha sido à sua época menos apreciado do que o rival, é certo que foi o grande influenciador de Camões e foi sua moda literária que se estabeleceu e continuou na língua portuguesa.



O sol é grande, caem co'a calma as aves - Sá de Miranda



O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-me-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O tempo passa? Não passa


Carlos Drummond de Andrade foi o último grande poeta brasileiro. Ou simplesmente o último poeta brasileiro. Foi o grande expoente da terceira geração do modernismo e morreu em 1987. Seu poema mais famoso, "no meio do caminho tinha uma pedra" não é nem o mais bonito, nem o mais poético, nem o mais filosófico, nem o mais profundo. Acho que é o mais fácil de decorar, o mais clichê, talvez. O poema a seguir também não é o mais nada. É simplesmente um punhado de versos de amor bonitinhos, leves e quase ingênuos. Bom para ler e mais ainda para se surpreender no meio dos pesados e/ou filosóficos poemas do autor.



O tempo passa? Não passa - Carlos Drummond de Andrade


O tempo passa ? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Juca Pirama - Parte II


Ao lermos o poema inteiro, vemos as diferenças de ritmos e cadencias de cada parte. Como cada parte expressa uma situação, há um tipo de ritmo para cada uma. A primeira e última partes são festas dos Timbiras, assim, a cadência é a mesma. E só no fim, descobre-se o eu-lírico da poesia, que é como que narrada em primeira pessoa por um velho timbira, em outra festa, mas sempre enquanto ele "pratica d'outrora". Também a maldição do pai mostra a toada triste e a história contada pelo moço tupi entrecortada e ofegante pelo temor. Vale a pena uma leitura integral para se reparar não só na história mas na relação com os ritmos de cada parte do poema.



Juca Pirama - Gonçalves Dias - Parte II



VI

- Filho meu, onde estás? 
- Ao vosso lado; 
Aqui vos trago provisões; tomai-as, 
As vossas forças restaurai perdidas, 
E a caminho, e já! 
- Tardaste muito! 
Não era nado o sol, quando partiste, 
E frouxo o seu calor já sinto agora! 
- Sim demorei-me a divagar sem rumo, 
Perdi-me nestas matas intrincadas, 
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo; 
Convém partir, e já! 
- Que novos males 
Nos resta de sofrer? - que novas dores, 
Que outro fado pior Tupã nos guarda? 
- As setas da aflição já se esgotaram, 
Nem para novo golpe espaço intacto 
Em nossos corpos resta. 
- Mas tu tremes! 
- Talvez do afã da caça.... 
- Oh filho caro! 
Um quê misterioso aqui me fala, 
Aqui no coração; piedosa fraude 
Será por certo, que não mentes nunca! 
Não conheces temor, e agora temes? 
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige, 
E contra o seu querer não valem brios. 
Partamos!... - 
E com mão trêmula, incerta 
Procura o filho, tacteando as trevas 
Da sua noite lúgubre e medonha. 
Sentindo o acre odor das frescas tintas, 
Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente... 
Do filho os membros gélidos apalpa, 
E a dolorosa maciez das plumas 
Conhece estremecendo: - foge, volta, 
Encontra sob as mãos o duro crânio, 
Despido então do natural ornato!... 
Recua aflito e pávido, cobrindo 
Às mãos ambas os olhos fulminados, 
Como que teme ainda o triste velho 
De ver, não mais cruel, porém mais clara, 
Daquele exício grande a imagem viva 
Ante os olhos do corpo afigurada. 
Não era que a verdade conhecesse 
Inteira e tão cruel qual tinha sido; 
Mas que funesto azar correra o filho, 
Ele o via; ele o tinha ali presente; 
E era de repetir-se a cada instante. 
A dor passada, a previsão futura 
E o presente tão negro, ali os tinha; 
Ali no coração se concentrava, 
Era num ponto só, mas era a morte!

- Tu prisioneiro, tu? 
- Vós o dissestes. 
- Dos índios? 
- Sim. 
- De que nação? 
- Timbiras. 
- E a muçurana funeral rompeste, 
Dos falsos manitôs quebrastes maça... 
- Nada fiz... aqui estou. 
- Nada! - 
Emudecem; 
Curto instante depois prossegue o velho: 
- Tu és valente, bem o sei; confessa, 
Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo! 
- Nada fiz; mas souberam da existência 
De um pobre velho, que em mim só vivia.... 
- E depois?... 
- Eis-me aqui. 
- Fica essa taba?

- Na direção do sol, quando transmonta. 
- Longe? 
- Não muito. 
- Tens razão: partamos. 
- E quereis ir?... 
- Na direção do acaso.


VII

"Por amor de um triste velho, 
Que ao termo fatal já chega, 
Vós, guerreiros, concedestes 
A vida a um prisioneiro. 
Ação tão nobre vos honra, 
Nem tão alta cortesia 
Vi eu jamais praticada 
Entre os Tupis, - e mas foram 
Senhores em gentileza.

"Eu porém nunca vencido, 
Nem nos combates por armas, 
Nem por nobreza nos atos; 
Aqui venho, e o filho trago. 
Vós o dizeis prisioneiro, 
Seja assim como dizeis; 
Mandai vir a lenha, o fogo, 
A maça do sacrifício 
E a muçurana ligeira: 
Em tudo o rito se cumpra! 
E quando eu for só na terra, 
Certo acharei entre os vossos, 
Que tão gentis se revelam, 
Alguém que meus passos guie; 
Alguém, que vendo o meu peito 
Coberto de cicatrizes, 
Tomando a vez de meu filho, 
De haver-me por se ufane!" 
Mas o chefe dos Timbiras, 
Os sobrolhos encrespando, 
Ao velho Tupi guerreiro 
Responde com tôrvo acento:

- Nada farei do que dizes: 
É teu filho imbele e fraco! 
Aviltaria o triunfo 
Da mais guerreira das tribos 
Derramar seu ignóbil sangue: 
Ele chorou de cobarde; 
Nós outros, fortes Timbiras, 
Só de heróis fazemos pasto. -

Do velho Tupi guerreiro 
A surda voz na garganta 
Faz ouvir uns sons confusos, 
Como os rugidos de um tigre, 
Que pouco a pouco se assanha!


VIII

"Tu choraste em presença da morte? 
Na presença de estranhos choraste? 
Não descende o cobarde do forte; 
Pois choraste, meu filho não és! 
Possas tu, descendente maldito 
De uma tribo de nobres guerreiros, 
Implorando cruéis forasteiros, 
Seres presa de via Aimorés.

"Possas tu, isolado na terra, 
Sem arrimo e sem pátria vagando, 
Rejeitado da morte na guerra, 
Rejeitado dos homens na paz, 
Ser das gentes o espectro execrado; 
Não encontres amor nas mulheres, 
Teus amigos, se amigos tiveres, 
Tenham alma inconstante e falaz!

"Não encontres doçura no dia, 
Nem as cores da aurora te ameiguem, 
E entre as larvas da noite sombria 
Nunca possas descanso gozar: 
Não encontres um tronco, uma pedra, 
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos, 
Padecendo os maiores tormentos, 
Onde possas a fronte pousar.

"Que a teus passos a relva se torre; 
Murchem prados, a flor desfaleça, 
E o regato que límpido corre, 
Mais te acenda o vesano furor; 
Suas águas depressa se tornem, 
Ao contacto dos lábios sedentos, 
Lago impuro de vermes nojentos, 
Donde fujas com asco e terror!

"Sempre o céu, como um teto incendido, 
Creste e punja teus membros malditos 
E oceano de pó denegrido 
Seja a terra ao ignavo tupi! 
Miserável, faminto, sedento, 
Manitôs lhe não falem nos sonhos, 
E do horror os espectros medonhos 
Traga sempre o cobarde após si.

"Um amigo não tenhas piedoso 
Que o teu corpo na terra embalsame, 
Pondo em vaso d’argila cuidoso 
Arco e frecha e tacape a teus pés! 
Sê maldito, e sozinho na terra; 
Pois que a tanta vileza chegaste, 
Que em presença da morte choraste, 
Tu, cobarde, meu filho não és."


IX

Isto dizendo, o miserando velho 
A quem Tupã tamanha dor, tal fado 
Já nos confins da vida reservada, 
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias 
Da sua noite escura as densas trevas 
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára! 
O grito que escutou é voz do filho, 
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes 
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma! 
- Esse momento só vale a pagar-lhe 
Os tão compridos trances, as angústias, 
Que o frio coração lhe atormentaram

De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra. 
Ele que em tanta dor se contivera, 
Tomado pelo súbito contraste, 
Desfaz-se agora em pranto copioso, 
Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem, 
Gritos, imprecações profundas soam, 
Emaranhada a multidão braveja, 
Revolve-se, enovela-se confusa, 
E mais revolta em mor furor se acende. 
E os sons dos golpes que incessantes fervem, 
Vozes, gemidos, estertor de morte 
Vão longe pelas ermas serranias 
Da humana tempestade propagando 
Quantas vagas de povo enfurecido 
Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo 
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória, 
Aturado labor de tantos anos, 
Derradeiro brasão da raça extinta, 
De um jacto e por um só se aniquilasse.

- Basta! Clama o chefe dos Timbiras, 
- Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, 
E para o sacrifício é mister forças. -

O guerreiro parou, caiu nos braços 
Do velho pai, que o cinge contra o peito, 
Com lágrimas de júbilo bradando: 
"Este, sim, que é meu filho muito amado!

"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, 
"Corram livres as lágrimas que choro, 
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."


X

Um velho Timbira, coberto de glória, 
Guardou a memória 
Do moço guerreiro, do velho Tupi! 
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!

"Eu vi o brioso no largo terreiro 
Cantar prisioneiro 
Seu canto de morte, que nunca esqueci: 
Valente, como era, chorou sem ter pejo; 
Parece que o vejo, 
Que o tenho nest’hora diante de mi.

"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo! 
Pois não, era um bravo; 
Valente e brioso, como ele, não vi! 
E à fé que vos digo: parece-me encanto 
Que quem chorou tanto, 
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

Assim o Timbira, coberto de glória, 
Guardava a memória 
Do moço guerreiro, do velho Tupi. 
E à noite nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!"

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Juca Pirama - Parte I



Embora todos saibamos a inverossimilhança do ideal de índio narrada por Gonçalves Dias e o abismo de diferença entre o tupi e timbiras representados e os verdadeiros, não se pode deixar de apreciar a excelente poesia. Juca Pirama é o poema épico brasileiro. Ou o épico índio. Mostra um índio que representa uma nação, ou antes todas as nações de índios. O herói no entanto passa por momentos de desonra que o elevam ainda mais nos momentos de honra e glória. Além disso é um guerreiro com sentimentos. A única coisa que o faz vacilar ante a morte é o amor pelo pai. E isso o faz ainda mais heróico.



Juca Pirama - Gonçalves Dias - Parte I



I-Juca Pirama

No meio das tabas de amenos verdores, 
Cercadas de troncos - cobertos de flores, 
Alteiam-se os tetos d’altiva nação; 
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, 
Temíveis na guerra, que em densas coortes 
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória, 
Já prélios incitam, já cantam vitória, 
Já meigos atendem à voz do cantor: 
São todos Timbiras, guerreiros valentes! 
Seu nome lá voa na boca das gentes, 
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, 
As armas quebrando, lançando-as ao rio, 
O incenso aspiraram dos seus maracás: 
Medrosos das guerras que os fortes acendem, 
Custosos tributos ignavos lá rendem, 
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro, 
Onde ora se aduna o concílio guerreiro 
Da tribo senhora, das tribos servis: 
Os velhos sentados praticam d’outrora, 
E os moços inquietos, que a festa enamora, 
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto, 
Sua tribo não diz: - de um povo remoto 
Descende por certo - dum povo gentil; 
Assim lá na Grécia ao escravo insulano 
Tornavam distinto do vil muçulmano 
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro 
Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro 
Assola-se o teto, que o teve em prisão; 
Convidam-se as tribos dos seus arredores, 
Cuidosos se incubem do vaso das cores, 
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira 
Entesa-se a corda da embira ligeira, 
Adorna-se a maça com penas gentis: 
A custo, entre as vagas do povo da aldeia 
Caminha o Timbira, que a turba rodeia, 
Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança, 
Afeitas ao rito da bárbara usança, 
índio já querem cativo acabar: 
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, 
Brilhante enduape no corpo lhe cingem, 
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,


II

Em fundos vasos d’alvacenta argila 
Ferve o cauim; 
Enchem-se as copas, o prazer começa, 
Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam, 
Sentado está, 
O prisioneiro, que outro sol no ocaso 
Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo, 
Mostra-lhe o fim 
Da vida escura, que será mais breve 
Do que o festim!

Contudo os olhos d’ignóbil pranto 
Secos estão; 
Mudos os lábios não descerram queixas 
Do coração.

Mas um martírio , que encobrir não pode, 
Em rugas faz 
A mentirosa placidez do rosto 
Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta 
No passo horrendo? 
Honra das tabas que nascer te viram, 
Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes 
Revive o forte, 
Que soube ufano contrastar os medos 
Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, 
Lá murcha e pende: 
Somente ao tronco, que devassa os ares, 
O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse, 
Como viveu; 
E o caçador que o avistou prostrado 
Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes 
Revive o forte, 
Que soube ufano contrastar os medos 
Da fria morte.


III

Em larga roda de novéis guerreiros 
Ledo caminha o festival Timbira, 
A quem do sacrifício cabe as honras, 
Na fronte o canitar sacode em ondas, 
O enduape na cinta se embalança, 
Na destra mão sopesa a iverapeme, 
Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo 
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra, 
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, 
Como que por feitiço não sabido 
Encantadas ali as almas grandes 
Dos vencidos Tapuias, inda chorem 
Serem glória e brasão d’imigos feros.

"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro; 
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, 
"As nossas matas devassaste ousado, 
"Morrerás morte vil da mão de um forte."

Vem a terreiro o mísero contrário; 
Do colo à cinta a muçurana desce: 
"Dize-nos quem és, teus feitos canta, 
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa 
O índio, que ao redor derrama os olhos, 
Com triste voz que os ânimos comove.


IV

Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi: 
Sou filho das selvas, 
Nas selvas cresci; 
Guerreiros, descendo 
Da tribo tupi.

Da tribo pujante, 
Que agora anda errante 
Por fado inconstante, 
Guerreiros, nasci; 
Sou bravo, sou forte, 
Sou filho do Norte; 
Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas, 
De tribos imigas, 
E as duras fadigas 
Da guerra provei; 
Nas ondas mendaces 
Senti pelas faces 
Os silvos fugaces 
Dos ventos que amei.

Andei longes terras 
Lidei cruas guerras, 
Vaguei pelas serras 
Dos vis Aimoréis; 
Vi lutas de bravos, 
Vi fortes - escravos! 
De estranhos ignavos 
Calcados aos pés.

E os campos talados, 
E os arcos quebrados, 
E os piagas coitados 
Já sem maracás; 
E os meigos cantores, 
Servindo a senhores, 
Que vinham traidores, 
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo, 
Meu último amigo, 
Sem lar, sem abrigo 
Caiu junto a mi! 
Com plácido rosto, 
Sereno e composto, 
O acerbo desgosto 
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado 
Já cego e quebrado, 
De penas ralado, 
Firmava-se em mi: 
Nós ambos, mesquinhos, 
Por ínvios caminhos, 
Cobertos d’espinhos 
Chegamos aqui!

O velho no entanto 
Sofrendo já tanto 
De fome e quebranto, 
Só qu’ria morrer! 
Não mais me contenho, 
Nas matas me embrenho, 
Das frechas que tenho 
Me quero valer.

Então, forasteiro, 
Caí prisioneiro 
De um troço guerreiro 
Com que me encontrei: 
O cru dessossêgo 
Do pai fraco e cego, 
Enquanto não chego 
Qual seja, - dizei!

Eu era o seu guia 
Na noite sombria, 
A só alegria 
Que Deus lhe deixou: 
Em mim se apoiava, 
Em mim se firmava, 
Em mim descansava, 
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado 
De penas ralado, 
Já cego e quebrado, 
Que resta? - Morrer. 
Enquanto descreve 
O giro tão breve 
Da vida que teve, 
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo, 
Mas forte, mas bravo, 
Serei vosso escravo: 
Aqui virei ter. 
Guerreiros, não coro 
Do pranto que choro: 
Se a vida deploro, 
Também sei morrer.


V

Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba; 
Os guerreiros murmuram: mal ouviram, 
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem! 
Brada segunda vez com voz mais alta, 
Afrouxam-se as prisões, a embira cede, 
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

Timbira, diz o índio enternecido, 
Solto apenas dos nós que o seguravam: 
És um guerreiro ilustre, um grande chefe, 
Tu que assim do meu mal te comoveste, 
Nem sofres que, transposta a natureza, 
Com olhos onde a luz já não cintila, 
Chore a morte do filho o pai cansado, 
Que somente por seu na voz conhece. 
- És livre; parte. 
- E voltarei. 
- Debalde. 
- Sim, voltarei, morto meu pai. 
- Não voltes! 
É bem feliz, se existe, em que não veja, 
Que filho tem, qual chora: és livre; parte! 
- Acaso tu supões que me acobardo, 
Que receio morrer! 
- És livre; parte! 
- Ora não partirei; quero provar-te 
Que um filho dos Tupis vive com honra, 
E com honra maior, se acaso o vencem, 
Da morte o passo glorioso afronta.

- Mentiste, que um Tupi não chora nunca, 
E tu choraste!... parte; não queremos 
Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas 
O rebater do coração se ouvia 
Precípite. - Do rosto afogueado 
Gélidas bagas de suor corriam: 
Talvez que o assaltava um pensamento... 
Já não... que na enlutada fantasia, 
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, 
Do velho pai a moribunda imagem 
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato! 
Curvado o colo, taciturno e frio. 
Espectro d’homem, penetrou no bosque!
.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ecos de Paris



Agora coloco a metade do primeiro capítulo de uma das obras do maior expoente realista português: Eça de Queiroz. O autor, que vivia em Paris, teve grande influência dos escritores franceses da época. Alguns de seus romances, como a trilogia "O crime do padre Amaro", "Os Maias" e "O primo Basílio" seguem a estrutura do romance realista francês. E outros, como "A cidade e as Serras" tem mais o estilo próprio do autor. No entanto, mesmo os primeiros têm características que fogem um pouco à cartilha através de personagens não planos entre outras. Ecos de Paris fala ao mesmo tempo da cidade e da vida social.
Essa introdução no primeiro capítulo conta a descaracterização cultural para imitar as revoluções sociais que aconteciam em Paris. Caminho esse que desagrada o autor e ao fim do qual ele prevê o total desinteresse pelas cópias em detrimento de Paris e Londres.



Ecos de Paris - Eça de Queiroz



I
PARIS E LONDRES


Eu não direi, como Lord Beaconsfield, que «no mundo só há de verdadeiramente interessante Paris e Londres, e todo o resto é paisagem». É realmente difícil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou ver apenas no movimento social da Alemanha um fresco regato que vai cantando por entre as relvas altas.
Não se pode negar, porém, que a multidão contemporânea tende para esta opinião do romanesco autor de Tancredo e da guerra do Afeganistão: nada vê no universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa coisa cintilante e vaga que pode compreender desde as criações da arte até aos  menus  dos restaurantes, desde o espírito das gazetas até ao luxo das librés – e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se dela, onde ela é mais original, mais complexa, mais rica, mais pitoresca, mais episódica, em Paris e em Londres: ao resto da Terra pede apenas cenários de Natureza, relíquias de arte, trajes e arquitecturas...
... Em Roma contempla os ornamentos do passado – o Coliseu e o papa; em Madrid interessam-no só os Velásquez e os touros; ninguém viaja na Suíça para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar diante dos Alpes.
E assim, para a turba humana, mais impressionável que critica, o mundo aparece como uma decoração armada em tomo de Paris e Londres, uma curiosidade cenográfica que se olha um momento, pedindo-se logo toda a atenção na tragicomédia social que palpita ao centro.
Isto  é uma superstição. Mas se realmente, o mundo fosse apenas uma paisagem acessória  – a devoção burguesa por Paris e Londres, residências privilegiadas da humanidade criadora, seria justificável: porque, na verdade, o interesse do universo está todo na vida, na sua luta, na sua paixão, no seu cerimonial, no seu ideal e no seu mal. O Sol, nascendo por trás das Pirâmides, sobre o fulvo deserto da Líbia, forma um prodigioso cenário; o vale do Caos, nos Pirenéus, é de uma grandeza exuberante – mas todos estes espectáculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comédia de ciúmes, passada num quinto andar. Que há, com efeito, de comum entre mim e o Monte Branco? Enquanto que as alegrias amorosas do meu vizinho, ou os prantos do seu luto, são como a consciência visível das minhas próprias sensações.
O grande Dickens, diante dos Alpes ou dos palácios de Veneza, punha-se a pensar com saudades nas tristes ruas de Londres, num rumor de fim de dia e no prazer de surpreender as expressões de ansiedade, triunfo ou dor, nas faces dos que passam, alumiados pelo gás vivo das lojas. E que o melhor espectáculo para o homem  – será sempre o próprio homem.
Se sobre a Terra só houvesse fachadas de catedrais ou vulcões flamejantes, a Terra parecer-nos-ia tão insípida como a Lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a própria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as  águas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o vale – a paisagem é intolerável, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença de um peito, de um coração vivo.
Mas a verdade  é que fora de Paris e Londres há também humanidade. Sampetersburgo não forma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou Sampetersburgo como um mero acessório da decoração, como aquele arabezinho diminuto que os fotógrafos colocam sempre à base das ruínas de Palmira, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de púrpura que nos quadros do século XVII ornam as paisagens ideais.
O que essa humanidade de província faz, diz, sofre ou goza – é-lhe indiferente. Não é a ela que vai ver, se visita os lugares que ela habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada  é algum monumento, algum panorama  –- a paisagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Sintra, a Alemanha é o Reno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois dele, o que estraga a beleza de Lisboa  é a
presença do Lisboeta  – como a mim o que me estraga a Alemanha  é a presença do Prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade  – a de Paris e de Londres.
Mas, dentro em pouco, nem ruínas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, nas maneiras e nos edifícios, desde os regulamentos de polícia até à vitrina dos joalheiros  – a dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, há cópias do Mabile, e os ulemás esquecem as metáforas gentis dos poetas persas, para repetir os
ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi, ao penetrar as muralhas de Jerusalém foi o cancã da Bela Helena, e saiu da habitação de um rabi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dois velhos colarinhos de papel,  modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetizavam suficientemente aquela
riba sagrada.
O mundo vai-se tornando uma contrafacção universal de Bulevar e da Regent Street. E o modelo das duas cidades  é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginaliza, e se perde sob a forma francesa ou britânica, mais se considera a si mesma civilizada e merecedora dos aplausos do Times. O Japonês julga-se, na escala dos seres, muito superior ao Chinês, porque em Yedo já o indígena se penteia como o tenor Capoul e lê Edmond About no original; enquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pequim, ainda vai no rabicho e em Confúcio. E, ainda assim, nas margens do Amor já há fábricas de tecidos de algodão, como em Manchester.
Positivamente, inclino também para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do universo está em Paris e em Londres: tudo mais é má imitação de província. Por isso que a curiosidade pública  é impelida para lá – dando ao resto do mundo apenas aquele olhar rápido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paisagem ou se perfilam linhas de um pórtico.
É por isso que ninguém que tenha o orgulho de se considerar ser racional prescinde de se informar diariamente de tudo  que se passa em Paris ou em Londres, desde as revoluções até às toilettes, desde os poemas até aos escândalos.
O desejo mais natural do homem é saber o que vai no seu bairro e em Paris.
Que importa o que sucede na  Ásia Central, onde os Russos se batem, ou  na Austrália, onde há crise ministerial? O que se quer saber é o que fez ontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.
E com razão: a Ásia Central e a Austrália não ensinam nada, e Paris e Londres ensinam tudo.
Tendo assim sacrificado suficientemente à regra, que quer que todo o escritor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de frases genéricas armadas em pórtico – creio que devo começar esta crónica falando hoje de Paris, capital dos povos e pátria genuína de Mr. Prudhomme...

sábado, 3 de novembro de 2012

Alma Minha Gentil, que te Partiste


Apesar de controverso, muitos julgam Camões o maior poeta da língua portuguesa. Embora sua imortalidade seja devida sobretudo ao seu poema épico, os Lusíadas, recebe um lugar importante em sua obra a poesia lírica. Enquanto na primeira há o otimismo com relação ao futuro e o orgulho das glórias do passado, na segunda há a melancolia e muitas vezes a saudade, exclusividade nossa. O sentimento intraduzível, o estar sozinho entre as gentes, uma das bases do tripé da alma portuguesa, aliada à coragem e à amizade.



Alma Minha Gentil, que te Partiste - Luís Vaz de Camões


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.